A PALAVRA DO EDITOR

Minhas viagens pelo mundo me deram muito prazer, mas tenho a frustração de não poder contar tantas aventuras radicais como as pessoas contam que viveram aqui e ali.

Minhas reminiscências são algo comuns, desimportantes, pouco relevantes, além de raras.

Por exemplo, Portugal, do que me lembro de destaque? Que estava com saudades da comida brasileira quando vi ao longe, em Lisboa, a placa, “pastel”!

Minha boca encheu-se de água, corri para comer aquela coisa fofa, cheia de ar quente, que dá aquela lufada na cara que queima a gente, e era o nosso pastel? Que nada! É uma coisa em formato de empadinha, doce, nada a ver – mas gostosa, sejamos justos.

Pensei no que pode um homem fazer por uma empada, sem poder imaginar que uns vinte anos depois alguém faria um diálogo cabuloso por promessas vãs. Hoje sei que isso é possível e pergunto: – No que deu? Aliviaram para o cara? Minhas dúvidas caem no vazio.

E na Espanha? Era ainda aquela época das capangas, as bolsas que a gente levava na cintura para carregar tudo. No metrô, em Madri, vou descer do trem e a minha capanga cai no chão! Azar do vagabundo, ele cortou a correia mas não conseguiu pegar, a capanga caiu no chão, tive tempo de pegar e sair do vagão. Me lembro da cara dele olhando fixamente para mim, com ódio.

O ódio que Ciro aquele muito mais tarde revelaria, ao declarar que era doído dizer isso, “mas o Lula se corrompeu”. Pior do que dar aval às acusações contra o ex-presidente veio a ser a ruptura do que poderia ser uma estratégia vencedora, a manutenção da união das forças à esquerda da direita.

Ah, em Madri teve outra: no bar, uma cave no subsolo, o animal do garção derrubou uma Coca-Cola inteirinha em mim e nem tchum, continuou como se nada tivesse havido. E eu, naquela época meio bobalho, nem reclamei, fiquei lá molhado e melado, e os outros fingindo que não tinham visto.

Esse fingimento de não ver pode ser inocente, como no caso relatado, ou ingênuo, como no da Janaina aquela, que afirmou não ver crime nos diálogos Interceptados, mas que tem olhos de águia para crer em conversas cabulosas, tudo em nome da transparência ausente no tal do processo de impichamento.

Teve uns casos na Itália. Em Valddobiadene, tirei uma foto e o gordão barbudo veio correndo para cima de mim dizendo que eu tirei uma foto dele e queria porque queria que eu arrancasse o filme da máquina. Consegui convencê-lo que ele não saiu nem bem nem mal na fita e ele se afastou bufando. Na certa era um mafioso.

Lembrando disso, penso que Máfia e Itália têm tudo a ver, assim como Mãos Limpas e Lava-Jato, uma já foi e a outra já era, desfeitas em castelos de areia. Voltei e voltarei à Itália, mas falta-me visitar o deserto do Saara,embora tenha, no correr dos anos, mantido estreito contato com o deserto das ideias.

Ah, e na Praça de São Pedro, o vendedor ambulante de lembrancinhas nos vendeu crucifixos e santinhos, disse que tinha ido com a nossa cara e por isso estava dando tudo pela metade do preço, que amava o Brasil e os brasileiros e na despedida nos pediu que lhe déssemos um beijo, para selar nossa amizade e o bom negócio que tínhamos feito. Beijamos a face do italianão vermelho e gordo e quando chegamos lá dentro na lojinha do Vaticano era tudo muito mais barato.

Eram outros tempos de Vaticano, os Papas eram menos vanguardeiros do que o Francisco, que disse que “são os comunistas que pensam como os cristãos”. E continuou: “Cristo falava de uma sociedade onde os pobres, os fracos e os marginalizados tinham direito de decidir. Não os demagogos, nem Barrabás, mas o povo, os pobres, tendo eles fé em um Deus transcendente ou não. São eles (os pobres) que precisam ajuda para alcançar a igualdade e a liberdade”. Tá oquei, dizem que não foi isso que ele quis dizer, foi outra coisa, sei lá o quê.

Na Bélgica, nada de extraordinário, a não ser que pedimos que nos fosse servida a comida mais tradicional do país e tivemos que comer dois pratos de batatas.

Hoje, relaciono as batatas ao vencedor. E ao vencido, ódio ou compaixão? Perguntem ao machado e não obterão resposta.

E sabe aquela história da safadeza que só tem no Brasil, do motorista de táxi que fica dando voltas? Pois é, não é só coisa nossa, na Alemanha também tem: Em Frankfurt pegamos um táxi da gare para o hotel, olhei no mapa, era pertinho, mas de madrugada, achei que era mais seguro. E o táxi anda, e anda, e anda, Aí comecei a observar que já era a terceira ou quarta vez que passávamos pelo monumento ao euro! Pó pará, falei para o motorista. Ele não entendeu o que eu dizia, é claro, mas sentiu a barra, parou de sacanear e de dar voltas.

Talvez o motorista, assim como nosso atual presidente, não tivesse noção de onde estava indo e o que estava fazendo em um mundo colorido de azul e cor-de-rosa. Mas nos dizem que é bom jair relaxando e se acostumando pelos anos.

Falei de cinco países, se minha memória ajudar relatarei ainda mais aventuras internacionais carregadas de falta de emoção e de relacionamentos políticos que não têm absolutamente nada a ver, só para implicar.

Deixe uma resposta