MARCELO BERTOLUCI - DANDO PITACOS

O jornalista Tutty Vasquez costumava chamar de “notícia enguiçada” esses assuntos que nunca acabam, que parece que já passaram mas voltam. Um deles, que já me atraiu a atenção faz muito tempo, é o tal do nióbio. Como muita gente, eu tinha muitas dúvidas sobre ele. Aí vão as respostas que encontrei para minhas perguntas:

Afinal, o que é nióbio?

Nióbio é um metal do grupo 5 da tabela periódica, símbolo Nb e número atômico 41. Sua aparência não tem nada de especial, com uma cor acinzentada igual a vários outros metais, mas suas características o tornam bastante útil em várias aplicações. A maior delas (estimados 90%) é na fabricação de aços de alta resistência. Também é usado na fabricação de eletroimãs supercondutores em aparelhos de ressonância magnética e em ligas especiais usadas na indústria aeroespacial.

Por que no Brasil se fala tanto em nióbio?

Porque o Brasil é o maior produtor mundial. Em Araxá (MG) existe uma empresa chamada Companhia Brasileira de Metalurgia e Mineração que produziu 110.000 toneladas em 2019 e planeja aumentar a produção para 150.000 toneladas este ano. A CBMM é uma empresa privada, mas com participação do governo estadual através da Codemig. Em Catalão (GO) existe outra mina, com produção bem menor.

As estimativas da fatia brasileira no mercado mundial variam entre 75 e 90%, conforme a fonte e o ano de referência. Como a maioria das vendas são efetuadas entre empresas privadas, não há dados públicos confiáveis a respeito.

Só o Brasil tem nióbio?

Não. Embora a CBMM domine o mercado mundial, sabe-se que existem minérios contendo nióbio (pirocloro é o mais comum) em vários lugares ao redor do mundo, como Canadá, Austrália, Moçambique e Rússia.

É preciso tomar cuidado com uma coisa: é comum ouvir que “o Brasil detêm 90% (ou 92%, ou 99%) das reservas mundiais”; o significado dessa frase não é o que parece. A palavra “reserva” nesse contexto significa uma jazida avaliada segundo critérios pré-estabelecidos, e considerada “explorável” do ponto de vista técnico e financeiro. É nessa última palavra que está o X da questão. Digamos que uma empresa possui uma mina em algum lugar do mundo, e calculou que pode produzir nióbio a um custo de $50/kg. Se o preço de mercado está abaixo de 50, as reservas dessa empresa são zero, não importa quantas toneladas de minério existam. Mas se o preço subir, a exploração passa a ser economicamente viável e as reservas passam a “existir”. Em outras palavras, a quantidade de reservas no mundo depende do preço.

O nióbio é insubstituível?

Embora cada elemento químico seja único, é difícil falar em materiais insubstituíveis. Sempre há uma relação custo-benefício envolvida, e o nióbio é bastante usado justamente porque tem um preço competitivo em relação a outros metais similares. Isso significa que se o preço do nióbio começar a subir, haverá uma tendência de reduzir o seu uso, substituindo-o por vanádio, tântalo, titânio, etc.

Além disso, mesmo quando não há substituto, o uso pode deixar de ser viável em função do preço. Um exemplo: aços contendo nióbio vêm sendo usados na construção de motores de avião mais leves e mais econômicos. Mas não adiantaria nada usar nióbio se a economia obtida durante a vida útil do motor não pagar o aumento do custo de fabricação.

O Brasil está perdendo (ou deixando de ganhar) dinheiro com o nióbio?

Depende do ponto de vista. A CBMM com certeza está contente com sua participação no mercado. Na sua posição, ela poderia facilmente aumentar o preço, mas sabe que isso poderia ser “um tiro no pé”. De um lado, como já disse, incentivaria seus clientes a pesquisar materiais alternativos. De outro, poderia estimular a implantação de outras minas no restante do mundo, aumentando a concorrência. Seria a velha história de matar a galinha dos ovos de ouro para tentar pegar todo o ouro de uma vez só.

Por outro lado, há os que acham que sempre que alguém está trabalhando e produzindo algo, é um direito natural do governo tomar uma parte. Claro que há gente no governo com os olhinhos brilhando ao ver o próspero negócio da CBMM, pensando em como ficar com um naco, seja por meio de mais impostos, seja por meio de uma estatização forçada. Pelos mesmos motivos explicados no parágrafo acima, seria um tiro no pé.

Existe contrabando de nióbio no Brasil?

Pouco provável. É algo que só faria sentido em um volume de milhares de toneladas por mês, e isso não é como levar pacotinhos de cocaína na mochila. Existe uma logística envolvida, e em pequenas quantidades o custo ficaria mais alto que a operação legal. Além disso, uma operação como a da CBMM envolve escavar vários milhões de toneladas de minério por mês, o que não é algo que possa ser feito escondido em um fundo de quintal.

Existem países querendo roubar nosso nióbio?

Não. Já faz algum tempo que o mundo descobriu que fazer negócios é mais fácil e mais barato que fazer guerras. Se uma empresa quer comprar nióbio e outra empresa tem para vender, é só combinar o preço e assinar o pedido. Além do mais, como é que se rouba um minério que está embaixo da terra? Alguém iria erguer com um guindaste o município de Araxá, sub-solo junto, colocar em um caminhão e levar embora? Os compradores de nióbio, como toda empresa, só querem um mercado livre onde se possa fazer negócios sem políticos atrapalhando.

O Brasil deveria guardar o nióbio para o futuro?

Não. Minério embaixo da terra não vale nada. Extraído, processado e vendido, ele se transforma em riqueza que se espalha pela economia e beneficia a todos. Além disso, não há nenhuma garantia de que qualquer mineral vai valer mais no futuro do que vale hoje, pelo contrário, ele pode se tornar obsoleto. Como disse alguém, “a idade da pedra não acabou por falta de pedra, acabou porque descobrimos opções melhores”.

Afinal, de onde vem tanta falação sobre o nióbio?

Vêm de políticos e “intelectuais” sensacionalistas que não sabem fazer contas e gostam de fazer discursos bombásticos e vazios para eleitores que acreditam mais em milagres do que no trabalho. Um exemplo é o famoso Enéas Carneiro, que em 2006 afirmou que “a riqueza do nióbio equivalia ao PIB brasileiro”. De fato, a CBMM têm reservas provadas de 40 milhões de toneladas, que valem hoje aproximadamente 2 trilhões de dólares. Só que essas reservas vão ser exploradas ao longo de várias décadas. Falar como se esse dinheiro estivesse disponível, dependendo apenas de “vontade política” para ser gasto, é apenas uma mentira típica de discursos políticos.

Resumindo: o nióbio não é diferente da soja ou do café: são simplesmente bens que produzimos e vendemos para outros países, e quanto menos oba-oba se fizer a respeito, melhor.

13 pensou em “NIÓBIO

  1. As principais perguntas que faltaram.

    Dada a posição privilegiada do Brasil em relação às reservas de nióbio, poderia o país se beneficiar deste fato, fazendo o beneficiamento dos minérios e exportando produtos de maior valor agregado com um preço ainda competitivo?

    Poderia o país ter centros de excelência procurando novas aplicações para este metal tão importante na área de novos materiais?

    Enéas Carneiro não estava errado em sua avaliação sobre o Nióbio. Jamais ele disse que iria pagar a dívida do Brasil com as reservas do metal.

    Jamais foi dito por Bolsonaro que seria bom estatizar as minas do metal existentes em Araxá, que aliás pertence à família Moreira Salles (Itaú – Unibanco) a família mais rica do Brasil.

    O Brasil é o maior produtor / exportador de soja do mundo, tem potencial de produção de 1/3 dos alimentos do planeta, sem derrubar uma única árvore da Amazônia. Isso não é pouca coisa, pois atualmente a falta de segurança alimentar é o que faz com que a China, por exemplo, possa se tornar vulnerável politicamente.

    Ah, e não falamos ainda no Grafeno, material que vai dominar a tecnologia no futuro próximo. Advinha onde estão as maiores reservas mundiais deste produto? Bingo, no Brasil.

    • Desde a década de 1980 a CBMM investe pesadamente em pesquisa em parceria com universidades e centros de pesquisa, justamente procurando novas aplicações para o nióbio. No caso de ligas ferrosas, as pesquisas tem como foco tanto a substituição, total ou parcial, de titânio, vanádio, molibdênio e outros elementos por nióbio quanto a adição desse elemento ao material.

    • – Como já respondeu a Ana, a CBMM não exporta minério, exporta apenas o nióbio já processado, a maior parte na forma de liga ferro-nióbio com 60% de pureza.

      – O Brasil poderia ter centros de excelência de qualquer coisa, já que infelizmente não somos excelentes em quase nada. Mas acho um pouco esquisito pensar em nos envolvermos com áreas tão específicas só porque temos o minério aqui. Me lembra a piada do cara que resolveu comprar um cavalo só porque achou uma ferradura na rua.

      – Quando falo em políticos e governos, estou me referindo aos discursos prometendo (ou insinuando) soluções milagrosas, que se transformam em boatos que vão se espalhando, aumentando e se transformando até virar “teorias da conspiração” malucas. Hoje a questão não é mais o que o Enéas disse sobre o nióbio, mas o que as pessoas acham que ele disse.

      – Como evidência dessa progressão de “verdades” que a internet inventa, permita-me corrigi-lo: não existem reservas de grafeno no Brasil, nem em nenhum lugar do mundo. Grafeno é um material artificial, produzido em laboratório (a partir de átomos de carbono, um dos elementos mais abundantes do planeta).

      • Com relação ao Grafeno, eu o desculpo pela correção, porém

        O Brasil tem uma das maiores reservas de grafita natural, material que “contém grafeno”. As reservas naturais de grafite chegam a 45% do total mundial.

        Com a matéria-prima abundante, o Brasil também investe em pesquisas na área. O primeiro laboratório da América Latina destinado à pesquisas com grafeno está localizado no Brasil, na Universidade Presbiteriana Mackenzie em São Paulo, chamado de MackGraphe.

        Segundo se pode ver nesta matéria abaixo, o grafeno se encontra na natureza, o problema é separá-lo na forma alotrópica do carbono, onde o arranjo dos átomos desse elemento forma uma fina camada.

        https://www.todamateria.com.br/grafeno/

        • Pois é, João. Meu ponto é justamente esse: o oba-oba dos exageros faz vítimas, dá informações erradas que confundem.

          Dizer que “grafita contém grafeno” é uma simplificação tão inútil quanto dizer que areia contém microprocessadores ou que barro contém vasos de porcelana Ming. Há um mundo de distância em termos de tecnologia entre um e outro.

          A Universidade Mackenzie está certíssima em pesquisar o grafeno, e torço para que as pesquisas cheguem a resultados práticos (esse é o calcanhar de Aquiles do ambiente acadêmico brasileiro).

          O que acho prejudicial é essa ligação com a “origem” da matéria-prima. Matéria-prima se compra, tecnologia se vende. É assim que os países hoje prósperos prosperaram (as baterias de lítio não foram inventadas na Bolívia). Esse clima de “o grafeno é nosso!” só atrapalha, cria boatos e expectativas irreais. A idéia do artigo foi justamente criticar isso.

      • Eu nada disse sobre exportação…

        “Mas acho um pouco esquisito pensar em nos envolvermos com áreas tão específicas só porque temos o minério aqui.”

        Mas é exatamente disso que estou falando. A CBMM investe em P&D em ‘áreas tão específicas’ para ampliar a aplicação do nióbio. E, ao falar em ligas ferrosas, estou me referindo a aços e ferro fundido.

        • Desculpe se não fui claro.

          A CBMM investe em nióbio, claro, é o negócio dela. Nada de errado, pelo contrário.

          Eu estava me referindo ao país como um todo, e principalmente aos sonhadores que acreditam que o país tem “monopólio” do nióbio e deveria verticalizar o setor para ganhar mais.

          Por exemplo: um dos grandes consumidores de nióbio (talvez o maior) é a indústria de motores de avião. Só existem três fabricantes relevantes no mundo. Será que seria uma boa idéia o Brasil tentar criar “na marra” uma indústria para concorrer com General Electric, Rolls-Royce e Pratt&Whitney, só porque “o nióbio é nosso?”

          • Fora estas três fabricantes de turbinas de avião que v. citou, ainda tem a China, a Rússia e o Japão (Mitsubich).

            Mas o Brasil, ao contrário do que v. pensa, também entrou para este exclusivo time. Tem a empresa Polaris, que fabrica motores dos mísseis da Avibrás.

            Pesquise mais sobre o desenvolvimento de alta tecnologia feita no Brasil e v. irá se surpreender. Nosso país não é tão vira-latas como v. pensa.

            Estamos bem em pesquisa de novos materiais, farmacêutica, reatores nucleares (o do submarino é 100% nacional).

            Na área agrícola vamos surpreender o mundo, contrariando “ambientalistas” europeus, que não vão poder competir em preço com o milho e soja nossos.

            Isso não é ufanismo e sim realidade..

            • Aí vira discurso ideológico de novo, João.

              Eu cito as empresas que produzem 90% dos motores de avião do mundo (e tomo o cuidado de falar “relevantes”).

              Aí você vem falar de uma para-estatal que fabrica míssil militar, e emenda com meia dúzia de promessas para o futuro (“vamos ser isso”, “vamos ter aquilo”, “vamos ser os maiores”, “vamos surpreender o mundo”…)

              Para mim, esse é um exemplo clássico e didático de ufanismo. E isso não tem nada a ver com ser realidade ou não.

              Bom final de semana.

              • Não é questão de discurso ideológico. V. falou que 90% dos motores de aviação do MUNDO Vêm da GE, RR e da P&W. Me prove isso ou eu vou achar que o seu discurso é ideológico.

                V. Exclui os fabricantes de motores de aviação Russos, Chineses, Japoneses, Franceses e outros.

                Falar até papagaio fala.

                Os “isentos” adoram menosprezar o Brasil, como tem sido nos últimos 30 anos.

            • A Polaris, empresa do ramo aeroespacial sediada em de São José dos Campos, está atraindo a atenção de fabricantes internacionais devido ao desenvolvimento de uma microturbina para mísseis.

              Não é uma paraestatal

              Veja mais sobre ela:

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