MARCOS ANDRÉ - DADO & TRAÇADO

Grosso modo, temos que, um movimento cultural, é uma reação em cadeia onde um pequeno núcleo da sociedade, se destaca ao fazer eclodir e dar vida as ideias artísticas, filosóficas, culturais, comportamentais, etc, que deságuam no crescimento e na participação da comunidade que a circunda, resultando no florescimento e, consequentemente, expansão de sua idiossincrasia.

Um movimento cultural é aquele que provoca e dá impulso nas mudanças e costumes sociais. Por vezes, até quebrando paradigmas.

Funciona como uma boa chacoalhada na hibernação da mesmice social, ou, como se diz atualmente, dá um freio de arrumação na cabeça e no comportamento da coletividade. O renascimento, por exemplo, na minha modesta opinião, foi o mais expressivo movimento cultural do mundo ocidental, cujo eco, até hoje repercute.

Em meio a tantos movimentos culturais brasileiros, em épocas diferentes (Tropicálismo, Cinema Novo, Bossa Nova, Modernismo Brasileiro, Antropofagia, Jovem Guarda, Cultura Marginal, Funk Brasileiro e Manguebeat), vamos nos permitir em dar numa guinada de 360º, para irmos de encontro a um movimento feito tipicamente por nordestinos. Foi o nosso movimento raiz, o Movimento Armorial.

Sabe-se que o nordeste é uma inesgotável maternidade produtora de cultura brasileira. Haja vista cantores, atores, escritores, compositores, artistas plásticos, etc. Isto é incontestável.

Talvez, os mais expressivo movimento cultural já surgidos no nordeste do país, germinou em 1970, na capital pernambucana, o Movimento Armorial. Nas palavras de um dos seus principais fundadores, Ariano Suassuna, o movimento procurou criar e fundir uma arte erudita genuinamente brasileira, bebendo na fonte da cultura popular. Na visão de Ariano, a cultura popular nordestina, era prenhe de erudição e estilo próprio, o movimento ajudou a diminuir a distancia, integrando várias vertentes culturais com o que se conceituava ser erudito, se fundindo com o popular.

Os armoriais queriam fazer o Brasil olhar para si mesmo, com a pureza do seu axioma artístico, lastreado em raízes populares como a arquitetura, artes plásticas, cinema, literatura, teatro, dança, música, etc. Na definição do próprio dramaturgo paraibano que, na época, atuava como diretor do Departamento de Extensão Cultural da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), assim disse:

“A Arte Armorial Brasileira é aquela que tem como traço comum principal a ligação com o espírito mágico dos ‘folhetos’ do Romanceiro Popular do Nordeste (Literatura de Cordel), com a Música de viola, rabeca ou pífano que acompanha seus ‘cantares’, e com a Xilogravura que ilustra suas capas, assim como com o espírito e a forma das Artes e espetáculos populares com esse mesmo Romanceiro relacionados”

O referido movimento, que teve o centro acadêmico como nascedouro, logo se alastrou por toda região. Sua primeira experiência externa se deu numa igreja no centro do Recife, com uma concorrida exposição de artes populares e um concerto. Devido ao grande sucesso, chamou a atenção das autoridades, e logo teve o apoio e a adesão do poder público municipal e estadual, por meio de suas respectivas secretarias de cultura. Desde então, o referido movimento ganhou força e vigor, atraindo para seu seio, inúmeras outras manifestações populares. O nosso rico folclore regional ganhou destaque nacional. Festas típicas com suas danças, musicas e indumentárias coloridas, cantorias e violeiros, teatro de mamulengos, cavalo marinho, maracatu, começaram a se popularizar cada vez mais.

Uma das mais fidedignas e emblemáticas manifestações culturais, a literatura de cordel foi, talvez, o grande carro chefe da difusão do Movimento Armorial. O cordel, livreto que é comercializado em feiras populares, é assim denominado por conta dos seus folhetos dependurados num cordão (daí seu nome “cordel”), com sua linguagem coloquial em forma de rimas concisas e bem humoradas, deixa o sertanejo a par de noticias, manifestações do dia a dia da sua vida, do seu torrão natal e da sua história, tendo em vista que, nos cordéis, se incorporavam a arte da xilogravura e da música popular nordestina.

DESTAQUES

Em meio ao grande sucesso e o impacto da pluralidade artística alcançada, o movimento Armorial teve alguns de seus ícones, destacados em diversas áreas:

1) O paraibano Ariano Suassuna (1927-2014), professor da UFPE, escritor e criador do Movimento Armorial.

2) Na arte da Xilogravura (técnica de gravura, cuja matriz é esculpida na madeira, possibilitando inúmeras reproduções do texto e figura, para ser gravada sobre couro, papel ou outro material), onde destacou-se o recifense Gilvan Samico, desenhista pintor e professor.

3) O escultor, ceramista e artista plástico pernambucano Francisco Brennand, é conhecido mundialmente.

4) O premiado escritor e jornalista pernambucano, Raimundo Carrero.

5) O artista potiguar, natural de Macau/RN, Antônio Madureira, foi integrante do Quinteto Armorial, atuou como músico, maestro, instrumentista, violonista e compositor.

6) Antônio Nóbrega (pernambucano de Recife): ator, dançarino, compositor, músico e multi instrumentista.

EXEMPLOS ARTE ARMORIAL 

Literatura de Cordel

Esculturas e pintura em tela de Francisco Brennand

Xilogravuras de Gilvan Samico

Literatura, xilogravura e cinema) Capa do livro Auto da compadecida, de Ariano Suassuna, transformado em filme e livro de Raimundo Carrero com xilogravura de Gilvan Samico

* * *

É lógico que, como todo movimento cultural de vulto, existem as críticas e as queixas quanto sua forma de diretrizes e atuação, que permeia o vasto campo do mercado pessoal das vaidades.

No mais, sob o prisma do Movimento Armorial, o certo é que armou-se um arcabouço capaz de elevar e dar o devido reconhecimento, respeito e distinção das riquezas culturais e artísticas do nosso sertão nordestino.

9 pensou em “MOVIMENTO ARMORIAL

    • Verdade, Marilda Bastos. Movimento cultural que muito contribuiu e contribui para disseminação da bela e fascinante cultura nordestina.

    • Concordo, Sr. Beni Tavares. Movimento este que, apesar de haver lançado nomes no circuito cultural nacional, ainda não teve a importância que merecia.
      Brennand tem esculturas e cerâmicas espalhadas pelo mundo todo. Ariano Suassuna dispensa comentários. Uma das suas obras -alto da compadecida – virou filme de sucesso.
      . .

  1. Caro Marcão,

    E tudo isso teve início aí, pertinho de vocês na noite do dia 18 de outubro de 1970, quando um grupo de artistas de distintas linguagens se reunia no pátio da igreja de São Pedro dos Clérigos, no centro de Recife, para criar os ARMORIAIS, essa palavra, sinônimo de heráldico, ancorada simbolicamente nos brasões e signos presentes dos estandartes do maracatu às escolas de samba.
    Isso aprendi com Drica Beijo Louco, “garota” do Sampa Night Club, da Wilfred Rússel, em Boa Viagem, pertinho de você.

    Brigaduuuuuuuuuuuuuu, irmão, por mais esta aula de cultura nordestina. E “vamu qui vamu”, que quinta-feira o frete é quente e as “moças” ficam mais namoradeiras…

  2. Parabéns pelo excelente texto, prezado Marcos André!

    Vale a pena repetir, que partiu do escritor e dramaturgo paraibano Ariano Suassuna, a idealização do Movimento Armorial (1927-2014).
    Fundado oficialmente em 18 de outubro de 1970, época em que houve um concerto da Orquestra Armorial de Câmara, com abertura de exposição de arte relacionada ao contexto nordestino.

    Nessa ocasião, Ariano Suassuna escreveu: “o movimento lançado agora, sob a denominação de armorial resultou de 25 anos de pesquisas” .

    A lacuna deixada por Ariano Suassuna é imensurável !

    Um abraço.

Deixe uma resposta