MARCELO BERTOLUCI - DANDO PITACOS

Vizinhos são inevitáveis. Uma pessoa não pode viver isolada, afastada de todos. Um país também não. E como um país não pode mudar de endereço, é importante conhecer seus vizinhos e manter, na medida do possível, boas relações com eles.

Neste momento, dois importantes países que, como o Brasil, “moram” na América do Sul, estão passando por momentos delicados. E é importante acompanhar a sua situação, porque pode haver consequências para nós.

O primeiro caso é o da Argentina, e é muito fácil de explicar. Fazem uns oitenta ou noventa anos que a Argentina enveredou pelo caminho do estado grande e populista, muitos empregos públicos, muita corrupção, muito subsídio para transporte público, telefone, eletricidade e gasolina, muito populismo. Alguns números, só como aperitivo:

– Das 23 províncias argentinas, 7 têm mais gente empregada pelo estado do que na iniciativa privada. Em apenas duas o funcionalismo público representa menos de 30% do total de empregos.

– Segundo o Relatório de Competitividade Global do Fórum Econômico Mundial, a Argentina tem a maior carga tributária dos 138 países analisados.

– Os gastos públicos estão muito perto de 50% do PIB.

– Nos últimos 50 anos, a Argentina já declarou calote de sua dívida externa quatro vezes (1982, 1989, 2002, 2004).

– Entre 1960 e 1994, a inflação média foi de 127% ao ano. Em 2012, a presidente Cristina Kirchner proibiu a divulgação de dados sobre a inflação, sob pena de prisão.

– Em 2013, seis pesos compravam um dólar. Hoje são precisos sessenta pesos, ou seja, a moeda vale um décimo do que valia seis anos atrás.

– Durante o governo dos Kirchner, a reestatizada Aerolíneas Argentinas recebia do governo dois milhões de dólares por dia.

Outra coisa importante: quando Macri ganhou as eleições em 2016, a imprensa do mundo se apressou em chamá-lo de “neoliberal” e “de direita” (ou “extrema-direita”). Não é verdade. Macri apenas não faz parte do mesmo grupo político dos Kirchner, mas manteve uma política quase igual: subsídios, congelamentos, aumento descontrolado da dívida, emissão descontrolada de dinheiro.

Com o fim do governo Macri e o retorno da turma dos Kirchner, um monte de gente (a Globo, a Veja, a Folha e todos os inteligentinhos que cursam humanas numa federal) vai fingir que estava tudo maravilhoso até 2015 e vai repetir sem parar que os problemas da Argentina são culpa exclusivamente “da direita”, e que mais uma vez está “provado” que capitalismo e liberalismo “não funcionam”. Repito: o governo Macri não foi nem de direita, nem capitalista, nem liberal. Aliás, se os economistas da esquerda tivessem razão, a Argentina estaria rica, porque o governo Macri fez exatamente o que a esquerda defende: aumentar impostos para os “ricos”, criar dívida e gastar muito. Só que a teoria desenvolvimentista (aumentar os gastos do estado estimula a economia) é tão furada quanto a teoria da terra plana.

Os números da Argentina são tão feios que eu realmente não imagino que tipo de medidas o novo governo vai tomar para tentar esconder o problema – resolver o problema, evidentemente, é algo que nem passa pela cabeça deles. Não é absurdo pensar em uma situação similar à dos venezuelanos em Roraima, só que desta vez nos estados do sul.

(Semana que vem falarei de outro vizinho, o Chile)

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