PERCIVAL PUGGINA

Viajava fazendo companhia a meu pai. Campanha eleitoral, em tempos de estradas de chão. A faixa de rodagem era estreita e um pesado caminhão seguia à nossa frente levantando uma nuvem de poeira. Eu exclamei, enquanto comia o pó que entrava pelas frestas da velha Rural Willys: “Pai, buzina para que esse chato chegue para o lado e nos deixe passar!”. Resposta daquele político que seria eleito quatro vezes deputado estadual, veio com sabedoria nutrida em boas fontes: “Meu filho, ele não chega para o lado porque não tem ‘lado’ suficiente para isso. Quanto a ser um chato, lembra-te de que é ele e tantos outros como ele que fazem circular a produção e os alimentos de que todos precisamos”.

Dessas viagens ficou-me na memória este outro ensinamento: “Observa as mãos desses homens e mulheres com quem vamos estar”. Com um sentimento de curiosidade e, depois, de admiração, apertei pela primeira vez, mãos realmente calejadas, dedos engrossados pelo forcejar nos primitivos instrumentos de trabalho.

Com isso, estou dizendo que aquele homem que dedicou parte da sua vida à política em sucessivos mandatos de deputado, tinha enraizado em si um profundo respeito pela pessoa humana e sua dignidade. Era um modelo de conservador, um modo humanista de ser que aprendeu no volumoso livro dos acontecimentos de seu tempo. Sem dúvida, enriqueceu essa experiência com as responsabilidades de educar sete filhos, quatro homens e três mulheres.

Valores morais lhe saiam da boca e dos exemplos cotidianos. A liberdade devia ser sócia vitalícia da responsabilidade e isso trazia consequências naquele minúsculo e sagrado recorte da vida social.

Ordem, disciplina, carinho, amor. História e estórias contadas perto da lareira, jogos de cartas em que se disputavam palitos como fortunas. Amor aos livros e aos autores, à música e aos compositores, a Deus e suas obras. Lembranças de uma vida exemplar que moldou nosso modo de ser.

Foi por vê-lo escrevendo sobre economia para os jornais de Porto Alegre e minha mãe declamando suas poesias repletas de amor que, também, eu, cuidei de me tornar, tanto quanto possível, um cronista das minhas próprias horas. Ao proclamar aqui minha admiração por Adolpho Puggina eu o abraço no peito e presto homenagem, também, aos pais que me leem nestas linhas.

1 pensou em “MEU PAI ERA UM CONSERVADOR E EU O BENDIGO TAMBÉM POR ISSO

  1. Me sinto bem representado neste seu reconhecimento.
    Tomamos bons caminhos com o exemplo dos nossos pais. Arrisco a dizer, por causa da sua assinatura, que também é de origem italiana.
    Até uma certa altura da vida, inocentemente, eu pensava que era o povo mais laborioso e honesto que podia haver por conta desse exemplo caseiro.

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