JOSÉ NARCELIO - AO PÉ DA LETRA

Entristeceu-me, sobremaneira, a morte do cantor, compositor e músico baiano, Moraes Moreira. Afirmam que sucumbiu ante a ação fulminante de um infarto do miocárdio. Se assim ocorreu, suponho que o seu passamento foi rápido e sem muito sofrimento.

Nunca o assisti presencialmente, porém o acompanhei em shows televisionados ou no trio elétrico de Armandinho, Dodô e Osmar, no Carnaval da Bahia. Curti o sucesso obtido por ele integrando os Novos Baianos, mas minha admiração se consolidou quando optou pela carreira solo. No meu entender, Pombo Correio é a sua obra-prima.

Nada sei acerca da vida pessoal ou financeira de Moraes Moreira. Percebi nas imagens veiculados nos noticiários que ele morava modestamente, diferente das mansões hollywoodianas de alguns cantores sertanejos. Ou a sua carreira estava em decadência, pela ausência de sucessos, ou ele se isolara de forma espontânea para viver o ocaso da vida, na simplicidade desejada. Foi-se aos 72 anos de idade.

Essa elegia a Moraes Moreira retirou do fundo do meu baú de recordações, a imagem de um amigo falecido em agosto de 2012, com a mesma idade do cantor baiano. Chamava-se Ademir Ribeiro de Macedo, radialista, redator e radio-ator da Radio Poti e do Diário de Natal, durante 28 anos e, mais oito, na Rádio Cabugi.

Dono de uma voz limpa, grave e marcante, Ademir ancorava o noticiário o Galo Informa e era conhecido como “a voz de ouro do rádio potiguar”. Comparavam-no ao locutor Luiz Jatobá. Por sua fluência em inglês, foi indicado pelo jornalista Luiz Maria Alves – do Grupo Diários Associados -, para trabalhar nos Estados Unidos, como titular da Voz da América. Declinou do convite para não deixar Natal.

Em entrevista concedida, em 2003, ao Jornal Zona Sul, da capital, falou: A vida de aposentado está ótima. Tomo minha Caranguejo todos os dias, fumo minhas quatro carteiras de cigarro… Apesar disso, tenho a voz ainda do mesmo jeito, com 65 anos de idade. Ele reconhecia, sem delongas, sua dependência do alcoolismo.

Nós pulamos Carnaval juntos, na década de 60, num bloco de rua apelidado Bossa Nova, onde Ademir era o destaque da agremiação. Atividades distintas nos afastaram para quadrantes diferentes. Não o via, somente o ouvia, lendo as crônicas que publicava no Diário de Natal, denominadas de O Nome do Dia.

A última vez que vi Ademir foi em 2009. Entrei por acaso no bar que ele frequentava, no bairro Petrópolis, zona Sul da capital. Fiz-lhe companhia por mais de uma hora. Ouvi seus lamentos porque os companheiros de birita, julgavam invencionice sua carreira de radialista e cronista de elevado conceito, em Natal.

Aquilo me comoveu e me fez escrever um texto, publicado no mesmo Diário de Natal, descrevendo a trajetória de Ademir Ribeiro no cenário da radiofonia do Estado, sob o título O nome do dia. Deixei um exemplar do jornal no bar que ele frequentava, pedindo que lhe fosse entregue.

Quando de sua morte, voltei ao bar e pedi ao proprietário detalhes sobre os últimos dias do amigo. Então soube da alegria que eu proporcionara a Ademir, ao escrever a dita crônica. Ela havia tirado cópias do meu texto e distribuído entre aqueles que duvidavam do seu sucesso no universo radiofônico do Estado.

Num preito à memória de Ademir Ribeiro, foi que resolvi homenagear aqui, Moraes Moreira, como O nome do dia.

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