ACÁCIO SABUGUEIRO - MIOLO DE POTE

Nicomedes e seu caniço de bambu

Pescar é uma atividade que pode ser vista com várias nuances. Uns fazem da pescaria uma atividade profissional. Outros fazem da prática uma atividade de lazer. Entretanto, outros tantos pescam para suprir uma necessidade alimentar.

Quem faz da pesca uma atividade profissional, precisa pelo menos conhecer as águas onde pesca. Acaba conhecendo muito de peixes e cardumes, de desova, de iscas e das demais atividades inerentes à profissão.

Rico em rios e mares com muitos peixes, o Brasil está investindo há alguns anos na pesca de criatórios, que alguns chamam de currais. O governo brasileiro tem acionado forte apoio para essa produção alimentar. A riqueza também é grande na diversidade das espécies e seus diferentes sabores utilizados na culinária. Já começamos a ler e ouvir o encaminhamento de algumas espécies de peixes para fins medicinais.

Nicomedes não é pescador. Quer dizer, não é profissional da pesca. Também não pesca por lazer. Pesca por necessidade mesmo.

Na tarde do último sábado, enquanto muitos se preocupavam com a última viagem de uma cantora brasileira que foi transformada em símbolo de tudo que é bom em apenas três dias, estava eu cuidando de umas pimenteiras no girau que mantenho no quintal de casa, quando escutei alguém batendo palmas.

Fui ver quem era. Era Nicomedes.

– Cumpadre Acácio, vamos pescar o jantar de hoje e o armoço de amanhã?

Confesso que fui surpreendido quando vi Nicomedes com um balde velho contendo caroços de milho verde, umas poucas minhocas e alguns pedaços de tripas de galinha. Mas, o que me chamou mesmo a atenção, foi o caniço improvisado numa vara de bambu que Nicomedes carregava.

– Nico, e vosmecê vai pescar o que com tudo isso aí e aonde? Perguntei.

– Cumpadre, vou pescar ali no rio, um pouco antes daquela curva que tá esbarreirando. Tá aparecendo muito peixe ali, que vão comer as flor de mururu. Justificou Nicomedes.

– Nico, se os peixe tão comendo as flor do mururu, pra que vosmecê tá levando toda essa iscaria, siô! Perguntei, agora com a intenção de ajudar o coitado. E fui me arrumando para acompanhar meu compadre.

– Cumpadre, você num quer emprestá aquele balde azul, pra gente trazê os peixe pescado? Perguntou Nicomedes.

E lá fomos nós para o lugar sugerido por Nicomedes. Quando chegamos no local, o sol já não era tão quente, mas, ainda assim procuramos uma sombra de árvore para nos abrigar.

Após quase uma hora pescando, o resultado ainda não alimentava um gato. Mas, continuamos a pescaria. Era um caniço só para dois pescadores. A noite tava dando sinal de chegar e a pescaria não tinha rendido nada. A isca tava acabando. Nicomedes demonstrava decepção e irritação.

– Nicomedes me empreste aqui esse caniço. Pedi, enquanto já tomava conta do apetrecho.

– Cumpadre vosmecê num tá botano isca no anzol, siô! Observou Nicomedes, ao tempo que ficava surpreso.

E estava acontecendo realmente aquilo. Cada vez que eu jogava o anzol na água, fisgava um peixe. Em minutos, já com a noite nos cumprimentando, o balde estava cheio.

– Nico, enquanto você estava pescando, eu estava rezando e pedindo ajuda para São Pedro.

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