CORRESPONDÊNCIA RECEBIDA

BANÂNIA REVERENCIA SEU ETERNO PRESIDENTE!

Apesar de ter sido defenestrado do poder pelo voto popular em 2018, às vezes eu ainda me pego a reclamar de algum deslize inocente ocorrido durante o governo do PT e, então, me dou conta de até aonde pode chegar a canalhice, a ingratidão e o egoísmo do ser humano. Muito constrangido, confesso, sou obrigado a reconhecer que minha figura inexpressiva é prova cabal de que o maior defeito do ser humano é ser humano.

Nós não podemos permitir que a leviandade e o mau-caratismo se apossem de nossas almas e nos façam olvidar o caos ao qual estávamos submetidos até o final do século 20. Era uma época sofrida em que as trevas cobriam com seu manto escuro e assustador os horizontes de todo os quadrantes da nossa querida e amada República Federativa de Banânia. Éramos vítimas da corrupção, da busca do poder a qualquer custo e do desrespeito à constituição.

Nossa gratidão será eterna ao todo poderoso que, no limiar do novo milênio, nos enviou aquele que veio para nos redimir e livrar Banânia da escuridão que a martirizava e a mantinha refém do atraso e do subdesenvolvimento. A partir daqueles dias sagrados deu-se a luz e a paz e a harmonia se fizeram prevalecer, sem contar o extraordinário desenvolvimento experimentado pelo nosso país, reacendendo nos corações dos bananieros o sentimento de felicidade, há muito esquecido. Toda essa comoção coletiva só foi possível graças a ação da divindade que nos foi enviada pelos deuses: o nosso eterno presidente!

Sob a sua batuta, tivemos a oportunidade singular de apreciar estupenda transformação. Sob sua sabedoria abaixo de qualquer suspeita, recuperamos nossa cidadania vilipendiada e assistimos o apreço à democracia e à constituição ser regenerado. Jamaisznahistóriadestepaiz se registrou uma administração tão transparente e inimiga visceral da corrupção. Damos graças aos céus por ter nos concedido o privilégio de termos, somente para nós, o nosso eterno presidente!

Nascido da vontade divina, veio ao mundo na periferia de uma das cidades que compõem o cenário riquíssimo e pra lá de desenvolvido do nordeste de Banânia. Porém, concebido para ser humilde, nasceu em uma casa de pau-a-pique, confortavelmente acomodado em uma caixa de água mineral da marca Ypióca Ouro – Tipo Exportação -, que lhe serviu de berço. A apoteose daquele momento encantado manifestou-se na devoção de um bode, dois jegues e três porquinhos de propriedade de uma comadre de sua mãe. Guiados por uma estrela branca com o rabo vermelho, treze reis pagos atravessaram o país para testemunharem o acontecimento, completando o cenário divinal.

Cercado pelos carinhos da mãe, que era imaculadamente analfabeta, e dos mimos do pai, caboclo conformado que tinha como profissão a serraria – serrava cigarro dos irmãos, cachaça dos parentes e ambos dos vizinhos -, logo se destacou entre as demais crianças. De inteligência diferenciada, aos dez anos já era respeitado na arte da bebedeira e preparava, sozinho, o seu rabo de galo manipulando com destreza inimaginável para a idade, que era pouca, as garrafas de 51, Velho Barreiro e Cinzano ávido por curar a ressaca, que era muita.

Quando jovem, inconformado com a trairagem dos cabras safados dos seus irmãos que estavam vendendo no mercado negro seu estoque de manguaça, deitou o chicote na cambada e os expulsou de casa. Ali por volta dos seus trinta e poucos anos, zangou-se com uns senhores sulistas de alta patente que estavam de saco cheio de brincar de governar e transformou-se em sólida liderança trabalhista. A partir dali, nunca mais pisou no chão de uma fábrica, pois estava sendo preparado pelo onipotente para exercer sua divindade que, embora temporariamente fora do poder tem, nos tem liderado com todo zelo e amor ao longo desses últimos quase vinte anos. Orgulhemo-nos, pois, bananieros. Este é o nosso eterno presidente!

Morram de inveja noruegueses, dinamarqueses, alemães e outros povos menos afortunados. Sufoquem nas lágrimas acre da desilusão a triste condição de miseráveis e analfabetos que os persegue e procurem sobreviver, da melhor maneira possível, no lodaçal que sufoca essas republiquetas terceiromundistas paupérrimas e corruptas.

Estamos atentos para rechaçar qualquer manobra rasteira visando cooptar nossa divindade. Não cogitem, sequer, da possibilidade de se enveredarem pelos caminhos da espiritualidade, pois seria uma jornada vã e fadada ao fracasso. Nem mesmo poderosas mandingas e oferendas ministradas pelo mais poderoso pai-de-santo de vocês seriam suficientes para o espírito coruscante do nosso eterno presidente tragar. Ele é intragável!

Cedê-lo em comodato mas nem em sonho, pois a mais tênue suposição de ficarmos um dia que seja sem sua proteção nos causa pânico. Além do mais, nosso eterno presidente não é um enviado qualquer e as estruturas combalidas de suas nações falidas não seriam suficientes para suportá-lo. Ele é insuportável!

Tirem o “zóião” grande de cima dele, brancaiada ignara. Não estamos dispostos a dividir sua luz e sua divindade. Perderam arianaiada indecente. Definitivamente, não! Emprestá-lo, então, nem sob tortura.

Nosso eterno presidente é imprestável!

1 pensou em “MAURO PEREIRA – ITAPEVA-SP

  1. Mauro,
    VOSSO eterno presidente é imprestável!
    Seu primor de texto (fato já corriqueiro e costumeiro nesta gazeta) me fez lembrar um genial ex-presidente do Todo Poderoso Timão: “O Sócrates é inegociável, invendável e imprestável.” Vicente Mateus

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