ARISTEU BEZERRA - CULTURA POPULAR

Louro Branco (1943-2018), cujo nome de batismo era Francisco Maia de Queiroz, foi poeta, repentista e compositor. Nasceu em 02 de setembro de 1943, no município de Jaguaribe/CE. Começou a fazer poesia com 12 anos e morreu em 18 de janeiro de 2018, em Santa Cruz do Capibaribe/PE, onde vivia desde 1991.Ele foi um dos últimos nomes da velha linhagem dos cantadores nordestinos. Inteligente e dono de uma surpreendente velocidade de raciocínio, além de um humor afiado.

Esse genial repentista levou sua poesia e arte no improviso para 20 estados brasileiros, participou de mais de 400 festivais com os maiores cantadores do Nordeste e prestou grande contribuição para a cultura popular. Ao longo da carreira, foi autor de mais de 700 composições e escreveu dois livros: “A natureza falando” e “Da casca até o miolo”.

Já idoso, em momento de crise, terminou sendo doutrinado por uma denominação religiosa neopentecostal. Os líderes principais dessas designações brasileiras são nomes conhecidos em todo o país, em geral, evitam falar à grande imprensa, preferindo se comunicar por canais próprios. Louro Branco “converteu-se”, porém não abandonou sua criticidade, seu jeito moleque e bem-humorado de fazer versos.

Certa vez, Valdir Teles (1955-2020) cantava com Louro Branco e começou a censurá-lo por ter “aceitado o protestantismo”. Dizia que ele deixara o amor das mulheres, querendo ser santo. Louro Branco respondeu com esse veloz, sagaz e surpreendente improviso:

Valdir vive criticando
Porque agora eu sou crente
E tá dizendo às mulheres
Que eu fiquei impotente
Que diabo disse a Valdir
Que Bíblia capava gente?

Francisco Maia de Queiroz, o genial Louro Branco

10 pensou em “LOURO BRANCO, HUMORISTA DO UNIVERSO DO REPENTE

  1. Muito justa essa homenagem a Louro Branco. Lembro de ter visto se apresentando em diversos festivais e, às vezes, injustiçado. Se bem que elaborasse versos geniais, não tinha boa dicção. Entretanto, quem o conhecia, estava acostumado com a rapidez da sua fala. Louro Branco vinha de um ambiente rural, não estudou muito, mas tinha uma notáve cultura e era bem inteligente. Vale salientar que ele não escrevia e nem pensava antes de fazer seus versos. Era puro impulso e jorrava, muitas vezes, pérolas do repente que estão na memória dos apologistas.

    • Grato por seu primoroso comentário e pelo depoimento de quem assistiu diversos festivais com a participação de genial Louro Branco. Aproveito esse espaço democrático do Jornal da Besta Fubana para compartilhar um episódio desse repentista que surpreendia pela inteligência e rapidez com que improvisava versos que surpreendia a plateia.
      Certa vez, cantando com Sebastião da Silva, outro poeta de primeira grandeza, e falando da herança que deveria deixar para a família, saiu-se com essa:

      No dia que eu morrer
      Deixo a mulher sem conforto
      Roupas em malas guardadas
      E o chapéu em torno torto
      E a viola com saudades
      Dos dedos do dono morto.

      Saudações fraternas,

      Aristeu

  2. Parabéns pelo tributo prestado a esse repentista que se destacava por uma grande rapidez nos seus inteligentes improvisos. A figura do cantador de viola, no contexto atual, passa por uma série de significações sociais para atender as novas demandas culturais vividas, sobretudo em centros urbanos. No entanto, a memória desses cantadores reflete, de forma intrínseca, uma intensa relação com o sertão enquanto ambiente social articulador de todo um processo de formação e desenvolvimento do que eles consideram um dom: o ser cantador.
    Refletindo ainda sobre o dom, Louro Branco reproduz uma idéia recorrente entre muitos cantadores e seus ouvintes e, assim, abre possibilidades para refletirmos sobre a influência do ambiente social na construção dos poetas improvisadores: “(…) a cantoria, ela não é muito hereditária. Ela é assim… mais parece que um dom que chega no espaço. Semear esse dom parece que não é muito do sangue é mais do espírito, considero assim, porque se fosse uma hereditariedade como de bens, todo filho de cantador cantaria, né?”

    • Parabéns, prezado Aristeu, pela excelente postagem, “LOURO BRANCO, HUMORISTA DO UNIVERSO DO REPENTE!”

      É gratificante conhecer a trajetória desse gênio do repente, Francisco Maia de Queiroz (1943 – 2018), conhecido como Louro Branco, que começou a fazer versos aos doze anos de idade.

      Considerado um dos maiores cantadores nordestinos e dono de um raciocínio extremamente rápido, esse exímio poeta prestou grande contribuição à cultura popular.

      Destaco as palavras que você disse:

      “Esse genial repentista levou sua poesia e arte no improviso para 20 estados brasileiros, participou de mais de 400 festivais com os maiores cantadores do Nordeste e prestou grande contribuição para a cultura popular. Ao longo da carreira, foi autor de mais de 700 composições e escreveu dois livros: “A natureza falando” e “Da casca até o miolo”.

      Uma ótima semana!

      • Violante,

        Grato por seu admirável comentário que me estimula no prazeroso trabalho de pesquisar a cultura popular. Eu tive o prazer de conhecer o repentista Louro Branco (1943-2018). Ele possuia uma perfomance surpreendente, uma inteligência privilegiada e era muito rápido no improviso. O que atrapalhava seu desempenho era uma dicção não muito boa. Ele algumas vezes foi prejudicado em festivais de repentistas devido a forma dificultosa como articulava e pronunciava as palavras.
        O espólio de Louro conta com mais de 700 obras poéticas escritas, entre canções e poemas, e mais de 15 discos gravados. Ele escreveu obras que se tornaram conhecidas até mesmo fora do contexto da cantoria de viola, a exemplo de canções como ‘Longe de Ti’, ‘O Último Adeus do Vaqueiro’ e ‘Falta de Humanidade’. Poemas da estirpe de ‘Bibia’, ‘Justiça de Salomão’, ‘Loucura’ e ‘Pernoite num Cabaré’ também foram da sua lavra.

        Aproveito a oportunidade para contar um episódio engraçado desse genial repentista. Certo dia, Valdir Teles (1955 – 2020) cantava com Louro Branco (1943-2018) e perguntou onde ele residia finalizando sua sextilha com os seguintes versos:

        Qualquer dia, meu colega
        Vou conhecer sua casa…

        Louro Branco pegou na deixa e falou:

        Meu cumpade, a minha casa
        É uma casa tão feia…
        D’um lado é um cemitério
        Do outro lado a cadeia
        D’um lado se come terra
        Do outro se come peia.

        Desejo uma semana plena de paz, saúde e felicidade

        Aristeu

        • Obrigada, Aristeu, por compartilhar comigo esse impagável episódio, passado entre os repentistas Valdir Teles (1955 – 2020) e Louro Branco (1943-2018). Bom demais! kkkkk.

          Que beleza, você ter conhecido, pessoalmente, o grande repentista Louro Branco.

          Gostei de saber que o espólio de Louro Branco “conta com mais de 700 obras poéticas escritas, entre canções e poemas, e mais de 15 discos gravados.” E que “ele escreveu obras que se tornaram conhecidas até mesmo fora do contexto da cantoria de viola, a exemplo de canções como ‘Longe de Ti’, ‘O Último Adeus do Vaqueiro’ e ‘Falta de Humanidade’. Poemas da estirpe de ‘Bibia’, ‘Justiça de Salomão’, ‘Loucura’ e ‘Pernoite num Cabaré’ também foram da sua lavra.”

          Uma semana plena de paz, saúde e felicidade, para você também!

  3. Fernando,

    Agradeço ao seu ótimo comentário com observações importantes sobre a cantoria de viola no contexto atual. Temos que admitir que o dom de ser cantador é um assunto controverso, entretanto temos de admitir que o ambiente e o DNA são fatores básicos. Aproveito a ocasião para contar uma homenagem de Geraldo Amancio ao seu amigo e colega de profissão Louro Branco.
    Considerado um de seus maiores parceiros, Geraldo Amâncio destaca o que Louro representa para a cantoria. “É o maior repentista do mundo”. “Louro Branco foi um grande parceiro, um orgulho para nós cearenses que, ao lado de Patativa do Assaré, nosso maior poeta popular, e de Cego Aderaldo, o mais famoso deles, consolidou a cultura do Estado e da Região de forma brilhante. Com ele se foram a irreverência, o humor e a graça. Para ele não há substituto”, ratifica.

    E, em versos, Geraldo Amâncio homenageia o amigo:

    A viola calou-se, o som sumiu
    Toda rima está vesga, o verso manco
    Com a morte do grande Louro Branco
    Que a convite de Deus ao céu subiu.
    Se tem substituto, ninguém viu
    No passado, nem tem atualmente.
    Nós perdemos a última semente
    Que o roçado do verso safrejou
    A lagarta do tempo devorou
    Os maiores artistas do repente.

    Saudações fraternas,

    Aristeu

  4. Sou um fã de Louro Branco. Dou meus parabéns pela iniciativa de homenagear este grande repentista no Jornal da Besta Fubana. Informo sobre a religiosidade de Louro Branco, pois um meu amigo, que tinha conhecimento íntimo com o poeta, repassou-me.
    Tornou-se evangélico em 1994, integrando a Igreja Evangélica Assembleia de Deus Ministério Madureira. Mesmo sob a nova fé, continuou cantando e abrilhantando festivais e cantorias de pés-de-parede, ao lado de cantadores como Ivanildo Vilanova, Jorge Macedo, Miro Pereira e Valdir Teles, entre outros. Contudo, também produziu obras voltadas à religião, como o CD ‘Jesus Glorificado’, gravado em parceria com o cantador Chico Alves no estúdio de Caju e Castanha, em São Paulo, sob a produção de Téo Azevedo.

  5. Messsias,

    Muito obrigado pelo generoso comentário com informações sobre a denominação religiosa neopentecostal.de Louro Branco (1943-2018). Gentileza gera gentileza. Aproveito a ocasião para compartilhar nesse espaço democrático do JBF os seguintes versos de Louro Branco com o prezado amigo:

    Cantador como eu ninguém num fez
    Deus deixou pra mandar muito depois
    Que se cabra for grande eu dou em dois
    E se o cabra for médio eu dou em três
    E se for bem pequeno eu dou em seis
    Que a minha riqueza é bem total
    Cantador como eu não nasce igual
    Que ou nasçe mais baixo sou mais estreito
    Repentista só canta do meu jeito
    Se for fora de série ou genial.

    Saudações fraternas,

    Aristeu

  6. Louro Branco Jaguaribano da Falia Diógenes, com certeza filho de algum Fazendeiro da Região, pois os Diógenes eram os primeiros Portugueses a habitarem aquela região do Jaguaribe e era exímios criadores de Gado.

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