GEORGE MASCENA - SÓ SEI QUE FOI ASSIM

A construção da ferrovia Transnordestina vem desde 2006 se arrastando no meio do sertão nordestino, entre os estados de Pernambuco, Ceará e Piaui. Com seus 1753 km de extensão, a ferrovia que custaria aos cofres públicos o valor de 4,5 bilhões de reais foi na última revisão em 2015 para 11,2 bilhões. Ligando os portos de Pecém no Ceará e Suape em Pernambuco aos centros de produção de grãos e derivados em Eliseu Martins no Piauí e ao polo gesseiro no Araripe pernambucano. Em 2016 os trabalhos pararam com pouco mais da metade da obra concluída. Há outro projeto de esticá-la até Porto Franco, no estado do Maranhão, onde fará ligação com a Ferrovia Norte-Sul .

Mapa da Ferrovia Transnordestina. O trecho verde é da obra já executada

Um grande trecho da malha já está pronto, ligando o nada a lugar nenhum, já que a grande parte do descarregamento dos vagões, se não a totalidade, se dará nos portos, e esta parte não está nem iniciada, o trecho pernambucano entre Gravatá e Suape ainda não tem nem a licença do Ibama liberada. O trecho pronto está entre Paulistana no estado do Piaui e Missão Velha no Ceará, seguindo até Custódia, nesse ponto a grande via férrea, com seus milhões de reais investidos, foi parada por uma capela no meio do nada, distante mais de 5 km do centro de Custódia, em um sítio com duas ou três casas próximas e um padroeiro totalmente desconhecido: São Luiz Gonzaga.

Igreja de São Luiz Gonzaga

Quem passa na poeirenta estrada rural pela frente nem percebe o prédio, a capela não é lá essas coisas, muito pequena, sem uma arquitetura que chame atenção, mas tem uma coisa que conta muito nessas edificações: sua idade. Construída no século XIX na comunidade quilombola do Carvalho, a igreja atravessou esses anos entre abandonos e reformas, o tempo não conseguiu derruba-la em quase 200 anos, nem o trem carregado de dormentes e brita. A terraplanagem para colocação dos trilhos já está pronta dos dois lados da igreja, com a frágil cerca de arame, que isola a capela, servindo de ponto de retorno das caçambas e retroescavadeiras. O consórcio de construtoras responsável pela obra até construiu outra capela igual, mas a população bateu o pé e não aceitou que derrubasse a antiga. Arqueólogos da UFPE comprovaram a presença de ossadas enterradas junto à igreja.

Fotos da época da construção, com as locomotivas prontas pra executarem seu serviço

“Quem pensa que a igreja abre caminhos pode até ter provas legítimas de que é verdade, mas a ‘fé’ do governo federal não deve funcionar muito bem, principalmente em Pernambuco. A obra da ferrovia Transnordestina é o retrato claro. A construção está parada por conta da Igreja São Luiz Gonzaga, que já virou famosa em Custódia por ‘travar’ o trem de passar. Há pelo menos dois anos, e desde então, não há oração que faça essa obra andar e quebrar a ironia de integrar o Programa de Aceleração do Crescimento (PAC)”, Publicou Geovani Sá no site Farol de Notícias em 2016.

Um manequim de loja é quem faz a segurança do canteiro em Salgueiro

A Transnordestina segue parada, e o tempo que não conseguiu afetar a singela capela de São Luiz Gonzaga está maltratando a imponente ferrovia. Vagões enferrujados, trilhos abandonados e erosão nos aterros mostram o zelo dos nossos governantes com o dinheiro do contribuinte, mas a igrejinha continua lá, como testemunha ocular dessa história.

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