DEU NO JORNAL

Alexandre Garcia

Um homem com histórico de violência discute com a funcionária do supermercado, e chega a segurança; ele dá um murro em um dos vigilantes e eles revidam. O homem morre. Tem pele diferente dos dois seguranças e é véspera do “Dia da Consciência Negra”. Pronto, está armada a narrativa de dois brancos mataram um negro. Há quem gostaria de poder transferir para o Brasil os protestos anti-raciais de um país diferente do nosso, os Estados Unidos. Seria como, em 6 de setembro de 2018, noticiassem: “Um negro dá facada em branco”, no episódio com fundamento político e não racial, da agressão de Adélio a Bolsonaro.

Com a vontade de espalhar racismo para dividir os brasileiros, esqueceram a frequente violência em supermercados, praticada por seguranças despreparados para agir em crise. No caso de Porto Alegre, o que tinham de fazer é imobilizar o agressor e encaminhá-lo à delegacia. No Carrefour, um paraplégico que abrira uma latinha de cerveja foi espancado no banheiro; um cliente com pele mais escura foi tratado como ladrão de carro quando ía entrar no seu automóvel. E o chefão do Carrefour ainda dá uma nota de desculpas alegando que a tragédia está além de sua compreensão, “como homem branco privilegiado que sou”. Agora sim, apartheid.

Racismo, sim, é separar as pessoas pela cor da pele. Cor da pele não é mérito. Nem demérito. Temos que nos prevenir daqueles que semeiam o ódio, por diferenças de renda, de cor da pele, de sexo, de preferências sexuais e políticas. Civilizados não aceitam isso. Há preconceitos, sim, em todos esses aspectos de diferenças, que não podem justificar atitudes. Todos são livres para gostar ou não gostar; só não podem agredir os outros por causa disso. Todos são livres para ter seus gostos, desde que também respeitem os direitos alheios. Para a violência, o remédio é a lei, não a violência no sentido contrário.

No episódio de Porto Alegre há evidente excesso dos seguranças e omissão dos circunstantes; em parte do noticiário que se seguiu há sinais de conclusões apressadas de pregação de racismo e nem ruborizamos com isso. Na escola de jornalismo que foi o Jornal do Brasil, por dez anos recebi lições de que nosso papel é retratar fatos e não modificá-los. Nossa credibilidade é avaliada todos os dias. Esperar as conclusões do inquérito é não se julgar acima dos fatos e da inteligência do público.

3 pensou em “NO RUBOR DA PELE

  1. E na Câmara Federal por falta de assuntos mais urgentes , vai ser discutido a morte do marginal sensível e amante de gatos , a do Beto , ou melhor do São Beto .

  2. Hoje a defensoria pública entrou com um pedido de indenização de 200MM, e mais uma penca de coisas absurdas a serem cumpridas pelo Carrefour, devido ao racismo demonstrado pela empresa, não esperaram nem a conclusão do inquérito policial.
    O 1º objetivo já foi cumprido: deu manchetes, o 2º vai acontecer silenciosamente, as empresas estrangeiras deixam de investir no país.
    Depois ficam alarmando por aí que o Brasil não recebe investimentos estrangeiros, pq não cuida do meio ambiente.

  3. Parabéns ao Alexandre Garcia! Ninguém ainda tinha tido a coragem de cutucar essa ferida! A questão é se o sujeito morreu porque era preto ou porque era um mala e os seguranças eram malucos? Parece que a grande imprensa já resolveu isso! Aliás, os seguranças, o Carrefour e a funcionária já foram devidamente julgados e condenados! Fogueira nesses racistas!!!

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