J.R. GUZZO

O jornal O Estado de S. Paulo, num editorial há pouco publicado, ofereceu aos leitores um medicamento que está em profunda escassez no mundo político brasileiro de hoje: o tônico contra a perda de memória. É remédio essencial, pois os barões da nossa vida pública não têm a menor vergonha de fazer hoje o contrário do que faziam ontem. Tratam o eleitor como o bobo de sempre, que não lembra de nada e imagina que eles sejam mesmo aquilo que estão fingindo para a plateia que são.

O editorial não deixa que um deles, a estrela-guia da esquerda nacional, passe a perna no público, mais uma vez, sem que ninguém diga nada. Trata-se do encontro de Lula, candidato a presidente na eleição de 2022, com o ex-presidente Fernando Henrique, que lhe prometeu apoio se houver um segundo turno entre ele e Jair Bolsonaro. É uma contrafação em estado puro. FHC mostrou-se amigo de Lula, mas é rigorosamente falso que Lula seja amigo de FHC.

“Se um candidato tucano aparecesse nas pesquisas como capaz de derrotar o presidente Jair Bolsonaro na eleição do ano que vem, o PT de Lula da Silva certamente se recusaria a apoiá-lo”, diz o editorial. Não é uma previsão: é um fato. Alguém duvida, honestamente, que as coisas seriam assim? Não é só isso. “O demiurgo de Garanhuns”, diz o texto, “nunca se deixaria fotografar ao lado de FHC ou desse candidato, nem declararia voto no tucano no segundo turno, ainda mais tanto tempo antes da eleição”.

É isso, precisamente, que indica a realidade. O PT, para começo de conversa, jamais aceitou o resultado das eleições presidenciais de 1994, como nunca aceita suas derrotas nas urnas. Fernando Henrique mal tinha tomado posse e já começou a campanha: “Fora FHC”. Lula pode negar isso? Pode negar as constantes tentativas de impeachment, sem qualquer motivo sério, contra o presidente? Pode negar que insultou os eleitores do adversário, em mais uma prova de que, em sua democracia, só acha que são legítimos os votos dados a ele? Pode negar que logo no primeiro dia do seu mandato, após ter recebido com toda a educação a faixa presidencial do antecessor, saiu dizendo que tinha recebido uma “herança maldita” do seu governo? Pode negar que repetiu essa mentira sabe-se lá quantas vezes em seu mandato?

Lula, nos dezenove anos que se passaram desde que assumiu a presidência, jamais retirou uma só das ofensas que fez a FHC, ou voltou atrás em qualquer das duas posições. Ao contrário: foi incapaz de dizer, nesse tempo todo, uma única coisa positiva em relação ao inimigo. Agora está aí outra vez, tentando enganar o público com a fábula de que, por causa do encontro, ganhou um atestado de boa conduta de Fernando Henrique. É mentira. Lula continua desprezando FHC, ou qualquer aliado, como sempre desprezou. Os fatos dizem isso.

Lula só entende “democracia”, palavra que vive na sua boa, como um regime em que ele e seu partido ganham sempre as eleições importantes. Só aceita, na prática, o regime de partido único. Diz o contrário porque não tem a força material para impor o que quer – e até tolera outros partidos, desde que no papel de “aliados” subordinados e obedientes. Seu modelo de liberdade de expressão é uma imprensa amordaçada pelo “controle social da mídia”, e comprada com dinheiro da máquina pública. Acha que o problema da Venezuela, por exemplo, é que lá existe “democracia demais”.

É este o Lula que pretendeu sair do encontro com FHC com um crachá de “democrata-equilibrado-moderado-de centro” grudado na lapela. Só engana quem fizer questão de ser enganado.

5 pensou em “LULA, FHC E A PERDA DA MEMÓRIA

  1. O Estadão, jornal tucano de carteirinha, sentiu o golpe dado por FHC no PSDB. Com sua visita e apoio antecipado ao Lulla, FHC acabou com qualquer possibilidade de uma candidatura do partido. Pior, também condenou a todos os candidatos a governador, deputados e senadores a não poder falar mal do PT.

    Foi uma facada nas costas de FHC. O que o jornal n~]ao disse é que, apesar da ingratidão do Lulla, FHC se sente responsável pela ascenção do Pelego no poder, pois o acompanhava e dava apoio desde 1978 no ABC, quando Lulla não era nada e FHC já era FHC.

    O velho jornalão não criticou em uma palavra FHC, apenas o chamou de gagá, sem memória. Não, a memória do velho político está muito boa, ruim está a memória do velho jornalão decadente.

    • Prezado João Francisco,

      Tenho apreciado, sobremaneira, seus comentários e a sua permanente participação no JBF.
      Vou aproveitar mais este pertinente comentário, em mais um brilhante texto do Guzzo, para me permitir dois pontos que considero fundamentais no debate atual:

      1) Quando votei, ou votamos, sucessivas vezes no PSDB, pós-FHC (Serra, Alkmin, Aécio), não estava (mos) votando nesses pulhas. Votei, ou votamos, contra o PT !
      Ponto.
      Precisamos ter muita clareza do significado deste tipo de posicionamento.
      E hoje, vejam só que ironia, PT (Lula) e PSDB (FHC), juntos, em um pacto canalha, imoral, pela manutenção do “ Grande Mecanismo”, que será explicado, logo a seguir, que eles implantaram e tão bem alimentaram.

      2) Outro ponto, que também considero fundamental:
      Vamos deixar, definitivamente, esses termos “esquerda” e “direita” de lado.
      Isso não faz mais o menor sentido.
      Movimentos como “fascismo” e “nazismo” foram, historicamente, atribuídos à direita.
      E vejam, hoje, que tipo de comportamento, ou melhor, quem, no cenário atual, melhor se enquadra nesses “conceitos”, se não são, justamente, os autodenominados “esquerda”.
      Renan Calheiros é esquerda ? A canalha petista que fez pacto até com Maluf; por acaso, este verme é esquerda ? Os bacharéis em direito, catapultados a condição de… juizes ?!?!?! (arhh, que nojo). São de esquerda ?
      A diferença hoje, meu caro João Francisco, a grande divisão estabelecida no país, definitivamente, não é entre esquerda e direita!!!
      Esqueçamos isso!!!

      A diferença está em:
      1) quem é contra; e
      2) quem é a favor do “Grande Mecanismo”.

      Uma rede intrincada, de assalto aos cofres públicos, envolvendo esquemas ilícitos, carteis de empreiteiros, favorecimentos espúrios, repasse de recursos públicos a grandes grupos de comunicação, na forma, velada, de verbas publicitárias, dentre inúmeros outros “esquemas” ou “mecanismos”, menores ou maiores, mas de alguma maneira, interligados, como círculos, circunscritos, em uma grande geometria de fractais (para quem não viu, não deixem de assitir a sério “O Mecanismo”, do José Padilha).
      E tudo isso, sob o beneplácito e a proteção jurídica (?) de quem deveria, justamente, ser o guardião da lei e da Constituição.

      Lula e FHC estão juntos pela simples razão de evitar o desmonte do “Grande Mecanismo”.

      Simples assim!

      E, muito importante que se diga, entendimento este, que não é meu, mas que tenho sorvido através dos brilhantes textos do Prof. Alex Fiuza de Mello, facilmente encontrados em seu blog (https://www.zoonpolitikon.com.br/), alguns já divulgados aqui, no JBF.

      Repitamos, e propaguemos, por favor, à exaustão:
      Não existe esquerda versus direita, e sim uma parte da população, constituída por pessoas do bem, que ainda sonha com um país justo e digno, contra todo o restante, de oportunistas diversos, que quer a manutenção do “Mecanismo”, pois se alimenta dele.

      • Caro Rômulo!

        Fico muito feliz em saber que meus comentários atingem pessoas inteligentes como v. e principalmente quando vem a esta área de debates com argumentos igualmente inteligentes.

        Estamos juntos, Rômulo, quando enxergamos que há uma elite intelectual, financeira, judiciária e política que compõe o que v. chamou de “grande Mecanismo” que não quer perder o poder para o que eu chamo de “direita”, que também pode ser chamada de conservadores da tradição judaico cristã, filosofia Grega e direito romano; que norteou e fez crescer a civilização ocidental.

        Não se trata de um partido político, de Bolsonarismo, de polarização Direita x Esquerda. É muito mais que isso, é a defesa dos valores como Liberdade individual, do patrimônio, dos estados nações, da cultura e da família como célula base da sociedade.

        O comunismo, Rômulo não surgiu da classe operária e sim deste grande mecanismo, que também chamo de Sistema, que encontrou nesta forma de poder a melhor forma de controlar a sociedade conservadora sem perder o poder. A China hoje é o exemplo mais acabado de união de Comunismo com Sistema.

        Então entenda, quando coloco que sou conservador de direita é para me separar dos que defendem o Sistema, as vezes até de forma inocente.

        Não sou Bolsonarista, acho que inclusive ele já fez a falou muita bobagem no início de sua carreira política. Porém, uma coisa é certa, ele nunca se aliou ao Sistema e não esteve envolvido nos grandes escândalos dos últimos 30 anos. Hoje o Sistema joga tudo contra Ele, que no momento representa os conservadores.

        Um grande abraço

        • Prezado João Francisco,

          Para não me delongar mais, pois acabei escrevendo muito no último comentário, só posso dizer:

          Totalmente de acordo com o último parágrafo:

          – Não sou Bolsonarista;
          – Ele nunca se aliou ao sistema/mecanismo
          – Hoje o sistema joga tudo contra ele, DESESPERADA E ALUCINADAMENTE !!!

          E apesar de não gostar dos rótulos – também me considero conservador – sou , acima de tudo, CONTRA ESSE SISTEMA/MECANISMO MALDITO.

          Para entender esse pobre país, é só saber quem está a favor.

          Um forte braço

  2. Falar do lularápio é perda de tempo.
    Este indivíduo é a besta tentando enganar os incautos.
    Já enganou a CNBB, muitos padres e evangélicos.
    Cuidem-se!

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