CORRESPONDÊNCIA RECEBIDA

“AS TARÂNTULAS” – A DESCRIÇÃO DE UM HOMEM PÓSTUMO SOBRE O PÓS-MODERNISMO (E QUEM EU SOU)

Prólogo:

Há muitas primaveras, no 2º Ano de Ensino Médio, aos 16 anos, cometi a ingênua (e monstruosa) ousadia de ter, como meu primeiro contato com a Filosofia, o colosso alemão Friedrich Nietzsche.

O livro? “O Anticristo”!…

Bom, daí vocês podem imaginar o resultado que é perscrutar incautamente os rincões e os meandros de uma das mentes mais intrincadas, inquietantes e desafiadoras da filosofia ocidental na condição de um cativo do sistema educacional brasileiro. Isso quando a hegemonia de Esquerda se encontrava plácida sobre um Conservadorismo relegado a mera condição conceitual de um trambolho anacrônico, jeca e jocosamente simplório.

Pois bem. Se vocês palpitaram que a consequência seria um imenso desastre, carreguem essa certeza para o resto de suas vidas, pois quem sabe tal nível de convicção lhes façam escolher os números certos para a “Megasena da Virada”. Não que Nietzsche seja um subversor depravado de mentes virgens. Longe disso! O problema é mais fácil de elucidar quando se parafraseia aquela citação do saudoso escritor estadunidense de HQs, Stan Lee (“Com grandes poderes vêm grandes responsabilidades”).

Pensem o que é dar uma bomba nuclear ao Irã, por exemplo. Quem já tem uma noção adulta do que é ser responsável por si mesmo, sabe que a bomba não tem culpa alguma na eventual desgraça. O mesmo se pode dizer quanto o meu primeiro contato com o mundo filosófico. Sem a devida orientação, e inserido em um contexto cultural que, além de não compreender plenamente a obra e persona do mestre alemão da escrita aforismática, introduz o mesmo como o maior inimigo do Cristianismo (e, por tabela, de toda a cultura ocidental enquanto tendo como um de seus pilares civilizacionais a ética e moral judaico-cristãs), li os livros mais importantes de Nietzsche como alguém que, nunca tendo participado sequer de grupos de escoteiros, tenta ler um mapa e usar uma bússola em meio a floresta amazônica.

Por vários anos, deslumbrado pelo brilhantismo e contundência do beligerante bigodudo (como aquele adolescente que descobre uma banda musical underground que quer compartilhar com todo mundo), fui ateu. Do tipo chato e ingênuo que qualquer teólogo mediano (ou mesmo um conservador mais culto) poderia esfacelar com relativa facilidade, mas fui. Entretanto, o próprio Nietzsche cunhou um célebre aforismo que me acompanhou por toda a vida: “torna-te quem tu és”. Noutros termos, através dessa máxima somos trazidos àquela indagação (infelizmente desbotada a exaustão em inúmeros cursos piegas de coaching) “quem é você hoje e quem você poderia ser?”, e a todos nós está reservada, como destino, a excelência de si mesmo.

O detalhe é que o caminho para a excelência implica na compreensão de que, entre o real e o ideal existe um vão, e esse vão em alguns casos pode ser um fosso de distâncias intergalácticas. Perante essa realidade, cabe a nós invocarmos à memória a história bíblica de Caim e Abel, pois é possível afirmar que, quanto maior a distância entre o real de agora e o seu ideal do amanhã, mais suscetíveis estamos a cair na desgraça de Caim. Portanto, para não cairmos nessa maldição, devemos descobrir e compreender o valor que há por trás do ato de sacrifício, o fio moral de Abel. Ou seja, a atitude de abrir mão do agora em prol do amanhã e, neste caso, de se despojar do orgulho da própria mediocridade atual para conquistar a singeleza da excelsitude futura.

Seguir a máxima de Nietzsche é seguir uma jornada de sacrifício, e como qualquer ato de sacrifício, requer estar apto ao sofrimento. Sofrer pode ter inúmeras definições, mas nesse contexto a melhor definição implica em se submeter a tudo aquilo que dá forma e significado as coisas. Seja a erosão do vento que dá forma aos rochedos, seja o martelo, a bigorna e a fornalha que transformam o metal bruto em espada, para se adquirir forma é necessária a atuação de forças de estresse. Sem estresse, na ausência de condicionamento, tudo é relaxamento vertiginoso e desenfreado. Algo disforme, diluído e desprovido de significado ou propósito.

Tornar-te quem tu és, analogamente, trata-se de edificar e percorrer a ponte que interliga a sua realidade atual ao seu ideal futuro. Assim como, na construção de uma ponte, considera-se fatores como distância, orçamento, material, mão-de-obra, prazo, entre outros, esses fatores se convertem em forças de estresse que moldam tanto a ponte que nos destina ao nosso ideal como o valor do ideal em si.

Na história da civilização, embora não faltem exemplos de pessoas e mitos que ilustrem essa odisseia interna, o maior de todos (ao menos para a civilização ocidental) é a “Paixão de Cristo”. A traição de Judas, o abandono de Seus discípulos, a abominável tortura e desmoralização dos romanos, o julgamento injusto dos fariseus, e uma morte tão lenta e dolorosa que, por um momento, fê-Lo duvidar da existência do próprio Pai foram as forças de estresse envolvidas na construção da ponte que conectou e moldou Jesus de Nazaré à figura do Cristo Salvador. Ilustrar deste modo a “Paixão de Cristo” é elucidar que, quando o filósofo alemão diz “torna-te quem tu és”, trata-se de buscar uma responsabilidade que dê significado a sua existência e carregar um fardo cujo sacrifício te incuta um momento abissal de dúvida ou incerteza. Do contrário, sem temperança ou resiliência, cairemos no fosso infinito no qual até mesmo o mais perfeito dos anjos de Deus caiu, e dele se tornou rei soberano.

Muitas primaveras se passaram, e tendo sido desde cristão, com influências católicas e espíritas, a ateu e simpatizante com os ideários de Esquerda, tornei-me (até o momento) agnóstico simpatizante com o Conservadorismo. Contudo, assim como meu teísmo e ateísmo de outros aéons pessoais, meu agnosticismo tem estado sob implacável teste submetido a novas forças de estresse, bem distintas de meu primeiro contato com Nietzsche. Leia-se, logo abaixo:

Socioconstrutivismo; Globalismo; Ideologia de Gênero; Feminismo; Relativismo “absoluto”; Positivismo compulsivo; políticas identitárias diversas (encerradas na trindade demoníaca de nomes fofinhos como “diversidade”, “igualdade” e “inclusão”); depravações de ordem física, psicológica, moral e sexual que fazem de Sodoma e Gomorra verdadeiras “pólis-convento”; violência de “gore” exponencialmente escalar que faz dos assírios a “Família Dó-Ré-Mi”; analfabetismo sistêmico e latifundiário (do qual levas de youtubers, tiktokers e subcelebridades dos tipos mais insalubres à cognição humana brotam após cultivados em seus tétricos campos ideológico-fazendários); novas enfermidades, patógenos, pandemia e (de incontáveis) a incerteza do amanhã com seus ganha-pães extirpados via confinamento coercitivo por parte de tiranetes iletrados e malfeitores; engrossamento cada vez maior das alas dos pobres e miseráveis compondo imensuráveis hordas de desesperançosos; corrupção e impunidade vertiginosas, opulentas e genocidas; a promiscuidade entre setor privado e Estado da qual nasce os “nefilins econômicos” (metacapitalistas, bilionários “filantropos” e monopolistas surtados de toda sorte); declínio das tradições dando lugar a constructos sociais artificiais, insípidos, inodoros e estéreis; apodrecimento dos pactos sociais e instituições a olhos vistos dando origem a governos cada vez mais agigantados, amorfos e tão distantes da realidade como reinos etéreos (e cujos representantes agem como uma paródia blasfemadora do deus-criança Krishna, tão entidades quanto infantilóides), além de muitas etceteras.

Dadas as circunstâncias críticas de inédita intensidade que acompanho assolarem o mundo, e que são sentidas mais agudamente em nosso país, tenho me posto a nutrir o meu intelecto e o meu espírito de conhecimentos de modo que eu possa compreender o significado do que estamos atravessando (pois a sensação que se tem é de uma overdose colossal de insultos abomináveis até ao mais básico bom senso) e a responsabilidade que devo ter perante todo esse pandemônio manicomial e distópico da pós-modernidade.

Entre diversos indivíduos que tenho tido acesso desde Nietzsche, o psicólogo clínico canadense Jordan Peterson tem sido tão influente para mim nos últimos tempos quanto o próprio Nietzsche me foi na adolescência, e Peterson não só me tem influído a retornar a Nietzsche (inclusive por também o filósofo alemão ser um dos principais baluartes do intelecto do psicólogo) como redescobri-lo da forma correta.

Se tivesse permanecido no exército prussiano, no mundo acadêmico enquanto filólogo, sido correspondido amorosamente por Lou Von Salomé, ou sido poupado dos sofrimentos excruciantes de uma saúde débil que culminaram em um colapso nervoso irreversível, ou seja, sem tais forças de estresse, Nietzsche não teria descoberto o arquétipo do “Übermensch”, concebido o seu Zaratustra ou, tampouco, se tornado um “homem póstumo”. Como sabemos que a Humanidade evoluiu tão vertiginosamente do século XIX para o século XXI como nunca evoluíra desde a sua alvorada civilizacional, na condição de “homem póstumo”, Nietzsche não somente viu mais de um século a frente de seu tempo, mas enxergou algo que não podia compreender objetivamente, tampouco descrever literalmente, pois seria como esperar que um homem de Cro-Magnon compreendesse o que é um celular ao vê-lo.

O registro dessa epifania de intensidade rara (talvez sem paralelos) na história da filosofia ocidental se encontra na sua obra mais importante, o hermético “Assim Falou Zaratustra”, a única obra de Nietzsche que não li justamente pela falta de familiaridade com sua estrutura poética e repleta de simbolismos que divergem em demasia de seu estilo padrão (este já árido e intimidador o suficiente). Porém, redescobrindo Nietzsche, fui conduzido a um trecho dessa obra concluindo que, no limite cognitivo permitido pela sua condição de Homo sapiens sapiens, o filósofo alemão viu a nós, habitantes do século XXI, e o cenário dantesco no qual estamos encerrados, logo abaixo:

AS TARÂNTULAS

“Contemplai! Este é o covil da tarântula! Gostaria de ver a própria tarântula? Aqui está pendurada a sua teia: toque-a para que ela estremeça.

Aí vem ela prontamente: bem-vinda, tarântula! Preto em suas costas se acomoda o seu triângulo e símbolo; e eu também sei o que se acomoda em sua alma. A vingança se acomoda em sua alma: onde quer que você morda, crostas negras surgem; o seu veneno deixa a alma vertiginosa com vingança!

Deste modo, eu vos falo em parábola – vocês que tornam a alma vertiginosa, pregadores da igualdade! Para mim, vocês são tarântulas, secretamente vingativas!

Mas eu devo trazer os seus segredos à luz: portanto, dou risada na sua cara com o meu riso das alturas.

Por isso eu despedaço suas teias, para que sua raiva as atraia para fora de seus esconderijos de mentiras, e que sua vingança possa saltar por trás de sua palavra ‘justiça’.

Pois que o homem seja libertado da vingança – esta é para mim a ponte para a maior das esperanças, e um arco-íris após longas tempestades.

As tarântulas, é claro, pensam de outra forma. ‘O que a justiça significa para nós é precisamente que o mundo se encha com as tempestades da nossa vingança’ – assim elas falam umas com as outras.

‘Nós devemos derramar vingança e maltratar todos cuja igual não somos’ – assim os corações das tarântulas juram a si mesmos.

‘E o ‘Desejo de Igualdade’ deverá ser o nome para virtude daqui para a frente; e contra todos que possuem poder, ergueremos o nosso grito!’

Pregadoras da igualdade, o frenesi tirânico de impotência clama dentro de vocês por ‘igualdade’: os seus maiores desejos de serem tiranas se disfarçam em palavras de virtude!

Vaidade ferida, inveja reprimida – talvez a vaidade e inveja de seus pais: elas se espalham em vocês como chamas e frenesi de vingança. O que o pai escondera surge no filho; e muitas vezes eu revelei no filho o segredo do pai.

Elas aparentam ser entusiastas: mas não é o coração que as inspira – mas sim vingança. E quando elas se tornam sutis e frias, não é o espírito, mas sim a inveja, que as tornam sutis e frias.

A sua inveja as levam até mesmo para os caminhos dos pensadores; e este é um sinal de sua inveja – elas sempre vão longe demais, até o seu cansaço ao final tenha que se deitar e dormir na neve.

Em todas as suas lamentações o soar de vingança, em todos os seus elogios há sempre maldade; e ser juiz parece ser um prazer para elas.

Mas assim eu vos aconselho, meus amigos: desconfie de todos aqueles cujo impulso de punir seja poderoso! São pessoas de baixa classe e reputação; o executor e o cão de caça surgem de suas fisionomias.

Desconfie de todos aqueles que muito falam de sua justiça! Na verdade, em suas almas lhes faltam mais que mel. E quando elas se autoproclamam ‘as boas e justas’, não se esqueça que elas seriam os fariseus, se elas tivessem poder!

Meus amigos, eu não quero ser misturado e confundido com outros. Há aqueles que pregam a minha doutrina da vida, e são ao mesmo tempo pregadores da igualdade e tarântulas. Apesar de elas se aninharem em seus covis, essas aranhas venenosas, reclusas da vida, elas falam em favor da vida, mas somente porque elas desejam ferir.

Elas desejam ferir aqueles que agora têm poder, pois entre elas a pregação da morte ainda é feita em casa. Se fosse de outra forma, então as tarântulas ensinariam de outra forma: elas mesmas já foram as maiores caluniadoras do mundo e queimadoras de hereges.

Eu não quero ser misturado e confundido com essas pregadoras da igualdade.”

Friedrich Nietzsche, em “Assim Falou Zaratustra”

Epílogo:

Nietzsche se autoproclamava ateu. Admirador de Baco, o deus grego do vinho, o filósofo alemão encontrou no Cristianismo o seu maior adversário.

Entretanto, na condição de “homem póstumo”, de um homem pré-histórico buscando compreender os milagres tecnológicos do terceiro milênio enquanto vive a máxima “Torna-te quem tu és”, além da compreensão até de si mesmo, talvez a moral cristã não fosse o seu alvo maior, mas um mundo sem mitos. Sem deuses. Sem hierarquia. Sem valores. Sem uma moral objetiva e transcendente. Um mundo onde as tarântulas do niilismo não são aqueles que buscam a Cristo, mas sim os porta-vozes e mentes planejadoras das forças de estresse as quais atacam o Conservadorismo enquanto base objetiva e milenar da civilização ocidental. Um mundo (conforme as palavras de Jordan Peterson) “sem ‘cima’ e sem ‘baixo’”.

Um mundo pós-2020.

Parafraseando Dostoiévski: “Se Deus não existe, tudo é permitido”.

Anulação do ser e do indivíduo? Ausência de propriedade? Fim do mérito e enaltecimento do fracasso? Inexistência de hierarquia? Destruição da família? Estado totalitário (o zênite da herança maldita de Caim enquanto fundador da primeira pólis da história humana)? Sociedade amoral, caótica e bestial? Genocídios?! NÃO: NADA DISSO É PERMITIDO!

Via contradição, Deus não só existe: Ele DEVE existir!

O que eu sou? Provavelmente, não mais um agnóstico…

PS: dentre diversas influências, a mais significativa para esse escrito, além de Jordan Peterson, foi a série “Não Tenhais Medo”, do canal “Brasileirinhos” (para mim, a mais poderosa epifania audiovisual surgida na história do Youtube).

6 pensou em “NIKOLAI HEL – MANAUS-AM

    • Caro Nikolai,
      Epifania, epifânia e Estherfânia (peituda, loira, olhos verde, linda)…

      Louise Gustavovna Salomé aproximou-se não só de Friedrich Nietzsche, mas (atrativo e imantado mas), de Sigmund Freud, Paul Rée e Rainer Maria Rilke. Ou seja, a moça só andava em péssimas companhias, algo que encontra similar aqui nesta gazeta escrota onde andamos nas péssimas companhias de gente como Adônis, Berto, Nikolai, León, Ciço Bago Mole, Rômulo, Sancho, João/Joaquim (ambos Francisco), Beni, Bertoluci, Cavalcanti (os dois) e até de Jesus (imaginem vocês, o Nazareno fubânico).

      Dize-me com quem andas…

      • “Nunca conseguirás convencer um rato de que um gato traz boa sorte.”Graham Greene. Sorte, sortilégios… Quanto a Deus, taí minha trajetória de 57 anos em perigosas curvas segurando ou não no acelerar o acelerador da vida a não me permitir desmentir tal existência.

        Em cada curva, cada porre homérico, cada puta, cada tentativa de assalto, cada acidente que presenciei nas estradas da vida , me fizeram constatar que DEUS existe e olha muito por mim….

        • Santificado San Sancho de Los Cocos,

          dar-se conta de que Deus existe (ou, pelo menos, tem que existir) é descobrir o maior das responsabilidades e o mais pesado dos fardos.

          É terrificante. É paralisante. Mas também atribui a vida significado.

    • Estimado e excelso Sr. Adônis,

      embora eu tenha atravessado por um processo muito profundo de transformação interna decorrente das tribulações de nossa realidade enquanto brasileiros, e presenciado toda sorte de iniquidade, foi no último dia 15 que, após ver dois vídeos de Peterson (um sobre “Crime e Castigo” de Dostoiévski, e outro acerca do texto “As Tarântulas”, do livro de Nietzsche, “Assim Falou Zaratustra”), senti-me do mesmo modo que Nietzsche quando sofreu o lampejo da tese do “eterno retorno”.

      Em um mundo cuja realidade é, intrinsecamente, sofrimento, tornar o mundo menos árido e inóspito já é um começo em busca de um significado maior. Foi então calcado nisso que me esforcei tão herculeamente para tentar escrever algo que pudesse contribuir, mesmo que um pouco, para edificar essa cósmica bolota azul.

      Minha gratidão por seu feedback, nobre colunista. Agrega incalculável valor ao meu texto e me honra ter um leitor de tão imenso calibre intelectual e cultural quanto ti.

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