MACEIÓ E AS TRÊS QUEDAS DO GOGÓ DA EMA

No dia 27 de junho de 1955 caia um dos cartões postais mais famosos das Alagoas da época: o coqueiro Gogó da Ema, que ficava na praia de mesmo nome em Maceió.

O coqueiro era ponto turístico de Maceió nas décadas de 30 a 50

O Gogó da Ema era um entre tantos coqueiros na beira mar de Maceió, quando alguma lesão fez com que o tronco perdesse rigidez e pendesse para um lado, porém logo em seguida, heroicamente, o coqueiro se recompôs e voltou a crescer pra cima. Esse formato do seu caule em forma de ‘S’ ou de um pescoço de uma ema, fez com que ele se tornasse mais famoso que os seus congêneres. Esse formato diferente começou a chamar a atenção de quem por ali passava, numa época que só pescadores frequentavam aquela região.

Imagem do dia da queda do famoso coqueiro

A praia onde ficava o coqueiro era um local de busca por petróleo e muitos poços de prospecção dividiam a paisagem com o Gogó da Ema, desde antes dos anos 30, porém a região da hoje Ponta Verde não era habitada. Até 1945, o coqueiro não recebeu nenhuma ajuda do poder público, até que em 1946 o prefeito Reinaldo Carvalho mandou fazer um muro de arrimo de troncos de outros coqueiros para protege-lo do avanço do mar, em 1948 foi a vez de outro prefeito, João Teixeira, construir uma pracinha ao seu redor com 4 bancos. Depois do sucesso turístico, o Gogó da Ema virou arte na forma de pinturas e fotografias do seu perfil, e até Luiz Gonzaga gravou uma música, que compôs com Zé Dantas falando de praias do Nordeste:

“Navega
Oh! Jangada nesse mar
Enfeitado de coqueiros
E coberto de luar
Navega
No Nordeste pela praia
Quero ver Itapoã
Quero ver minha Atalaia

Boa viagem
Gogó da Ema
Areia preta
Pontal, Tambaú
Adeus Iracema, adeus
Navega.”

Por outro lado o estado de Alagoas se desenvolvia e precisava exportar cada vez mais açúcar, e no Porto de Jaraguá, a poucos quilômetros dali, os grandes navios da época já não conseguiam atracar e foi construído um novo ancoradouro mar adentro. Esta construção mudou as correntes marítimas e prejudicou a fixação do famoso coqueiro, já não tão jovem. “As águas da enseada da Pajuçara passavam, através de um canal próximo ao Porto, para a enseada de Jaraguá, onde era o ancoradouro dos navios. O projeto era transpor essa região onde a corrente passava através de uma ponte, que não foi construída. Foi vedada a passagem dessa corrente. Por isso ela hoje, bate lá e volta, e acentuou o avanço do mar na região do Gogó da Ema”, afirmou o engenheiro Vinicius de Maia Nobre. Às 14 horas e 20 minutos o coqueiro veio ao chão, deixando toda a cidade triste, mas não inerte. No dia seguinte uma operação foi feita para reerguer o famoso maceioense, a Companhia de Força e Luz cedeu o guindaste, marinheiros, soldados do exército e os agrônomos Jesus Fortes e Olavo Machado se encarregaram da parte humana.

Os engenheiros avaliam a situação da raiz do Gogó da Ema antes da operação

Depois de três dias no chão finalmente o coqueiro estava lá de pé, de novo, com um novo aterro mais alto e um muro de troncos maior para protegê-lo das ondas das águas do mar. Um monitoramento foi feito no local, as folhas cortadas durante a operação começaram a nascer e o cartão postal de Maceió estava lá, imponente e vivo, mais famoso que antes, mas a “água mole” do mar continuava a bater forte no paredão vegetal e de areia até que dias depois o Gogó da Ema foi ao chão pela segunda vez, agora sem chance de vida, porém esta não seria sua última queda.

Algumas autoridades no local

O coqueiro caiu e morreu, mas deixou o nome da praia que antes habitou: Praia do Gogó da Ema, uma região que começara a ser valorizada e habitada, com um grande loteamento que já existia no local, o Loteamento Ponta Verde, já com muitos prédios, e os empreendedores preferiram usar o nome ‘Praia da Ponta Verde’, um nome bem mais comercial do que ‘Praia do Gogó da Ema’ para vender os lotes, apartamentos e casas, e assim ficou o nome do bairro.

Imagem atual da Praia da Ponta Verde

Recentemente fui a trabalho em Maceió e acordei cedo para dar uma corrida na beira mar da Praia da Ponta Verde. Do hotel que eu estava hospedado até o letreiro ‘ Eu amo Maceió’ da 7 km (ida e volta) e fui lá, resolvi fazer uma pesquisa: pedir informação a 10 pessoas na orla: ‘onde ficava o Gogó da Ema e onde fica o letreiro?’ Todos indicaram o letreiro, mas nove não sabiam nem o que era esse “Gogó da Ema”, o outro disse que sabia que era naquele bairro mas não o local exato. Foi assim que terminou a história do coqueiro mais famoso do mundo: no esquecimento, culpa nossa que não damos valor ao nosso passado, essa terceira queda, foi a mais dolorosa de todas para quem aprecia a nossa história.

Eu na corrida-pesquisa na linda praia da Ponta Verde, ex-Gogó da Ema

6 pensou em “MACEIÓ E AS TRÊS QUEDAS DO GOGÓ DA EMA

  1. Prezado George,
    Sou pernambucano de nascimento mas alagoano e maceioense de coração, apesar de só ter vivido lá menos de 20 dos meus 77 anos. Na minha infância e adolescência, fui várias vezes á praia do Gogó da Ema, que era, então deserta cercada de coqueiros a perder de vista. Esses coqueiros eram propriedade do Sr. Álvaro Otacílio, que dá nome a importante avenida na orla de Maceió. Amava tanto aquele coqueiro esquisito que até fiz uma tatuagem dele na minha omoplata.

  2. Caro Hélio, tenho só 52, mas sempre soube desse bairro em Maceió com o nome do coqueiro. Há uns 20 anos, quando ainda era comerciante, comprei um produto (formicida) a um industrial que morava em Ponta Verde e o seu filho, com que eu me comunicava para realizar as compras, não conhecia a praia do Gogó da Ema. No livro “Maceió de Outrora”, o seu autor, Felix Lima Junior, diz que essa propriedade pertencia a Francisco Venancio Barbosa, o Crico Zu. Um grande abraço e obrigado pela informação.

    • George,
      Acho que sua informação é mais precisa do que a minha, eis que você bebeu de fonte limpa. Felix Lima Júnior era gerente do BB quando eu era criança e foi, também, competente historiador. Acho que o Sr. Álvaro Otacílio foi proprietário de um enorme coqueiral entre a Ponta Verde e Jatiúca, talvez até englobando as áreas que hoje são os atuais bairros que mencionei. Como saí de Maceió em 1965, minha memória quanto a pessoas e lugares da minha amada Maceió estejam um tanto imprecisas, embaçadas. Desculpe por qualquer incorreção. O fato é que o Gogó da Ema sempre esteve em minhas lembranças e agora está até gravado no meu corpo.

  3. Hélio
    Vc sabe o local exato que ficava o coqueiro? Acredito que seja onde hoje tem um monumento de concreto armado com as curvas do Gogó da Ema. Confirma?

  4. George, o local exato onde estava o Gogó da Ema não existe mais, eis que o mar está gradativamente avançando sobre a orla e já “comeu” o ponto a que nos referimos. Esse local ficava próximo onde hoje existe uma pizzaria/bar/restaurante, denominado Carlitos.Aquele monumento está do outro lado da avenida, a cerca de 150, 200 metros do local. Quem pode lhe prestar maiores e melhores esclarecimentos sobre esse assunto é o meu amigo Carlito Lima (também colunista dessa gazeta escrota) e cujo pai aparece numa das fotografias que ilustram seu artigo, fardado. Ele era o então Coronel Mario Lima, comandante do 20º Batalhão de Caçadores.

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