CORRESPONDÊNCIA RECEBIDA

Caro amigo, Berto, bom dia!

É sempre um prazer imenso poder visitar as páginas do JBF.

É uma honra tê-lo como amigo.

Estou enviando um texto despretensioso.

Se o caro amigo encontrar um tempinho para lê-lo, terá valido a pena escrevê-lo.

Fica meu abraço afetuoso a você e toda a sua família.

R. Pode ter certeza que a honra é toda minha, caro amigo.

Aqui nesta gazeta escrota vocês leitores não pedem nada: mandam e desmandam.

Disponha sempre.

E vamos ao excelente texto que você nos mandou.

* * *

OS MAIS LONGOS DOS ANOS

Viagem descompromissada pela letra da canção “I Dreamed a Dream”, tema do filme “Os Miseráveis”, da obra de Victor Hugo.

Pairam sobre a pátria brasileira os mais longos dos anos. Pouco menos de quarenta. Muito mais que uma eternidade. Suas noites sombrias e gélidas quedam-se intermináveis e fazem minguar os raios revigorantes e rejuvenescedores irradiados pelo sol nosso de cada dia.

Embevecido por um entusiasmo quase juvenil acreditei que os ventos da bonança soprariam generosas lufadas de progresso. Eu era jovem e destemido, determinado a não desperdiçar nem mesmo o sonho mais impossível. Preparei-me, então, para desfrutar da fragrância inebriante emanada da democracia que se descortinava no horizonte. Dediquei minha mais profunda aspiração para recepcionar o som mágico do abrir das asas da liberdade sobre nós. Nenhuma canção alvissareira deixei de cantar. Embriaguei-me com o vinho da confiança. Invadido por uma euforia que confesso, desconhecia, gritei o grito da esperança.

Bendito 1985! Viva Tancredo!

Porém, há tempestades que podemos prever, mas que não temos como evitá-las. Tancredo não viveu e o que se viu desde sua morte foi o desfile interminável da incompetência, da inconsequência, da arrogância, da sordidez e, mais acentuadamente, da corrupção. Eu sonhei que o meu Brasil seria bem diferente deste inferno que a sede de poder o transformou. Tendo toda uma nação como testemunha, no passado amaldiçoaram os dias que os antecederam. No presente, bendizem a era que os enriquecem. Temo pelo futuro que urdem. Desconsolado, só me resta lamentar a triste realidade tão distinta daquela que eu sonhei em 1985.

Dissimulados, se fantasiaram de arautos da boa nova e, em meu nome, festejaram o Brasil Novo. Acampados no poder, em nome deles, celebraram o estelionato, romperam com a retidão e homenagearam os políticos de sempre. Assoberbados, traíram a decência e se amasiaram com a política velha. Em defesa da hegemonia política e de privilégios pessoais não se constrangeram em enlamear suas biografias.

E agora, aqueles que se apresentaram como os donos da virtude e senhores da retidão, com a adaga da traição golpearam de morte o sonho que sonhei. O porvir visionário de um País modernizado, desenvolvido, culto e livre da indecente e eleitoreira custódia do estado perdeu-se nos conluios oportunos e nas alianças oportunistas. Usurpadores da dignidade alheia manipularam a miséria. Covardes, se abstiveram de redimir os miseráveis.

Hoje, moribunda, a esperança de um novo Brasil que fez exacerbar minha brasilidade ufana naqueles dias memoráveis resiste heroicamente na coragem e na determinação de um presidente que, sozinho, ousou derrotar o sistema. Desesperados, e movidos pelo mais profundo e refinado ódio, buscam freneticamente, dia e noite, eliminar um certo Capitão Jair. Os meios, pouco importa. Em suas mentes doentias e depravadas, os fins justificam, e, democratizam, facada, infâmia, mentira. Imorais, incentivam o justiçamento. Pérfidos e presunçosos, transformaram meus sonhos em vergonha.

Se, mais de um século e meio depois, o escritor francês Victor Hugo reencarnasse latinoamericano nesses tempos estranhos que pariu nos laboratórios da mediocridade a metáfora farsesca do socialismo de mercado com ações na bolsa de valores e deu origem à patética figura do comunista de direita, certamente reescreveria seu romance imortal sob outra perspectiva.

Sua pena privilegiada haveria de restaurar a justiça. Seus personagens não seriam Jean Valjean, Javert, Cosette, Marius, menos ainda, os infames Thérnardies. Seu enredo não teria heróis, teria apenas efeagacês, lulas, dilmas, dirceus, fidéis, maduros, cristinas, correias, ortegas, evos.

Seriam esses os miseráveis!

4 pensou em “MAURO PEREIRA – ITAPEVA-SP

  1. Na ocasião em que os fatos ocorreram (Brasil da década de 60 do século passado), eu, na minha até então despreocupada juventude, não percebi que os generais que assumiram o poder nesta nossa Pátria amada, Brasil, teriam que fazer muito. E fizeram, mas não o suficiente. Nós sabemos que para extirpar um câncer, os cirurgiões têm que cortar, também, tecidos sãos, pelo menos uma pequena parte deles, junto com os vilões que atacam o organismo sadio. Se os cirurgiões-militares tivessem feito o que realmente deviam, as metástases não teriam voltado do exílio para apodrecer o tecido social nacional que ora contaminam nossa Nação, como organismo que precisa sobreviver ao ataque da corrupção esquerdista, que não nos dá sossego, nos níveis internos e internacionais.

  2. Pensem em um texto bem escrito… Agora leiam a obra do señor Mauro, lá da tomateira Itapeva.

    Leio atentamente TUDO que se escreve nesta escrotíssima gazeta, pois sofro de insônia crônica e enquanto minhas quadrigêmeas amantes tailandesas roncam musicalmente em meus ouvidos, aproveito o ócio e a falta de sono para ler de fio a pavio. E o texto do señor Mauro é daqueles para, entre uma xícara de café e outra, ler, reler e rerreler tamanha é a belezura.

    Reza diariamente Sancho para que mais e mais fubânicos se aventurem e soltem as palavras neste JBF de tanta gente maravilhosa.

    Parabéns ao autor pelo tal “texto despretensioso”, riquíssimo em conteúdo e beleza.

    • Impossível não relembrar Adônis no pretérito 2020. Escreveu o magistral paiauiense: “Eu nunca vi, nem tive conhecimento, de um homem que tivesse sido tão atraiçoado e por tanta gente. Teremos que instituir o troféu e a medalha “Iron Balls” para dar a Bolsonaro. Só tendo os ovos de ferro para aguentar tanta canalhice”.

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