NARCISISMO

Nas poucas viagens que fiz para o exterior, eu as aproveitei, dentro do possível, em visitas a museus. A Itália, para mim, é o repositório do maior acervo de arte sacra da humanidade, principalmente, quando se trata de pinturas e esculturas produzidas pelos gênios da história da arte.

Atenho-me aqui, ao esplendor oriundo da arte na Idade Moderna (1350 – 1850), início do Renascimento. Em Roma, encontram-se três das mais belas esculturas de Michelangelo Buonarrotti: a Pietà, exposta na Basílica de São Pedro, no Vaticano; Moises, na Basílica de San Pietro in Vincoli, perto de Coliseu de Roma; e, O Cristo Redentor, na Igreja de Santa Maria Sopra Minerva, na proximidade do Pantheon.

Em Roma, a Cidade Eterna, visitei também a Galleria Nacionale d’Arte Antica, no Pallazo Barberini, proximidade da Fonte do Tritão. Vivenciei momentos de puro deleite, a começar pela estrutura que abriga aquele mundo de arte, sequenciados pelos afrescos no teto da galeria, até chegar às esculturas e culminar nas pinturas.

Ali existe uma sala vermelha, que vive apinhada de gente, dedicada aos originais de Michelangelo Verisi, conhecido por Caravaggio, e aos caravaggeschi – estilo que inspirou outros pintores a imitar o artista. Pois bem, foi lá que encontrei a obra Narciso, pintada em 1590.

Narciso – Caravaggio

A vaga semelhança com o meu nome atraiu-me a atenção para o quadro Narciso. Uma das festejadas pinturas de Caravaggio, retratando o mito grego Narciso, um jovem bonito que se tornou indiferente ao amor por se apaixonar pela própria imagem, ao vê-la refletida na água.

Daí surgir o termo narcisismo, que viria a ser adotado por volta de 1898, para descrever uma forma de sexualidade baseada no próprio corpo do indivíduo. Atualmente, o narcisismo é um conceito na teoria psicanalítica introduzido por Sigmund Freud. Está classificado como um transtorno mental denominado Transtorno de personalidade narcisista, existente quando a libido está direcionada para si próprio.

O pior é que o narcisismo deixou de ser uma desimportante classificação de personalidade, para se transformar num problema social. Isso mesmo, estamos vivendo a era do narcisismo. Comportamentos narcisistas nos rodeiam e se alastram como uma praga na sociedade contemporânea.

A psicóloga Pat MacDonald, no seu trabalho Narcisismo no Mundo Moderno, afirma: Basta observar o consumismo galopante, a autopromoção nas redes sociais, a busca da fama a qualquer preço e o uso da cirurgia para frear o envelhecimento.

Os traços narcisistas são fáceis de reconhecer. São posicionamentos egoístas, não empáticos e um tanto exibicionistas, de pessoas que querem ser o centro de atenções e reconhecidas socialmente. Estatísticas afirmam que diariamente são postadas no Instagram 80 milhões de fotografias, com 3,5 bilhões de curtidas.

O que mostram? Coisas do tipo: Eu e meu amor; Eu, ao lado de minha melhor amiga; Eu, dizendo olá! Eu, eu, eu, somente eu. A Internet está nos convertendo não apenas em espectadores passivos, porém, em narcisistas ávidos pela notoriedade fácil, obcecados por conseguir amigos virtuais e pelo impacto causado por postagens.

Não se deixar contaminar pelo vírus dessa tendência é um esforço sobre-humano. E para quem carrega no costado o próprio nome ou nome assemelhado ao de Narciso, um incômodo.

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