GUILHERME FIUZA

Sergio Moro foi ao Senado e deu um show. Não pense que é fácil fazer aquilo que ele fez. Pelo resultado da sua incursão no Parlamento como pré-candidato, dá para imaginar o papo com o marqueteiro na chegada a Brasília:

– Que que eu falo? Não tenho a menor ideia. Não entendo nada de nenhum desses assuntos.

– Relaxa, Moro. Você vai tirar de letra.

– Que letra? De A a Z são muitas letras. Me ajuda, por favor.

– Calma, rapaz. Esquece as letras. Não precisa decorar nada.

– Como eu posso ficar calmo desse jeito? Você não me fala nada concreto. Estou ficando desesperado. E ainda me disseram que você tá ganhando uma fortuna pra fazer comigo o que o Gepeto fez com o Pinóquio.

– A vantagem é que na política você pode mentir que o seu nariz não cresce.

– Não falei em mentir. Falei em transformar boneco em gente.

– Ah, tá. É exatamente isso. A não ser que você queira continuar sendo só um boneco.

– Não sou boneco. Nunca fui. Sou ex-juiz, ex-ministro, ex-candidato ao STF e ex-Sergio Moro.

– Foi o que eu falei. Você renunciou a tudo pra se transformar numa coisa que te disseram que é ótima e você ainda não sabe o que é. Então, por enquanto, você é um boneco zanzando por Brasília. Mas fica tranquilo que eu vou te dar vida. Você vai arrasar.

– Então me explica de uma vez o que eu tenho que fazer. Já estamos chegando no Senado e quando eu saltar desse carro já vou ter que sair falando alguma coisa.

– Você vai falar o que o povo quer ouvir.

– O que o povo quer ouvir?

– Olha, Moro, realmente não vai dar tempo de te explicar tudo correndo agora. Olha ali o Congresso… Chegamos.

– Socorro!

– Calma, bobo. Vou te dar uma dica matadora em menos de um minuto e você vai brilhar no Parlamento.

– Fala logo!

– É simples. Basta você ser uma mistura de Ciro Gomes com Marina Silva, botar um sotaque de Psol com empáfia tucana sem esquecer a carranca de justiceiro conservador e correr pro abraço.

Mostrando ser um aluno aplicado, Sergio Moro seguiu à risca a dica do marqueteiro e fez história no Senado – encarnando a primeira mistura de presidenciáveis profissionais com grande talento. O melhor da festa é que toda essa pantomima foi representada diante do olhar apaixonado dos jornalistas do consórcio (antiga imprensa) – aqueles mesmos que queriam o couro de Moro quando ele era sério. As voltas que o mundo dá.

O boneco de carne e osso falou um pouco de tudo. Basicamente conclamou seu partido (sim, ele agora tem partido) a votar contra a PEC dos Precatórios – na linha estratégica genial do Bolsonaro-fala-A-eu-falo-B que ele vem desempenhando com brilhantismo desde que inaugurou com o impagável Mandetta a bancada dos ministros de oposição, em plena eclosão da pandemia. Esses bonecos são danados.

O melhor de tudo foi a explicação da “orientação” contra a PEC. Sergio Moro disse que está muito preocupado com o teto de gastos – e fez uma dissertação sobre responsabilidade fiscal que encheria de confiança qualquer candidato a presidente de grêmio estudantil (“Se ele pode, eu também posso”). Naturalmente, como a PEC dos Precatórios é uma medida justamente contra o colapso fiscal – o que colocava o discurso de Moro em colisão com a posição de Moro -, o boneco falante deu umas duas voltas ao mundo empilhando os melhores clichês do economês para iniciantes e retornou com expressão vazia e triunfal à sua claque ignara.

“Faz sentido”, exclamaria Marina Silva. Esse negócio de fazer sentido se tornou algo realmente muito peculiar, e hoje em dia só mesmo os mais desinibidos conseguem. Conclusão: o tímido Moro alcançou a desinibição e já é capaz de cascatear com a fluência de um Ciro Gomes.

Esqueça aquele ex-juiz trancado e monossilábico. O candidato do Podemos (Yes, we can!) fala de Amazônia, de clima, de gênero, de raça, de saúde, de educação, de cultura, de empatia e de bufê para festa infantil, se você pedir. Se você não pedir, ele também fala. Foram anos e anos de silêncio. Chegou enfim o momento de botar para fora a quantidade proverbial de abobrinhas engasgadas que esse homem carregava e ninguém supunha.

Antes tarde do que nunca – como diria o ladrão descondenado.

1 pensou em “MORO NO MUNDO DA LUA

  1. Sensacional a crônica do G. Fiuza.

    Moro deixou sua mulher de lado (como marqueteira, entendam) e agora tem um destes “fazedores de presidente” o orientando.

    É um bom aluno, especialmente seguindo a orientação:

    “Basta você ser uma mistura de Ciro Gomes com Marina Silva, botar um sotaque de Psol com empáfia tucana sem esquecer a carranca de justiceiro conservador e correr pro abraço.”

    O bacana é a imprensa que queria o coro dele quando houve a vazajato do IntercePT (ele era ministro do JMB, que o carregou no colo na ocasião). Esta mesma imprensa agora está totalmente ao seu lado.

    Como disse Fiuza: “As voltas que o mundo dá”

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