MARCELO BERTOLUCI - DANDO PITACOS

Já me contive várias vezes em escrever sobre os problemas da educação no Brasil, porque acho que o tamanho do problema é mais próximo de um tratado com vários volumes do que de um pitaco aqui no JBF. Mas vou usar uma notícia recente para delimitar o assunto a alguns pontos específicos.

Como todos sabem, governos grandes adoram fazer planejamentos e programações de longo prazo, e costumam gastar bastante em comitês e sub-comitês para escrever estes planos e programas (depois gastam de novo em novos comitês que produzem novos relatórios explicando porque os planos não funcionaram).

No Brasil, a lei manda que a cada dez anos seja produzido um Plano Nacional de Educação, definindo metas para estes dez anos. Nosso plano atual saiu em 2015 e vale até 2024. Esta semana foi divulgado um relatório dizendo que no passo atual as tais metas dificilmente serão cumpridas.

Então aí vão alguns pitacos sobre algumas destas metas:

Meta 1 – 50% das crianças até 3 anos em creches.

Colocar crianças com menos de três anos em creches, em minha opinião, mostra um problema social mais profundo, e deveria ser visto não como uma meta, mas como um mau sintoma: mostra que há crianças em famílias que não reúnem as condições básicas para criá-las. Falando mais claro: crianças devem ser educadas, primordialmente, pela sua família (embora os professores de hoje gostem de se intitular educadores – aliás, educadorxs). Colocar crianças de dois ou três anos em creches indica duas possibilidades:

– Os pais não podem dedicar-se à criança, por necessidade financeira ou outra qualquer; ou, pior:

– Os pais não querem dedicar-se à criança, porque é mais fácil “terceirizar” a responsabilidade para o estado.

Qualquer que seja o motivo, deixar a educação de uma criança inteiramente nas mãos do estado inevitavelmente criará uma sociedade de adultos submissos ao estado. Na creche, as crianças serão separadas em grupos homogêneos em idade, e serão condicionadas a agir de modo grupal: na hora de comer, todas comem; na hora de brincar, todas brincam; na hora de tomar banho, todas ficam em fila esperando sua vez. Agir e pensar igual aos outros será estimulado e recompensado; agir ou pensar por si próprio será reprovado e eventualmente punido.

E quando essas crianças virarem adultos? Serão seres sem individualidade. Pensarão e desejarão aquilo que todo mundo pensa e deseja. Seguirão regras sem jamais questioná-las. Quando o governo disser “todo mundo usando máscara”, obedecerão sem hesitar, e ainda acreditarão com todas as forças que “é para o seu próprio bem”. Quando o governo disser “agora todo mundo usando canga”, provavelmente acontecerá a mesma coisa.

Meta 5 – Atingir 100% de alfabetização dos alunos até o terceiro ano.

Meta 15 – Todos os professores da educação básica com licenciatura.

Meta 16 – 50% dos professores da educação básica com pós-graduação.

Sobre estas três, vou usar exemplos familiares: minha mãe foi professora, e suas duas irmãs também. As três lecionavam em colégios públicos. Nem elas, nem nenhuma outra professora destes colégios tinha cursado licenciatura: eram todas normalistas (aquelas cantadas por Nélson Gonçalves: Vestida de azul e branco/Trazendo um sorriso franco/No rostinho encantador…)

No ensino particular não era diferente: eu estudei em colégio marista, minha esposa em “colégio de freiras” dominicanas. A formação padrão de todos os professores ou professoras era o curso normal.

Não apenas funcionava, como a alfabetização era de 100%, ou quase isso, no primeiro ano. No terceiro ano, os alunos já estavam aprendendo noções básicas de gramática, e um aluno de terceiro ano não ser alfabetizado seria algo completamente insólito.

Comparemos os livros sem gravuras e as provas impressas em mimeógrafo a álcool daquela época com os computadores e a internet de hoje. Faz sentido as “metas” atuais estarem abaixo do que já existia meio século atrás? É como se os padrões da Volkswagen para produzir um carro hoje estivessem abaixo de um fusca 1960. Para deixar bem claro: minha esposa cursou o segundo grau em escola pública, sem internet e sem computador, e aprendeu a ler e escrever em inglês, francês, latim e grego. Por que um estudante de hoje, mesmo passando o dia com o smartphone na mão, não é capaz de escrever três parágrafos em inglês?

Meta 12 – 50% da população entre 18 e 24 anos matriculada no ensino superior.

Meta 13 – 75% dos professores do ensino superior com mestrado, 35% com doutorado.

Meta 14 – Formar 60.000 mestres e 25.000 doutores por ano.

Estas metas me dizem que o bilionário sistema de ensino público brasileiro não tem como objetivo ensinar: seu objetivo é conceder títulos.

Um irônico pensador americano disse uma vez: “Os políticos e administradores do sistema educacional acreditam em escolaridade da mesma forma que as pessoas acreditam em Jesus ou em Marx ou em Trump, e agem e planejam como se um mandamento divino dissesse que todos devem ter um diploma, mesmo que sejam incapazes de ler um jornal ou fazer uma multiplicação. O resultado óbvio é que na hora de se candidatar a um emprego, um diploma vale o mesmo que um papel higiênico usado.”

Bem sintomático dessa “crença” em diplomas: as metas pedem mais graduados, mais pós-graduados, mais mestres, mais doutores. Mestres e doutores em quê? Não importa. Precisamos apenas de diplomas e de títulos. Penso cá comigo: será que algum problema brasileiro é causado pela falta de sociólogos ou filósofos? Será que o caminho para a prosperidade de um país é ter mais bacharéis em letras, ciências políticas, linguística, relações públicas, música?

Como nossas universidades tem autonomia para criar seus próprios cursos, tudo vira um jogo de compadres, onde a universidade produz seus próprios doutores e estes doutores se dedicam a defender os interesses corporativistas da universidade, com um discurso que prega que os assuntos do mundo acadêmico só podem ser debatidos dentro do mundo acadêmico. Ao restante da sociedade, cabe apenas pagar a conta.

Meta 20 – Ampliar o gasto público em educação para 10% do PIB.

Qualquer notícia sobre o assunto, em qualquer lugar que se leia, diz que a necessidade de gastar mais é um consenso absoluto. Será que faz sentido?

Segundo dados do Banco Mundial, que assim como os governos tem um departamento só para produzir relatórios e “planos”, o Brasil gasta 6,2% do PIB com sua educação. Isto é bem mais que Canadá (5,5%), Austrália (5,3%), Suíça (5,1%), Coréia do Sul (5,1%) e Alemanha (4,8%). Por outro lado, os países que gastam mais do que nós não são muitos, e alguns deles não são exatamente bons exemplos na hora de dizer que aumentar gasto significa progresso, como Botsuana (7,8%), Bolívia (7,3%), Suazilândia (7,1%) e Moldova (6,7%). Vale lembrar que o gasto brasileiro com educação quadruplicou nos últimos vinte anos e os resultados só pioraram.

Todos os políticos, jornalistas, acadêmicos e celebridades em geral garantem que devemos gastar mais, bem mais, como mostra a meta oficial de atingir 10% do PIB em 2024. Existem exemplos disso? Algum país desenvolvido gasta 10% do PIB em educação? Não. Nem mesmo países onde o estado é gigantesco, como França, Suécia e Dinamarca gastam isso. Na verdade, segundo a lista do Banco Mundial, apenas um país do mundo diz gastar mais de 10% de seu PIB na educação: Cuba. Se isso é um bom exemplo, e se os números do governo cubano merecem crédito, eu deixo por conta dos meus leitores.

Em minha opinião, o ensino público, especialmente o de nível superior, tornou-se um estado paralelo dentro do estado brasileiro: administra a si próprio, produz suas próprias verdades, declara-se imune a qualquer crítica externa, arroga-se o direito de avaliar e de julgar a si próprio. Não crê existir para servir à sociedade, mas que a sociedade existe para servi-lo. Aumentar ainda mais as bilionárias verbas que esta monstruosidade recebe servirá apenas para fazê-la crescer ainda mais e tornar-se mais poderosa, mais influente, mais arrogante e mais ambiciosa.

A educação brasileira precisa ser completamente repensada, desde o início. Não será com metas numéricas manipuláveis que resolveremos algum problema; muito menos com aumento de verbas. Nosso sistema educacional tornou-se um parasita da sociedade brasileira, e não se combate um parasita dando-lhe fortificante.

P.S. É possível que algum leitor se pergunte se é válido comparar gastos como porcentagem do PIB entre diferentes países, já que os PIBs, e principalmente os PIBs per capita, são diferentes. Creio que se falássemos em saúde a preocupação se justificaria, já que equipamentos e remédios são comercializados no mundo todo e tem preços em dólar. Mas a educação depende muito pouco de produtos importados, e não faz muito sentido, por exemplo, comparar em números absolutos o salário de um professor brasileiro com o de um professor alemão. O que importa é analisar o salário de um professor brasileiro dentro da realidade brasileira.