SANCHO PANZA - LAS BIENAVENTURANZAS

Creio que, antes de dar o pontapé inicial em Las Bienaventuranzas de Sancho Panza, seguindo os trâmites da fina educação que recebi de minha professora de costumes, a fidalga señora Violante Adônica Maurina Joaquimfrancisca Praga Torta de León e do meu tutor de artes marciais João Francisco Arthur Tavares de Ritinha de Miúdo, cabe APRESENTAR-ME aos infiéis leitores desta gazeta escrota.

Sou Sancho Panza (nome derivado da parte convexa y abultada de algunas vasijas y otros objetos), que algum distraído tradutor mudou para Pança, esquecendo-se que não é de bom tom traduzir ao pé da letra nomes próprios, pois volumosa barriga não possuo.

A aventura de meu nascimento tem início com minha mãe adotiva, Catharina Panza, uma iniciante e jovem parteira, em desabalada carreira, feito maratonista queniana disputando a São Sivestre (santo do último dia do ano do Calendário Gregoriano), seguindo o guia, um escritor chorrochoense, um baiano de nome Paulo Caolho, pela empoeirada e mística Santiago de Compostela até um estábulo conhecido por Três Reis Magos, onde, entre animais, uma jovem, de nome Miguelita de Cervantes Labareda ostentava assustadora e gigantesca barriga e nove meses de prenhez. Mas (bendito mas), o cenário dantesco, o local inapropriado, a inexperiência da futura mãe e da jovem parteira, ou seja, a tempestade perfeita que se avizinhava, milagrosamente NÃO DESABOU, coisa que apenas a fé pode explicar. Ao contrário do que seria natural, uma destemida Catharina executou, pela primeira vez e com maestria de veterana, seu ofício. Exatamente às 11 horas, 11 minutos e 11 segundos do dia 11 do mês 11 do ano de 1111, a barriga foi esvaziada, vindo à luz do esplendoroso dia, os sêxtuplos e feiosos Alonso Queijando, Sancho Panza (o mais feio), ldonza Lourenço, Ginés de Pasaquatro, Roque Guinada e Antônio Quase Moreno.

Catharina Panza, ao anoitecer do mesmo dia foi vista novamente em desabalada carreira pelo empoeirado caminho de Compostela, desta feita como se mil demônios a perseguissem, carregando nos braços o jovencito Sancho, que ela iria criar com muito amor e carinho, se sobrevivesse à empreitada.

A correria da jovem só teve fim quando foi tomada pela exaustão. Com certeza estava exaurida de forças a jovem responsável pelo surgimento de uma lenda.

Muitos anos depois (e bota muitos anos nisso!), recobrada da exaustão, acordou a fugitiva nos braços do engenheiro Sayão, a quem explicou sua jornada. A destemida jovem, segundo próprio relato, atravessou, em sua destrambelhada carreira, carregando colado ao corpo um recém-nascido, boa parte da Península Ibérica, conseguindo cruzar, possivelmente a nado, o Atlântico, do cais da cidade do Porto até a costa brasileira, chegando viva, sabe-se lá como, com a proteção e o testemunho único do próprio Criador.

Onde estava ao despertar nossa jovem aventureira? Estava no coração do cerrado brasileiro e diante do homem responsável pela construção de uma gigantesca estrada que ligaria, pela primeira vez, o extremo norte ao restante do país, Belém a Brasília, a Amazônia ao cerrado, o caboclo ao sertanejo, a borda ao coração da NAÇÃO.

O dono do estábulo em Compostela, um tal señor Luiz Berto, um sujeito de bons bofes, grande coração, com inequívoca vocação para a literatura e o jornalismo, cruzaria novamente o caminho de Panza 70 anos depois da fuga de Catharina, mas (bendito mas), aí já é outra história.