JOSÉ NARCELIO - AO PÉ DA LETRA

Cursei Engenharia Civil numa universidade pública, a UFRN, nos primórdios de sua federalização, em 1960. Antes dessa década, os profissionais da área em questão existentes no Estado provinham das universidades de Recife, Salvador ou Belém. Razão de eu entender a UFRN como o maior patrimônio cultural imaterial do Rio Grande do Norte, se assim pudermos qualificar a nossa principal instituição de ensino superior.

Venho de uma família de classe média. Meus pais, conscientes da apertada condição financeira que possuíam, nunca se permitiram gastar um centavo além de suas posses, porém, acalentavam o propósito de deixar como herança para os filhos uma educação de qualidade. E como se esforçaram nesse objetivo! Nós, os seis irmãos, fomos testemunhas incontestes da determinação de ambos. Seu Manoel e dona Laura partiram desta vida com o sonho realizado.

Ao alcançar a maioridade eu estava seguro da profissão que almejava abraçar. Nem pensar em estudar fora do Estado como fizeram amigos meus, filhos de pais abastados, seguindo a alternativa oferecida na época. Minha chance estava na UFRN. Os primeiros cinco vestibulares me deram a exata noção do grau de dificuldade que teria de enfrentar para ingressar na faculdade de Engenharia.

Na primeira tentativa eu falhei, mas, com a bagagem acumulada passei no vestibular para Economia e no concurso para o Banco do Brasil – o emprego que todo jovem de minha geração almejava. Quis derivar minha vida para essas opções como solução imediata, mas, ao sentir a frustração do meu pai, recuei.

Ao abrir mão da vaga no banco fui tachado de alienado porque descartara a maior chance da vida para um futuro confortável e seguro. Voltei-me para o estudo com ânimo renovado. Estudei com afinco, dias e noites, durante um ano. Perdi a conta das horas de sono dedicadas aos livros, varando madrugadas. Um pequeno emprego de datilógrafo permitiu-me pagar as aulas preparatórias para o desafio maior.

Aprovado no vestibular, a maratona de aprendizado seguiu com rigor, igual ou maior, ao longo dos cinco anos do curso. Na universidade pública onde estudei não existia a obrigação de dar diplomas aos aprovados no vestibular; obter-se tal registro dependia do mérito e do conhecimento de cada aluno. Não se falava em cotas sociais para pretos, pardos ou indígenas. Alunos não reclamavam da carga excessiva de trabalho exigida nas salas de aula e, ninguém, propunha ou escolhia o que estudar.

Na universidade pública onde estudei não se rompia hierarquias, tampouco se falava em lutas por democratização da instituição contra as estruturas do poder. Desconhecíamos o significado de ensino superior progressista ou igualitário, porque não tínhamos oportunidade para tais questionamentos no curto espaço de tempo livre de que dispúnhamos.

Não existiam denúncias de racismo, homofobia ou fascismo na universidade pública onde estudei. Nela vi alunos brancos, filhos de pais ricos, serem reprovados por não se enquadrarem ao rigor do ensino; também exultei observando pretos, pobres, sendo laureados pelo esforço e dedicação ao estudo.

Divisávamos, na universidade pública onde estudei, tão somente, um centro do saber; não um clube ou central política ou ideológica, porque se desenvolvia ali um trabalho árduo e ininterrupto, com alunos e professores engajados em objetivos maiores: ao estudante, estudar e aprender; ao professor, ensinar e motivar os pupilos.

Essa universidade pública na qual estudei não formou profissionais desqualificados ou frustrados pelo volume de esforço ou dedicação exigidos. Não deixou ressentimentos pelas possíveis injustiças praticadas pelos docentes nem máculas que o tempo não apagasse.

Pode até parecer piegas este depoimento, pouco importa o julgamento, porquanto é verdadeiro: quando me via angustiado diante da carga de cobranças na universidade pública na qual estudei, eu procurava incentivo na primeira estrofe do poema Canção do Tamoio, do maranhense Gonçalves Dias:

Não chores, meu filho;
Não chores que a vida
É luta renhida:
Viver é lutar.
A vida é combate,
Que aos fracos abate,
Que aos fortes, aos bravos
Só pode exaltar.

Sobrevivi e enfrentaria tudo outra vez, se necessário fosse.

13 pensou em “NA UNIVERSIDADE ONDE ESTUDEI

  1. Quão gratificante é deleirar-se numa leitura de VIVA realidade…
    Gratidão é o sentimento meu, pelo privilégio dessa leitura!
    SÓ me resta 👏🏻👏🏻👏🏻👏🏻incessantemente!

    • Grande Narcelio, engenheiro e escritor diplomado em 1969. A pequena quantidade de formandos mostra o alto nível exigido para cursar engenharia na época. Parabéns pelo texto. João Dantas

  2. Caro Narcélio,

    Parabéns pelo brilhante depoimento sobre o que foi a nossa vida, em uma época dourada que, infelizmente, foi totalmente conspurcada por essa horda maldita que nos infelicita atualmente.

    Como você, também cursei engenharia. Só que com duas diferenças: Primeiro, escolhi a engenharia industrial mecânica. Depois, que estudei à noite. Como tinha que trabalhar durante todo o dia, para poder ganhar algum a fim de bancar meus desejos de adolescente, estudei na Escola Politécnica estadual. Esta foi a única opção possível, já que a Federal tinha aulas de manhã e à tarde.

    Como é fácil entender, o sacrifício foi maior ainda.

    Também “Começaria tudo outra vez, se preciso fosse”, como Gonzaguinha.

    Grande abraço.

  3. Pois é Narcélio,

    Parabéns pelo brilhante e verdadeiro depoimento, pois sabemos como era dificil estudar e trabalhar ao mesmo tempo…… como é dificil ser um cidadão do bem …..

    Além de engenheiro fica como adicional a capacidade de transformar experiência de vida em um texto compreensível e emocionante …..

    Com certeza seu Manoel e dona Laura não partiram desta vida apenas com o sonho realizado mas, com certeza, orgulhosos dos principios e valores que conseguiram repassar a seu filho.

    Determinação, fibra e trabalho duro são exemplos que valem tudo, como aquela luz que poucos possuem para iluminar o caminho.

    Que trecho impactante e brilhante, por verdadeiro ……..!

    ” ……….Na universidade pública onde estudei não existia a obrigação de dar diplomas aos aprovados no vestibular; obter-se tal registro dependia do mérito e do conhecimento de cada aluno. Não se falava em cotas sociais para pretos, pardos ou indígenas……..”

    Sempre existem opções…. as mais fáceis sempre são as mais erradas….

    Como diz Lucia acima ….
    ” ………………. Gratidão é o sentimento meu, pelo privilégio dessa leitura! ….”

    e como ela, só me resta aplaudir ………. e muito ………….. clap clap clap

  4. Adonis e Artur, estou deveras encabulado por tantos elogios. Porém, fico feliz identificar em suas declarações a tristeza por aqueles valores se outrora, estarem tão degastados nas universidades públicas da atualidade.
    Não sabemos quando teremos, novamente, o nosso pais no eixo, se continuarmos banalizando o que de melhor tínhamos: um ensino superior de qualidade.

    • pois é Narcélio…..

      Não apenas um ensino superior de qualidade …….

      Estudei em escola pública no meu “científico”, prestei vestibular para Engenharia, e só consegui vaga em escola paga (Mackenzie).

      Parei meu curso, função das dificuldades apontadas por você para trabalhar e sobreviver já que não existia Engenharia à noite.

      Depois de 10 anos, fiz um cursinho de recordação cujos professores eram ainda alunos da politècnica em SP, prestei vestibular e consegui minha vaga para a escola pública. Curso à noite e trabalho duro durante o dia ….

      Ver e ouvir o nhem nhem nhem desta esquerda nojenta sobre minorias “coitadinhas” é de fazer bode vomitar ……

      Seu depoimento e o de Adonis, somente reforça o valor da determinação, fibra, da da educação e EXEMPLOS recebidos dos pais ……..

      Ratifico os Parabéns pelo depoimento verdadeiro e emocionante…….

      Clap Clap Clap ……

  5. Escrevestes: Estudei com afinco, dias e noites, durante um ano. Perdi a conta das horas de sono dedicadas aos livros, varando madrugadas.
    Recordei a frase: ganharás o pão com o suor do teu rosto.
    Uma pena termos no hoje tão poucos jovens com tanta resiliência e dedicação.

  6. Olá Dr. Narcelio :
    Você, permita-me chama-lo assim, me fez lembrar o tempo de estudante noturno, com aulas até às 23:00 hs; a chegada cansado em casa, ir para a cama por volta de 1:00, com o despertador programado para `as 6:00 hs, pois o meu horário na empresa onde eu era chefe de R.H. se iniciava às 08:00 hs ia até às 18:00 hs. de segunda à sexta. Às 19:00 hs se iniciava a 1ª aula da Faculdade de Direito de Curitiba, onde por último estudei e me formei.
    Sei que a sua formação, de Engenheiro, demandou muito mais estudo e esforço, mas eu duvido que você aguentaria, como eu, assistir às medonhas e enfadonhas aulas de Direito Romano e ou Filosofia do Direito às 22:30 hs. de qualquer dia e até de 6ª Feira, escutando, da sala de aula, o burburinho dos bares, a buzina dos automóveis, enfim, os sons dos libertos que festejavam a vida e não estavam nem aí com as teorias de tempos distantes, de pensadores de época em que nem existia o PT. Isto tudo é bem pior que álgebra ou geometria analítica dos postes da esquerda. Será mesmo ou estou sendo injusto ¿
    De tão desanimado e cansado, às vezes me sentia sem forças, prestes a desistir. Mas a minha esposa heroína, uma nordestina arretada, me dava um sacolejo físico e outro moral, me animando a ir em frente. Ela dizia, sem dó, que eu não podia ser covarde nem frouxo, que eu devia provar que era capaz, que quem gostava de mim era eu mesmo, que ninguém viria me ajudar, se não eu mesmo e outras questões levantava, até falando nos nossos filhos, ainda pequenos, que eu só via dormindo, ou nos finais de semana. Também era um pouco por eles que eu lutava para melhorar, já que tive infância pobre, indo descalço à escola. Naquele tempo não havia merenda, muitas vezes ia à escola sem comer e sem livros e cadernos, por falta de recursos pra comprá-los. Assim, cresci pensando em não deixar meus filhos envergonhados na escola, como na vez em que foram tirar foto da minha turma do primário, e a professora disse que os alunos descalços, como eu, tinham que ficar lá atrás, para esconder os pés. Chorei bastante, mas de raiva, em casa, fechado no quarto, sem que a minha avó visse !
    Mas, enfim, aos trancos e barrancos, consegui me formar !
    Vc. E todos nós que estudamos, passamos pela fase pró-formatura………………..
    Eu tenho muito mais a falar, mas fico mesmo por aqui. Esta da fase de pós formatura e outras passagens, comento em outra hora que me for permitido, para não chatear os seus leitores.
    Parabéns pelo seu artigo. Muito bom !

    • Sancho e Almerindo,
      os nossos exemplos são de milhões de compatriotas que alcançaram algo na vida com o próprio suor.
      Tenho certeza que manifestei o pensamento de desagrado dos muitos que discordam dos destinos pelos quais enveredaram as universidades públicas brasileiras.

  7. Graduei-me odontóloga na UFRN em 1993. Quase 25 anos após a data relatada na crônica. Frequentei vários setores do local para cursar as disciplinas necessárias à conclusão do curso. Não havia a entrada de alunos por cotas e igualmente ao relato, passei madrugadas a estudar para obter êxito nas matérias ofertadas. Presenciei ora professores orientando alunos em relação ao asseio e vestimenta, afinal tratáva-se de um curso da saúde, ora aulas interrompidas por rodas de música nos corredores das salas de aula. Estudei com ricos, negros, latinos e Chico(nome fictício) aluno proveniente da zona rural do Estado, cujo esforço era reconhecido e por diversas vezes, professores e colegas de turma deram “um jeitinho” na disponibilização dos instrumentais odontológicos necessários à sua participação das aulas práticas. Nos respeitávamos e éramos solidários. Havia uma militância política ainda tolerante. As dificuldades nos fizeram fortes e os obstáculos foram inspirações na busca de alternativas para solucioná-los. Em relação a vitimização exacerbada da sociedade atual, tenho pena quando descobrirem que só seguram a mão de quem os interessam e que a vida não é a tela de um game….

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