CORRESPONDÊNCIA RECEBIDA

Nesses tempos de cólera, a palavra do poeta torna-se necessária.

Não há como fazer silêncio.

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Jamais!

E viva a literatura de cordel!

* * *

O HOMEM QUE DEFECAVA DINHEIRO
Autor: Antonio Barreto/BA

Já vi dinheiro na mala
Na gaveta, no baú
Na carteira, no colchão
No Bradesco, no Itaú,
Na Caixa, no Santander
Em sutiã de muier
Mas nunca dentro do ku!

Já vi dinheiro no cofre
No bolso do paletó
No jaleco, no sapato
Na bolsinha da vovó
Na guarita do porteiro…
Mas eu nunca vi dinheiro
Guardado no ‘fiofó’.

Já vi dinheiro no armário
Na cela, no matulão
Na sacola, na gravata
Na caixa de papelão
Na bota, no ‘miaeiro’…
Mas eu nunca vi dinheiro
No bumbum de um cidadão.

Vi dinheiro no bozó
No fosso do elevador
Dinheiro todo espalhado
Lá no Cristo Redentor
No alforje do vaqueiro…
Mas eu nunca vi dinheiro
Na porta do ‘cagador.’

Já vi dinheiro escondido
Na capa do celular
Na saleta do Geddel
No barco dentro do mar
Mas agora um senador
Escolheu o ‘bufador’
Pra o dinheiro ocultar.

Já vi dinheiro escondido
Na poltrona do fuscão
No paiol, na prateleira
Na dispensa, no porão…
Mas o senador fominha
Enjoou da ‘rachadinha’
E aplicou no ‘rachadão’!

O dinheiro vale muito
Na vida de um sonhador
Mas todo cuidado é pouco
Devagar com o andor…
O poder é surreal
E o dinheiro é vendaval
Na bunda de um senador!

Já se viu grana guardada
Num caixão em um velório
Num bueiro da favela
No cinzeiro, no escritório
Mas é grande a confusão
Enfiar um dinheirão
Na porta do ‘cagatório’.

Tem dinheiro escondido
Na pochete do assaltante
Guardadinho no telhado
Pendurado no barbante
Mas agora a novidade
É dinheiro à vontade
Escondido no ‘bufante’.

A gente encontra dinheiro
Escondido no convento
Na gamela, na piscina
Na beira do acostamento
Mas o fato é inusitado
De dinheiro colocado
No ‘buraco fedorento’.

Haja cabra corajoso
Pra gostar duma aventura.
Esse tal de senador
É um homem de bravura
Pois pegou os 30 mil
Botou dentro do ‘funil’
Sem perder a compostura.

O agente quando viu
Na cueca um objeto
Perguntou: o que é isso?
E o senador discreto:
“De covid me tratando,
Agora tô colocando
O ozônio pelo reto”!

Dizem que na hora H
O parlamentar faceiro
Disse logo ao delegado
Que queria ir ao banheiro…
Quando ele se abaixou
Acredite, ele cagou
Um pacote de dinheiro.

Bolsonaro sorridente
Com a notícia bem quentinha
Disse logo pra família:
“Isso é uma pegadinha,
O Francisco plagiou
E agora colocou
Dinheiro na ‘rachadinha’.

Sérgio Moro foi chamado
Pra dar jeito na firula.
Ele fez um relatório
No formato de uma bula
Afirmando: “Essa cueca
Cheia de grana e meleca
É do Presidente Lula”.

Esse fato inusitado
Já virou até paródia
Já intriga os poetas
Os amantes da prosódia
Pois nunca se viu dinheiro
Escondido, tão maneiro
Na caixinha de “hemorródia”! […]

11 pensou em “MARCOS ANDRE – RECIFE-PE

  1. E surge neste sábado modorrento e chuvoso aqui em SBC um genial Marcos André trazendo poesia de Barreto. Não uma poesia para românticos, mas (poeteiro mas) poesia política na folha do Cordel para os “anais” fubânicos…
    O Jornal da Besta Fubana parece um hospício diz a mãe de minhas filhas; retruco: mas são só meus amigos reunidos!

    • É verdade, mestre Sancho.

      A indignação causada pelo senador na população, foi de uma verdadeira vergonha alheia. Se o povo tivesse consciência de que este senador é apenas um exemplo entre vários políticos do nosso congresso, que se locupletam do dinheiro do contribuinte, pediria sua cabeça à prêmil. Mas o safado do Alcolumbre já está tratando de colocar panos mornos no nojento corporativismo da canalhice.

  2. Que tremenda inspiração. Tinha que chegar no senador fiel depositário para ver se o cabra safado percebe quão ridículo foi o acontecido e quão mais ficou com sua explicação.
    Se ele tiver um pingo de vergonha.

    • Sergio, acredito que o flagrante deste sanador é apenas a ponta de um iceberg que flutua no mar de corrupção do congresso imoral nacional.

  3. A inspiração do cordelista baiano, Antonio Barreto, soa como um protesto, diante da vergonhosa atitude de um Senador da República, que usou a parte excretora do seu corpo como um esconderijo “sanfonado”, para esconder dinheiro público.
    O Senado Federal, por uma atitude isolada de um senador, desceu a um nível tão baixo, que se pode, hoje, questionar a necessidade da sua existência.

    Parabéns pela excelente postagem, prezado Marcos André!

    Um grande abraço e bom fim de semana!

    • obrigado, querida Violante, pelo seu carinhoso comentário.

      Não à toa, o ex presidente Jânio Quadros nominava o congresso de “clube dos ociosos”. Hoje seria mais propício chamá-lo de clube dos malfeitores do povo brasileiro.
      Só nos causam decepções e vergonha.

    • Mestre Assuero, tem gente que vota e ainda troca tapa se você esculhambar ele.

      Este foi apenas um flagrante. Imagine quantos outros não agem de forma semelhante para se locupletarem do erário público?

    • Parabéns, Sr. Antônio Barreto.

      Seu primoroso cordel repercutiu bem nas mídias sociais, daí resolvi também divulgar por aqui no Jornal da Besta Fubana, a gazeta mais escrota da internet.

      Boas vendas e boa sorte.

  4. Pingback: O AUTOR DA OBRA | JORNAL DA BESTA FUBANA

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