JOSÉ NARCELIO - AO PÉ DA LETRA

Dizia Ariano Suassuna que, no Nordeste, cidade interiorana que se prezasse deveria possuir o doido, o bêbado e o mentiroso oficiais. Eram figuras conhecidas de todos na comunidade e protagonistas de situações hilárias no cotidiano da municipalidade. Em Natal, no meu tempo de jovem, também existiram figuras exóticas que caracterizaram a face cômica de uma época inesquecível.

Sobre alguns desses perfis inusitados descrevo aqui singularidades que os popularizaram. Citando tais personagens tento grudar na lembrança dos natalenses suas presenças marcantes e atitudes peculiares na fase em que integraram o panorama da Cidade do Sol.

Severina – A Administradora Geral do Estado e prima da rainha Elizabeth II da Inglaterra, esbanjava autoridade. A mensagem escrita na faixa puída cruzada no seu peito expressava bem a ideia de sua importância: Embaixatriz do Brasil. Severina entrava em qualquer gabinete de autoridade da capital para fazer cobranças do tipo: Você já recebeu o dinheiro que eu mandei o governador transferir para pagamento dos funcionários? Em seguida pedia: Pode me arranjar o dinheiro do pão?

Velocidade – Um dos poucos homossexuais assumidos de Natal nos anos 60 era uma figura popular e respeitosa. Quando provocado não revidava, apenas sorria. Sonhava em ter um filho. Caminhava pelas ruas num passo miúdo a acelerado, daí o apelido que o fez conhecido na cidade.

Cambraia – Jornaleiro vendedor do antigo Jornal de Natal, propriedade do ex-prefeito Djalma Maranhão. Ficou conhecido pela forma exagerada e surreal de como divulgava as manchetes do dia, tipo: Leiam a história do homem que roubou um trem e trocou por um jumento no Alecrim. Quanto mais extravagante o anúncio, mais jornais ele vendia.

Maria Boa – A paraibana de Campina Grande, Maria de Oliveira Barros, foi dona do mais famoso bordel da capital. Nas tardes de domingo, ela e suas meninas de conversível e motorista particular, passeavam pelo Grande Ponto para a satisfação de marmanjos e repulsa das dondocas. Foi homenageada com o seu nome pintado na fuselagem de bombardeiro B-25, baseado em Parnamirim durante a 2ª Guerra Mundial, pelos bons serviços que ela e suas meninas prestaram aos soldados norte-americanos.

Zé Areia – O natalense José Antonio Areias Filho possuía rapidez de raciocínio aliado a humor ferino. Era barbeiro de profissão, vendedor de bilhetes de loterias por opção e boêmio por vocação. Amigo de potiguares ilustres colecionou passagens hilárias e antológicas. Poeta e repentista é dele esta quadrinha: Embora tudo aconteça/De valente não me gabo/De peixe quero a cabeça/De mulher prefiro o rabo.

Lambretinha – Desequilibrado mental que fantasiava ser um motorista de automóvel. Mãos para frente segurando uma sucata de volante percorria a cidade de alto a baixo. De sua garganta saía um ronronar de motor, e dos lábios uma imitação de buzina. Era um brumm! brumm! bip! bip! ao mesmo tempo gozado e triste.

Garapa – Outro tipo inesquecível, do qual não se sabia nome nem sobrenome. Maltrapilho, mendigava sem molestar ninguém pelas ruas da cidade. Isso até que qualquer moleque gritasse: Água! E outro acrescentasse: Açúcar! Ele então perdia a compostura e destemperado gritava: Mistura, seu filho de rapariga! Mistura para ver o que acontece!

Deixe uma resposta