MARCELO BERTOLUCI - DANDO PITACOS

Você está vendo esse cidadão sorridente na foto? Ele se chama Adi Astl, é canadense e o governo não gosta dele. Por que? Porque um dia, cansado de ver pessoas caindo ao tentar descer esse barranco em um parque da cidade de Toronto, ele fez uma vaquinha entre os vizinhos, juntou 550 dólares e construiu, em uma tarde, a escada que aparece na foto. Ele fez isso após ter consultado a prefeitura, e descoberto que a construção de uma escada estava “em estudos”, e que a previsão de gasto era de 65.000 a 150.000 dólares.

Os vizinhos ficaram contentes com a iniciativa de Adi, e alguém avisou a imprensa que fez uma pequena reportagem, incluindo a foto lá de cima. Já a prefeitura não gostou nada: assim que viu a reportagem, bloqueou o acesso à escada com fitas plásticas e avisos. E alguns dias depois, funcionários da prefeitura demoliram a escada, enquanto a prefeitura explicava que a “obra irregular” não atendia aos “padrões exigidos” e não havia obedecido às regras que a burocracia estatal exige.

“Nós não podemos deixar que as pessoas construam uma escada em um parque apenas porque elas querem ter uma escada”, informou o prefeito. Ele também informou que “em breve” a prefeitura iria construir uma escada “obedecendo a todas as exigências legais”. O prefeito também reconheceu que a estimativa inicial para o custo de construção era “rídicula e fora da realidade”. Graças aos “grandes esforços” dos funcionários envolvidos, a nova expectativa era de que a nova escada custaria “apenas” dez mil dólares.

Para nós brasileiros é natural pensar imediatamente em corrupção e mutreta com alguma empreiteira. Em se tratando de Canadá, eu dou o benefício da dúvida, e acho possível que não tenha havido nada ilícito nesta escada de dez mil dólares. O que acontece é simplesmente o acúmulo de burocracia.

Um exemplo: eu, que fui técnico de manutenção, já apertei milhares de parafusos na vida. Nunca usei luvas para isso. Mas se um lobby consegue que se crie um regulamento obrigando os funcionários a usar luvas para apertar parafusos, o que acontece? Surgirão empregos de comprador de luvas, administrador de luvas, certificador de luvas, inspetor de luvas, carimbador de formulário de controle de luvas, arquivador de formulário de controle de luvas e assim por diante. Multiplique isso pelas centenas de pequenas obrigações burocráticas que surgem a cada passo, e fica fácil enxergar para onde vai tanto dinheiro.

Outro exemplo: eu recentemente precisei que um chaveiro consertasse uma fechadura em minha casa. Chamei pelo whatsapp, fui atendido no mesmo dia e paguei quarenta reais. Mas algum tempo atrás vi a notícia de uma estatal que precisou consertar uma fechadura. Ela publicou um anúncio no jornal avisando que havia sido aberta uma licitação para contratar o serviço de reparo da fechadura. Os interessados deveriam comparecer à sede da estatal e retirar o edital, de dezenove páginas, que descrevia os procedimentos e a documentação necessária para participar do processo de licitação. Será que alguém fez o serviço por quarenta reais? Provavelmente a tal licitação custou dezenas de vezes mais do que isso só em horas de trabalho de um monte de funcionários.

Mais um? Minha cidade, Curitiba, estava anunciando um novo tipo de ônibus no transporte público, apelidado “ligeirão”, e a prefeitura alardeava que os novos veículos tinham um computador que obtinha a posição do veículo via GPS, consultava em um banco de dados a velocidade máxima permitida para aquele local, e impedia que o ônibus ultrapassasse este limite. Considerando as exigências que são feitas para a vaga de motorista, eu achei a idéia um desperdício. Mas a realidade foi pior: no dia da inauguração da nova linha, descobriu-se que os tais computadores, que custaram uma bela grana, não funcionavam direito, e vários ônibus ficaram parados no meio da rua, porque quando o tal computador, quando “trava”, não deixa o ônibus sair do lugar.

Voltando ao caso da escada, os jornais publicaram a opinião da vizinhança sobre o caso, e a maioria dizia que faltava bom senso e “noção de realidade” para a prefeitura. A questão é que, como diz uma antiga expressão, “é difícil uma pessoa entender algo, se não entender garante o emprego dela”. Ou seja, se a vaga só existe em função da burrice burocrática, ninguém vai questionar essa burrice e correr o risco de perder o emprego. Com o tempo, a pessoa encarregada de carimbar o formulário de controle de luvas para apertar parafuso passa a acreditar sinceramente que sem os formulários devidamente carimbados o futuro da humanidade está em risco.

Um escritor e jornalista norte-americano, Jerry Pournelle, disse uma vez: “toda organização burocrática, com o passar do tempo, se preocupa cada vez mais com seus próprios interesses e cada vez menos com a atividade para a qual ela foi criada”. Vou repetir a frase do prefeito: “Nós não podemos deixar que as pessoas construam uma escada em um parque apenas porque elas querem ter uma escada”. E a história de que os governantes estão lá para servir ao povo? Esqueça. Os governantes estão lá para atender aos seus próprios interesses e aos interesses daqueles que fazem parte da burocracia. É por isso que para construir uma pequena escada em um parque, é necessária a participação de vários engenheiros, vários consultores, vários carimbadores, e os pareceres de meia dúzia de secretarias (urbanismo, meio ambiente, saúde, planejamento…), Tribunal de Contas, IBAMA, Patrimônio Histórico, Ministério Público, INCRA, FUNAI, ANVISA e provavelmente OAB. O que todos eles estão fazendo é simplesmente dar a impressão de que são necessários para com isso preservar seus empregos.

A solução? Menos governo, óbvio. Quando as pessoas fazem as coisas por si mesmas, ao invés de esperar que os outros façam por elas, elas percebem o que é importante e o que é inútil. Mas para isso é preciso que as pessoas tenham a capacidade de perceber que uma escada é só uma escada.

26 pensou em “NOSSOS SEMPRE BONDOSOS GOVERNOS

  1. Não sei se li aqui no JBF um texto sobre a construção de uma ponte numa favela do RJ , que vários prefeitos prometeram construir ,sempre aumentando o valor da construção , até o dia que o dono do pedaço , o traficante resolveu usar o seu próprio dinheiro para construí-la . O seu gasto foi de cerca de R$ 500 mil , e o último orçamento da prefeitura já batia nos 10M .
    Construída a ponte , o atual prefeito usou os mesmos argumentos da prefeitura no Canadá e disse que ia derrubar a ponte .
    A resposta do traficante foii simples e direta . Você vem aqui derrubá-la que eu vou te encher de balas . O prefeito desistiu da ideia .

    • Com certeza existem muitos outros exemplos. Tem um caso onde contrabandistas na Bielorússia asfaltaram uma rodovia para facilitar o “frete”, e o governo foi lá e instalou um posto da polícia e uma alfândega.

    • Caro Airton, digamos (só uma suposição) que a ponte caia e mate algumas pessoas (isso acontece com prédios e obras irregulares construídos nas cumunidades). Neste caso o traficante irá pagar pelas mortes?

      • Tem outra coisa também, caro Airton; quando ocorre uma destas tragédias de obras irregulares nas “cumunidades”, a primeira coisa que se pergunta na imprensa é: Como que a prefeitura permitiu? cadê o Alvará?

        No caso da boate Kiss, tem um responsável pelo alvará preso. Se fosse o traficante….

      • Airton, acabei de ver; no caso da Boate Kiss, dos 4 presos, não tem nenhum ligado à prefeitura ou ao poder público. Acho que no Canadá seria diferente.

        Ainda acho que o poder público tem criar normas, padrões, que fiscalizar e liberar obras; para que a sociedade não fique à mercê de qualquer um, por mais bem intencionado que seja.

        • A ciclovia Tim Maia caiu . Quem foi que autorizou a prefeitura fazer uma ciclovia , que qualquer um que parasse próximo a ela e visse as ondas batendo nas pedras , saberia que ela não resistiria ?
          Viaduto Eugène Freyssinet caiu . O engenheiro responsável pegou 1 ano e 4 meses com direito a sursis .
          O prédio do Ségio Naya caiu e ele morreu antes de ressarcir todas as vitimas .
          Um viaduto caiu em BH , 5 engenheiros foram condenados
          com pena máxima de 3anos e 1 mês .

      • João Francisco está correto, como costuma ser. Traficantes e milicianos substituem o poder público para dominar seus currais. Por isso nosso Governo Federal tem uma campanha explicita contra as milicias. Só não enxerga quem não quer enxergar. Inclusive Flávio Bolsonaro que obteve sua maior votação em áreas dominadas por milicianos, certamente foi escolhido assim, porque os eleitores daquelas regiões confiam muito que Flávio vai dar fim na exploração dos serviços de gás, TV, taxas contra os comerciantes, controle do transporte e etc. Fabricio Queiroz, Ronie Lessa e o falecido Capitão Adriano da Nóbrega sempre foram contra os milicianos. O Governo Federal em parceria com os Estados vão acabar com essa exploração do povo pelos milicianos.
        Quanto mais Governo Bolsonaro menos milicias

        • Carlos, Moro é um que jamais poderá falar de rachadinha. Seu Partido, o Podemos trás no estatuto que filiados nomeados a cargos públicos devem entregar 5% de tudo o que recebem para o Partido. Moro tem seu atual salário pago por rachadinhas.

          Quanto à união de Bolsonaro com milícias, por mais que investigassem de todas as formas não encontraram nem um único telefonema.

          Tentaram até fazer uma ligação com um vizinho do JB (Lessa) envolvido com a morte da Marielle. Fake News da Globo.

      • Pode até haver exceções, mas aqui em Pindorama a regra é que quando a ponte construída pelo governo cai, ninguém é culpado, e quando a obra que foi fiscalizada e aprovada por um monte de fiscais desmorona, nenhum dos fiscais têm culpa nenhuma.

        Já o contrário aparece aos gritos na imprensa o tempo todo: “acidente ocorreu por falta de carimbo da prefeitura!”

        Um exemplo: quando morreu o Ricardo Boechat, alguém descobriu e minutos depois todo mundo repetia que “o helicóptero estava irregular”, como se tivesse caído por causa disso. O que aconteceu era que o helicóptero tinha licença para “atividades jornalísticas”. Isso significa que ele podia levar o Boechat para fazer uma reportagem, mas não podia levar o Boechat para dar uma palestra, porque isso seria “táxi aéreo”, o que exigiria outro tipo de carimbo.

  2. “Quando você perceber que, para produzir, precisa obter a autorização de quem não produz nada; quando comprovar que o dinheiro flui para quem negocia não com bens, mas com favores; quando perceber que muitos ficam ricos pelo suborno e por influência, mais que pelo trabalho, e que as leis não nos protegem deles, mas, pelo contrário, são eles que estão protegidos de você; quando perceber que a corrupção é recompensada, e a honestidade se converte em autossacrifício; então poderá afirmar, sem temor de errar, que sua sociedade está condenada.”

    Ayn Rand

  3. Essa história é bem peculiar, e parecidíssima com um país que nós conhecemos. Pensava, em um Canadá, bem desenvolvido…..

  4. Basta ver o orçamento bilionário da Educação e seus resultados nos exames internacionais.
    Comprova-se que o Estado é “extremamente ineficiente”.

    Todos os Tribunais de Contas da União, Estados e Municípios poderiam ser substituídos por “Auditoria Privada”, pela metade dos custos e, ainda fariam melhor consultoria do que estes marajás de merda.

    • Você acertou no alvo, José Roberto. O estado, mesmo nos países mais desenvolvidos, é e sempre será ineficiente.

      Mas como ele proíbe a concorrência e controla a educação, muita gente acredita que sem o “bondoso” estado nós todos morreríamos de fome.

      Para dar uma idéia do grau de doutrinação estatal, eu já vi um sujeito dizer “se não existisse o Ministério da Educação, os professores não iriam saber o que ensinar”.

  5. Em matéria de Bertoluci pouco comento, pois fico atento em aprender.

    O BRASIL, ESTE GIGANTESCO CABIDE DE EMPREGO… Haja tetas e mamadores…

    O que todos eles estão fazendo é simplesmente dar a impressão de que são necessários para com isso preservar seus empregos. PODE SER aplicado a qualquer órgão governamental em qualquer de seus entes, seja a ãmbito Federal, Estadual ou Municipal.

    A solução? Menos governo, óbvio (tradução: PRIVATIZEM SAPORRA TODA, pois político não sabe administrar). Quando as pessoas fazem as coisas por si mesmas, ao invés de esperar que os outros façam por elas, elas percebem o que é importante e o que é inútil. Mas para isso é preciso que as pessoas tenham a capacidade de perceber que uma escada é só uma escada.

    Texto do Marcelo só me cabe a função de “aplaudir”.

    • Copio Sancho pois tudo que teria que ser dito ele disse.
      Comentar seria redundância.

      ” Mas para isso é preciso que as pessoas tenham a capacidade de perceber que uma escada é só uma escada”.

      Abraços

  6. Uma coisa que eu acho que morrerei sem entender: a forma como algumas pessoas se referem ao estado (ou governo, ou “poder público”) como algo mítico, etéreo, divino, e imbuído de virtudes mágicas e sobre-naturais. Não, o estado é apenas a denominação coletiva de um grupo de seres humanos, todos portadores de qualidades e defeitos, mas organizados de uma forma em que há poucos estímulos para agir bem e muitos estímulos para agir mal.

    Então, quando o poder público cria “normas e padrões”, “fiscaliza e libera obras”, todos nós não apenas estamos “à mercê de qualquer um”, como temos que pagar o salário deste qualquer um, sem que este sequer precise ser “bem intencionado”.

    Existe um livro de Bruno Garschagen que tem como sub-título “porque os brasileiros não confiam nos políticos e amam o estado”. Esta esquizofrenia foi apelidada “Paradoxo de Garschagen”.

  7. Nos anos 1980 obrigaram-nos a comprar uma porra de um kit de primeiros socorros e botar um selo no parabrisa do carro. Os ladrões usavam o kit para amarrar os motoristas depois de roubá-los.

    • Mais recentemente, disseram que todo mundo ia ter que trocar o extintor do carro. A indústria pediu mais prazo pois não tinha como produzir tanto extintor em pouco tempo. Aumentaram o prazo, as fábricas estocaram milhões de extintores, e quando faltava um mês para acabar o prazo, eliminaram a obrigatoriedade do extintor (com o que eu concordo, mas da maneira como fizeram foi uma baita sacanagem).

  8. Funcionários públicos (de todas as esferas = municipais, estaduais e federais /executivo, legislativo e judiciário), formam um espécie de máfia (pacto silencioso? sindicato dos cínicos) em que qualquer projeto que dê, ao menos aparência de que perderão “direitos” (leia-se regalias), ela morrerá no nascedouro. E o ousado proponente nunca mais ganhará qualquer eleição.

    É um pacto de sangue de uma casta que domina o país desde a proclamação da república. Vide um sem-número de estatais criadas, que nada produzem e todo seu orçamento e sua folha de pagamento, depende unicamente do tesouro nacional.
    Haja bondade do “governo”
    .

    • Ilustre, como diz o ditado: “me inclua fora disso”. Sou funcionário público, federal, não sou sindicalizado, embora tenho alguns amigos que o são, estou trabalhando, mais precisamente desde o dia 03/06/2020, com aulas remotas. Em setembro/2020 ensinei em 5 turmas de graduação, duas delas no curso de Ciência Política, porque o departamento de economia não cedeu professor para as disciplinas. Ensino na pós, oriento aluno, tenho trabalhado o dobro ou triplo do que eu trabalhava em sala porque na sala eu pego o pincel e deduzo no quadro todos os modelos…. não preciso digitar, fazer slides, etc. Meu salário é menor que outros profissionais públicos, mas paciência… Então, não são todos os funcionários públicos.

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