DEU NO JORNAL

Guilherme Fiuza

A tese era de que Sergio Moro deixar de ser juiz para ir trabalhar no governo seria um absurdo. Apesar das críticas, ele foi. Aí a tese passou a ser que o governo não dá espaço para Sergio Moro trabalhar e isso é um absurdo. Os críticos estão na dúvida se atacam ou defendem o trabalho de Sergio Moro no governo.

Normal. Faz um bom tempo que o noticiário vive uma espécie de amizade colorida com a realidade. Se os fatos cooperam com as teses, são bem tratados; se não andarem na linha, pior pra eles. É sempre um pecado generalizar, mas a dominância das crises artificiais nas manchetes do último ano nos convida a pecar.

Duvida? Então olha isso: no Fórum de Davos de 2019 – portanto um ano atrás – as notícias sobre a presença de Sergio Moro no evento eram quase todas melancólicas. Fotos do recém-empossado ministro da Justiça olhando para baixo eram acompanhadas de sagazes interpretações sobre o seu “visível” desconforto na nova função, sobre o seu constrangimento ao lado de um presidente rude, sobre o seu pouco destaque nos holofotes suíços, etc. Ou seja: a pauta “fora Moro” já mostrava que tinha vindo para ficar e que não ia dar a menor bola para a vida real, essa intrometida.

Durante todo o primeiro semestre de 2019 foi noticiado que Moro estava insatisfeito com o cargo ou que Bolsonaro estava incomodado com a sombra de Moro – de novo uma sutil discrepância entre a tese de que o ministro não tinha importância ou tinha importância demais. Detalhes que qualquer redator razoável ajeita.

O que começou a atrapalhar foi a entrada de Moro no Twitter, em abril. Sem dúvida, um dos maiores baques da história da imprensa marrom.

O ministro da Justiça passou a divulgar diariamente suas ações na rede social – e a opinião pública não entendeu nada. Aquele Moro chateado, isolado, ocioso, indisposto com o governo e com a vida sumiu. Apareceu um servidor abnegado – velho conhecido do público pela epopeia da Lava Jato – atuando criteriosa e obsessivamente para coordenar as forças de segurança do país, montar operações estratégicas nas rodovias, nas fronteiras, nos presídios, enfim, em todo o território para acrescentar inteligência ao enfrentamento do crime.

Tudo detalhado no Twitter. Um inferno.

Assim o público ficou sabendo de ações cruciais como o isolamento das principais lideranças do crime organizado em presídios de segurança máxima – a medida mais eficaz dos últimos tempos contra a violência no país, cuja queda em 2019 incluiu, entre outros indicadores, um número de homicídios cerca de 22% menor que no ano anterior. Claro que a tese dos críticos vitalícios de Sergio Moro passou a ser de que isso não teve nada a ver com o trabalho dele. Se o ex-juiz nem deveria ter aceitado o cargo de ministro e já deveria ter sido demitido dele, como ainda ousava fazer alguma coisa?

Moro vai embora porque Bolsonaro interferiu na Polícia federal. Bolsonaro está fritando Moro porque quer botar um amigo no lugar dele. Foi um ano inteiro assim. E os resultados do ministro sendo expostos no Twitter de forma absolutamente desrespeitosa com os conspiradores. O pacote anticrime não ia ser votado nunca – e aí quando foi aprovado, com avanços importantes como o fim da farra da progressão de regime para condenados perigosos, o foco passou para o que não se conseguiu aprovar, como a prisão após condenação em segunda instância.

O primeiro ano de gestão exitosa de Sergio Moro como ministro da Justiça foi para o noticiário como uma “sucessão de derrotas”. Uma fração da boa vontade que mereceu o ministro da Justiça de Dilma Rousseff – cuja função precípua era blindar um governo corrupto – transformaria Moro num deus. Mas aí não teria graça.

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