MARCOS ANDRÉ - DADO & TRAÇADO

É consabido que o nordeste brasileiro é um rico e abençoado berçário de poetas e cantadores. Eles encantam a todos e enriquece ainda mais a cultura e o folclore local. Nominá-los não é tarefa fácil e nem este é o propósito do texto. Evito porque além de infindável ser a lista, correria o risco de cometer injustas omissões.

Aqui, especificamente, no Estado de Pernambuco, um torrão de terra se destaca no mundo da poesia: O Pajeú.

A dita região abrange 17 cidades do Sertão pernambucano. A aridez provocada pela seca e a vida dura imposta aos nativos não os impedem de colherem as benesses e os frutos advindos das benfazejas águas do santo rio Pajeú. Sem medo de errar, afirmam que o principal produto/fruto colhido da região é a arte.

Autóctones da gema, não se cansam em difundir e de se gabarem de que neste rincão sertanejo, o sujeito já nasce respirando poesia. Os mais bairristas e aguerridos, então, asseguram que não só respiram, mas, comem, bebem, andam e falam em ritmo de versos rimados.

O motivo de tal orgulho advém de uma lenda de que, séculos atrás, nos tempos da colonização portuguesa, foi enterrada uma viola no leito do rio Pajeú.

A criatividade, junto com a mitologia regional assegura que, ao tomar um gole ou ser batizado com a água do Pajeú, já é o bastante para que a criatura transforme-se em poeta. E sem distinção de gênero.

Por lá é dito que, se o genoma humano é composto por 46 cromossomos (23 vindos do pai e 23 vindos da mãe), com a reação provocada pelo H2O do lendário rio, afeta imediatamente o DNA do felizardo, fazendo surgir poetas, repentistas, cantadores e violeiros aos borbotões.

Um grande amigo, e irmão na arte real, o jurista José Djacy Veras, radicado há muitos anos no Recife, mas, jamais abandonou suas raízes sertanejas do Pajeú. Originário que é de Afogados da Ingazeira, conta uma belíssima história ocorrida naquelas plagas:

Que o pernambucano Josué de Castro – médico, nutrólogo, professor, geógrafo, cientista social, político, escritor e ativista brasileiro do combate à fome – (Recifense reconhecido no mundo todo. Por seus méritos, exerceu a presidência do Conselho Executivo da Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação (FAO), e foi também Embaixador brasileiro junto à Organização das Nações Unidas (ONU). Recebeu da Academia de Ciências Políticas dos Estados Unidos o Prêmio Franklin D. Roosevelt. O Conselho Mundial da Paz lhe ofereceu o Prêmio Internacional da Paz e o governo francês o condecorou como Oficial da Legião de Honra.

Foi ainda indicado ao Nobel da Paz nos anos de 1953, 1963, 1964 e 1965). Em suas andanças por Paris, de tanto falar na notoriedade dos poetas de sua terra, resolveu convidar o casal de amigos Albert Louis e a esposa Professora e Socióloga, Catherine Bisset à vir ao Brasil. Depois da Amazônia, vieram ao Nordeste, especificamente, fazendo uma turnê por Pernambuco, Ceará e Paraíba, em cada lugar o anfitriã mostrava tudo que era possível, da cultura, do povo, da geografia e dos costumes, e na Paraibana Pombal, depois de conhecerem a trilha dos dinossauros, levou o ilustre casal à assistir uma cantoria de poetas violeiros.

A cantoria corria solta, a bebedeira dos cantadores violeiros, também. A criatividade impressionava os presentes. Madame Bisset e o Marido estavam maravilhados.

Lá para as tantas o interlocutor do evento pediu aos cantadores presentes que saudassem em versos e prosas os nobres visitantes franceses. Para que dessem uma demonstração, uma “canja” da veia poética e criativa dos cantadores da região, homenageando os forasteiros.

No meio de tantas e tantas loas, destacou-se uma que ficou marcada na memória, especificamente homenageando a ilustre visitante Madame Bisset.

Vamos homenagear
Uma distinta pessoa
Madame Bisset, há de perdoar
Minha rima, minha lôa
É que seu nome, de certo
Tira um fino muito perto
De uma coisa muito boa

A madame aplaudia e sorria, sem entender muito a criatividade e malícia do cantador.

16 pensou em “MADAME BISSET

  1. Algum parentesco com outra Bisset, a Winifred Jacqueline Fraser Bisset?

    Madames Bisset, hão de perdoar? Bisset.bissetinha, bissetinha… Ah, mudar uma vogal e um “duplo s” é uma tentação (quase) irresistível…

    Por causa da lenda escavei (cavuquei) sem sucesso as margens do Pajeú tentando me fazer poeta. Como o rio é enorme e a disposição de menor tamanho, aqui estou, ruim de prosa e de verso, sempre com o Berto ameaçando me despedir.

    • Você, modesto Sancho, tornou-se o mascote-mor do JBF. Goiano atesta.
      Mas(danado de mas) que tirou um fino danado no nome da madame, tirou.

    • É o mundo encantador da viola e do repente capaz de produzir histórias , fatos e acontecimentos tão comuns em todo o trajeto dos quase 300kms de curso, do legendário Rio Pajeu. O brilhante e inteligente Doutor Marcos André, em sua perspicácia e notório conhecimento dos valores culturais dos aedos da viola, nos brinda com tão maravilhosa narrativa.
      ACATE o abraço do Pajeuzeiro e amigo Djacy VERAS.

  2. Parabéns pela perfeição do texto, prezado colunista Marcos André! Realmente, o nordeste brasileiro é berço de grandes poetas populares, repentistas, cordelistas e cantadores, valores que integram o nosso folclore. Gostei de saber que a região do Pajeú, em Pernambuco, é berço de artistas e que lá, “o principal produto/fruto colhido da região é a arte.” O Pajeú, portanto, é uma terra abençoada.
    Achei interessante a lenda da viola, segundo a qual, “séculos atrás, nos tempos da colonização portuguesa, foi enterrada uma viola no leito do rio Pajeú”. E a crendice popular assegura
    que, “ao tomar um gole ou ser batizado com a água do Pajeú, já é o bastante para que a criatura transforme-se em poeta. E sem distinção de gênero”. Bom demais!

    As lendas, mitos, tradições e costumes fazem parte do nosso folclore.,

    Imagino o vexame que passou o consagradíssimo pernambucano Josué de Castro, ao ouvir a homenagem em versos aos seus convidados franceses, mais precisamente à Professora e Socióloga, Catherine Bisset, feita por poetas violeiros, cuja maior preocupação é a rima, seja ela qual for…rsrs.

    Um abraço!

    .

    • Grande Dama do JBF, Violante Pimentel.

      Extremamente lisonjeado me sinto com o seu carinhoso comentário, Grande Dama do JBF.

      Creio que o Josué, como todo bom pernambucano, deve ter dado lá suas boas risadas e aplaudido bastante..
      A bem humorada e inteligente construção poética se sobrepôs a toda e qualquer barreira por parte dos presente e convidados.

      Gratíssimo pela sua participação, querida!

  3. Os cantadores,poetas e repentistas do nordeste,sempre me impressionaram pela competência, simplicidade e malícia. Quando vou a Caruaru,em junho,fico ali,perto do hotel Nordeste pois, os acima citados,se apresentam num “caramanchão” ali perto. É ali que passo meu São João,junto a minha esposa e os latões da Brahma. Um grande abraço,meu Ir.

    • Verdade, Sr. Gilberto.

      Tive oportunidade de assistir um grupo de cantadores em Afogados da Ingazeira fazendo poesias que brotavam de suas férteis mentes.

      Bastou eu dar meu nome, onde estudei, de onde venho, pra eles começarem a construir rimas e versos sem fim. TFA

  4. Amado Ir. ‘ . fico feliz em ler algo de tamanha riqueza, parabéns pelo uso da linguagem. Fico feliz em ver que nosso país se tem esperança.

    • Fico muito grato com sua participação, querido mano Rari.

      É sempre um privilégio poder contar sua contribuição nos meu escritos.

      Três fortes abraços à moda da casa!

  5. É sempre um prazer ler seus textos Marquinhos. Admiro muito os artistas do nosso nordeste. Parabéns, vc é um artista com as palavras!!!

    • Grande Cadmiel. Enorme prazer poder contar com sua crítica e suas honrosas considerações.

      Seu elogio soa como um Kimura (golpe do jiu jitsu) massageando meu ego e torcendo meu braço.

      Grande abraço.
      Aliás, três!

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