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Editorial Gazeta do Povo

O assessor especial da presidência, Celso Amorim, e o presidente Lula.

O assessor especial da presidência, Celso Amorim, e o presidente Lula

Lula e seu chanceler de facto, Celso Amorim, adotaram na campanha e no início do governo uma pretensa neutralidade em relação à guerra na Ucrânia que, no fim das contas, já era uma tomada de lado. Nas repetidas declarações em que culpava igualmente os ucranianos e o ditador russo, Vladimir Putin, pelo conflito iniciado em fevereiro de 2022, o petista adotava uma falsa e absurda equivalência moral entre agressor e agredido, uma postura que favorecia o único e verdadeiro responsável pela guerra. Mais recentemente, no entanto, Lula e Amorim resolveram abandonar de vez a farsa e partir para o apoio escancarado aos agressores.

Em Pequim, o chanceler chinês, Wang Yi, e Amorim assinaram um acordo pelo qual o Brasil endossa um plano chinês que consistiria em três pontos: evitar a expansão do campo de batalha, impedir a escalada dos combates e evitar provocações. O que parece pragmatismo, já que hoje a China seria o único país capaz de convencer Putin por meios diplomáticos a interromper sua guerra contra os ucranianos, não passa de camaradagem com parceiros de Brics e um incentivo para que a “paz dos valentões” se torne a regra nas relações internacionais daqui em diante.

Primeiro, porque o tal acordo não faz menção alguma ao fato de que a guerra em curso é resultado de uma agressão unilateral e injustificável de Putin. Segundo, porque a vitória russa é de total interesse chinês, não apenas pelas consequências econômicas de um aprofundamento dos laços entre Moscou e Pequim, mas também porque os chineses têm suas próprias ambições territoriais; se a Rússia escapar impune de sua invasão à Ucrânia, a China entenderá que tem carta branca para invadir e anexar Taiwan, que a ditadura comunista não enxerga como nação independente, mas como “província rebelde”.

E, em terceiro lugar, porque os três pontos, vagamente formulados, favorecem o lado que mais avançou até o momento. Um forte contra-ataque ucraniano para retomar as partes de seu território invadidas por Putin seria uma “expansão do campo de batalha” ou uma “escalada dos combates”? Um “congelamento” neste momento, com um armistício condicionado à aplicação desses três princípios, com sua ambiguidade que poderíamos muito bem considerar proposital, significaria apenas uma ratificação daquilo que a Rússia tomou para si pela força das armas. O próprio Putin confirmou ser essa a sua intenção quando afirmou que as negociações deveriam retornar “não com base no que um lado quer, mas com base na situação atual no terreno”.

Amorim chegou a afirmar que estava “atrás de uma paz possível, não de uma paz ideal” – algo em nada diferente da “paz para os nossos tempos” de Neville Chamberlain, o mero apaziguamento que só foi capaz de adiar em alguns meses o início da Segunda Guerra Mundial. Não basta buscar uma paz que seja mero sinônimo de armas caladas se isso vier pela rendição de uma Ucrânia aniquilada, nem mesmo pela aceitação de anexações ilegais de território ucraniano, ainda que de maioria étnica russa. Não pode haver paz verdadeira e justa fora do respeito à integridade territorial ucraniana, e tratar essa demanda como algo “que um lado quer” é falsear a realidade – um falseamento que o Brasil endossa a ponto de fugir de uma reunião de cúpula mundial a se realizar na Suíça neste mês.

Todos esses movimentos não passam despercebidos aos principais atores envolvidos na guerra. O presidente ucraniano, Volodymyr Zelensky, afirmou que Brasil e China pretendem “dar vantagem aos países que atentam contra outros e priorizar essa aliança com o verdadeiro agressor”. Não se trata de “choro de perdedor”, como se referiu Lula de forma grotesca a opositores venezuelanos perseguidos pela ditadura de Nicolás Maduro, mas de constatação pura da realidade. Uma constatação que, aliás, os russos endossam: em meados de maio, o chanceler russo, Sergey Lavrov, afirmou que a Rússia tem “muitos aliados” na América Latina. Ainda que não tenha citado o Brasil na mesma frase, a conclusão é inescapável, dadas todas as menções elogiosas a Lula feitas pelo russo na mesma ocasião.

E, enquanto abraça de vez a Rússia, no outro grande conflito geopolítico de dimensões globais em curso, Lula segue fazendo escolhas desastrosas. O presidente da República decidiu remover o embaixador brasileiro em Israel, Frederico Meyer, nomeado para um posto na Suíça, deixando a embaixada sem titular, a cargo do encarregado de negócios. Com isso, Lula aprofunda ainda mais a crise diplomática entre Brasília e Tel Aviv, que já vem bastante estremecida desde que Lula fez aquela que talvez seja a mais abjeta de sua coleção de comparações absurdas, igualando a guerra israelense contra os terroristas do Hamas ao Holocausto nazista. A fala levou o governo de Benjamin Netanyahu a declarar Lula persona non grata, e Meyer levou uma reprimenda pública no Museu do Holocausto, em Jerusalém.

O governo Lula tem o direito de considerar que a chancelaria israelense foi longe demais ao levar Meyer ao museu em vez de manifestar privadamente sua contrariedade; tem o direito de defender uma solução de dois Estados; tem o direito inclusive de considerar que as ações israelenses em sua guerra contra o Hamas sejam desproporcionais. Mas, quando manifesta essas posições sem deixar claro um repúdio no mínimo idêntico – embora qualquer governo sensato demonstrasse uma rejeição ainda maior – ao terrorismo bárbaro e assassino do Hamas, que usa os palestinos como escudo humano e que tem interesse direto na morte dos cidadãos de Gaza para recrutar mais militantes ressentidos contra Israel, Lula novamente parte para a repugnante falsa equivalência moral.

A guerra na Ucrânia e o conflito do Oriente Médio são assuntos em que o Brasil tem pouco ou nenhum peso. No único foco de tensão atual em que Lula efetivamente poderia demonstrar relevância, no entanto, o petista mantém o padrão. Não contente em ser bastante comedido nas raríssimas críticas que faz à ditadura venezuelana de Nicolás Maduro, o governo brasileiro agora resolveu buscar briga com a Guiana, que vive sob a ameaça de uma invasão bolivariana. O ministro de Minas e Energia, Alexandre Silveira, acusou o país vizinho de estar “chupando de canidinho” petróleo que seria brasileiro, o que não tem a menor lógica e levou os diplomatas da Guiana a pedir esclarecimentos ao Brasil.

Em outros momentos de sua história, o Brasil já chegou a exercer um soft power baseado em sua capacidade de interlocução e mediação imparcial. Isso é jogado fora quando, em situações nas quais estão muito claros os papéis de agressor e vítima e que, por isso, exigem um posicionamento inequívoco, o país se desvia da defesa de princípios básicos do direito internacional, deixando de defender o que precisa ser defendido e de repudiar o que tem de ser repudiado. A capacidade de escolher sempre o lado errado – no começo, de forma sorrateira, fingindo neutralidade; depois, de forma explícita – é a marca do governo Lula nas relações internacionais.

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