ARISTEU BEZERRA - CULTURA POPULAR

Lourival Batista e Pinto de Monteiro

Lourival Batista Patriota (1915-1992), conhecido como Louro do Pajeú, filho de Raimundo Joaquim Patriota e Severina Guedes Patriota. Atuou no estado da Paraiba ao lado do talentoso repentista Pinto do Monteiro (1895-1990). Começou sua atividade de poeta popular ainda na década de 1930. Era o mais velho dos irmãos repentistas complementados por Dimas e Otacílio Batista.

Em 1933, enfrentou uma empreitada de 97 dias andando do Recife até Itapetim, em São José do Egito, distante 422 Km do Recife. Antes, porém, cruzou a Paraíba e esteve no Rio Grande do Norte, para depois seguir ao seu torrão natal. Como cantador, fez um caminho ao contrário dos que chegam a capital. Começou a cantar no Recife, local onde fez o ginásio, e depois partiu para o interior, quando o mais comum é alterar o sentido desse fluxo. Levou poesia aos quatro cantos do mundo. Participou de muitas cantorias, ganhou muitos festivais, muitos prêmios, muitos amigos e o respeito de todos.

Louro do Pajeú foi um dos mais afamados poetas populares do Nordeste brasileiro, sendo considerado o “Rei do Trocadilho”. Satírico e rápido no improviso, essa qualidades provocavam temor nos seus competidores. Seu maior parceiro de cantoria foi o poeta paraibano Severino Lourenço da Silva Pinto, conhecido como Pinto do Monteiro (1895-1990).

A peleja desse dois cantadores se tornaram verdadeiras antologias e patrimônios da cultura nordestina. Por mais de 30 anos , Pinto do Monteiro e Lourival percorriam os sítios do interior, cantando sempre de improviso e com rima metrificada, na sacada das casas a convite de um fazendeiro ou no coreto da praça local. A cantoria se pagava com as doações dos que assistiam depositando dinheiro e moedas em uma bandeja.

Certa vez, cantando com Pinto do Monteiro no gênero denominado “nos oito pés de quadrão” ou “oitavas”, Lourival lançou seus versos ligeiros e bem elaborados:

Cantar comigo é um risco
Quebra pedra, espalho cisco
Vem trovão e cai corisco
Sai corisco do trovão
Desce água em borbotão
Formando uma grande tromba
Seu açude agora arromba
“Nos oito pés de quadrão”.

A resposta de Pinto do Monteiro foi na mesma moeda:

Meu açude não arromba
Nem sua parede tomba
Porque dois pés de pitomba
Sustentam seu paredão.
Cai pitomba pelo chão
Cai pitomba n’água funda
Lá vai “pitomba” na bunda
“Nos oito pés de quadrão.”

9 pensou em “LOURIVAL BATISTA

  1. Muito bom o arttigo lembrando o grande repentista Lourival Batista (1915-1992). Ele eoi um dos mais afamados poetas populares do Nordeste e, além da cantoria, a outra única atividade que exerceu foi a de banqueiro de jogo do bicho, mas sem sucesso. Lourival Batista era Irmão de outros dois repentistas famosos (Dimas e Otacílio Batista) e genro do poeta Antônio Marinho (conhecido como “Águia do sertão”). Lourival foi um dos grandes parceiros do paraibano Pinto do Monteiro. Irônico e rápido no improviso, era temido por seus competidores.

    • Fernando,

      Grato por seu comentário com informações importantes sobre o talentoso repentista Lourival Batista. Sou um fã dos versos desse cantador de viola e tenho na memória algumas sexrilhas e decassílabos antológicos. Aproveito esse espaço democrático do Jornal da Besta Fubana para enviar um episódio poético desse mito do admirável universo do repente.
      Certa vez, Lourival Batista (1915-1992). recebeu um mote do poeta, político, advogado e amigo, Raimundo Asfora: Não tive amores sonhei-os mas possuí-los não pude.
      Lourival glosou com sua rapidez estes versos que se tornaram famosos na memória de aprecia a poesia pura do repente:

      Entre profundos abalos
      E pesadelos medonhos,
      Sonhos, sonhos e mais sonhos,
      Sem poder realizá-los.
      Sentindo na fronte os halos
      Das auras da juventude,
      Só nunca tive a virtude
      De dormir entre dois seios,
      Não tive amores sonhei-os
      Mas possuí-los não pude.

      Saudações fraternas,

      Aristeu

  2. Li o artigo sobre Lourival Batista com grande interesse e saudade das antigas cantorias de pés- de- parede com versos inesquecíveis. No Nordeste brasileiro a arte dos cantadores de viola remonta à época dos grandes repentistas,. Em meio aos mestres da arte do improviso, destacam-se três irmãos cantadores: Lourival, Dimas e Otacílo Batista Patriota. Lourival, o mais velho dos três, nasceu em 6 de janeiro de 1915, na antiga Vila de Itapetim, quando essa pertencia ao município de São José do Egito/PE. Conhecido, também, como Louro do Pajeú, sua maior característica era a facilidade com a qual improvisava versos com alterações de letras e palavras, ficando, por isso, conhecido como o “Rei do Trocadilho”.

  3. Messias,

    É gratificante o seu comentário com considerações sobre Lourival Batista (1915-1992), habilidoso cantador de viola de São José do Egito/PE, que tinha como irmãos dois outros repentistas famosos: Dima e Otacílio Batista. Gentileza gera gentileza. Envio um episódio poético da vida desse genial repentista que marcou época no maravilhoso mundo do repente.
    O poeta Louro do Pajeú recebeu o seguinte mote de um amigo: Quem casa faz uma cruz pra morrer cravado nela.

    Lourival Batista (1915-1992) glosou com conhecimento, rapidez e aptidão de quem domina a arte do repente:

    Jesus não morreu tão moço
    Mas nunca quis companheira,
    Quis uma cruz de madeira,
    Porém, não de carne e osso.
    Não lhe seduziu o esboço
    Do perfil da mulher bela,
    Não deu tais honras a ela,
    Sabido só foi Jesus,
    Quem casa faz uma cruz
    Pra morrer cravado nela.

    Saudações fraternas,

    Aristeu

  4. Parabéns pelo tributo ao repentista Lourival Batista (1915-1992). De uma família de trabalhadores rurais, foi com sua mãe, Severina Batista Patriota, que Lourival aprendeu o gosto pela poesia. Por ser o filho mais velho, teve o privilégio de estudar no Recife e, em 1933, aos 18 anos, terminou o curso ginasial. De volta para o Pajeú, logo fez fama como bom cantador pela capacidade de fazer trocadilhos e improvisar em alto estilo. Lourival casou-se com Helena Marinho, filha do repentista lendário Antônio Marinho e tabeliã do cartório de São José do Egito. Helena criou os oito filhos de Lourival, dando à família a estabilidade que a vida de boemia e de cantorias em outras cidades retirava.

  5. Vitorino,

    Sinto-me privilegiado por seu excelente comentário. No Jornal da Besta Fubana, aprendemos uns com os outros. Fiquei muito satisfeito por suas considerações a respeito da vida do genial Lourival Batista (1915-1992), então, compartilho um episódio da vida desse grande cantador de viola.

    Lourival carregava consigo o gosto pela simplicidade da vida, o desapego ao dinheiro e às coisas materiais. Era conhecido em São José do Egito por doar comida e dinheiro aos pobres, e os mendigos e loucos da cidade frequentemente almoçavam em sua casa.

    Cantando sobre a pobreza e o valor do cantador, Louro do Pajeú mostrou por que ganhou o título de Rei do Trocadilho:

    É muito triste ser pobre;
    Para mim é um mal perene…
    Trocando o ‘p’ pelo ‘n’,
    É muito alegre ser nobre;
    Sendo ‘c’, é cobre
    Cobre, figurado, é ouro
    Botando o ‘t’, fica touro
    Como a carne e vendo a pele
    O ‘t’, sem o traço, é ‘l’
    Termino só sendo Louro!

    Saudações fraternas,

    Aristeu

  6. Parabéns, prezado Aristeu, pela excelente postagem, “LOURIVAL BATISTA!”

    A biografia do famoso poeta popular Lourival Batista Patriota (1915-1992), pernambucano, conhecido como Louro do Pajeú, nos mostra seu talento e grandiosidade. Sua atuação se tornou antológica, ao lado de outro grande poeta popular e repentista, o paraibano Pinto do Monteiro. (1895 – 1990).

    Como você disse:
    “Em 1933, enfrentou uma empreitada de 97 dias andando do Recife até Itapetim, em São José do Egito, distante 422 Km do Recife. Antes, porém, cruzou a Paraíba e esteve no Rio Grande do Norte, para depois seguir ao seu torrão natal.”

    Na década de 1930, iniciou sua carreira de poeta e cantador em Recife, onde cursou o ginasial e depois fez o caminho contrário dos poetas que almejam chegar à capital. Partiu para o interior e espalhou poesia por onde passou. Participou de muitas cantorias, venceu muitos festivais, .ganhou muitos prêmios e fez muitos amigos.

    Louro do Pajeú foi considerado um dos maiores poetas populares do Nordeste brasileiro. Era o “Rei do Trocadilho”. Satírico e rápido no improviso, qualidades que provocavam temor nos seus competidores. Seu maior parceiro de cantoria foi o poeta paraibano Severino Lourenço da Silva Pinto, conhecido como Pinto do Monteiro (1895-1990).

    Lourival Batista e seus irmãos, também poetas populares e repentistas, Dimas e Otacílio Batista , lendários violeiros de São José do Egito, foram cognominados os “Três Faraós da poesia do Sertão”.
    O Centenário de nascimento do poeta popular Lourival Batista (2015) foi comemorado em São José do Egito (PE), por poetas, cantores e turistas.

    Uma ótima semana, com muita saúde, alegria e Paz!.

  7. Violante,

    É gratificante ver sua sensibilidade de avaliar versos puros que foram improvisados com conhecimento, beleza e metriticados de forma competente por Lourival Batista (1915-1992). O seu texto enriqueceu o meu artigo, e fico feliz em saber que a minha pesquisa prazerosa no admirável universo do repente inspirou sua excelente consideração. Aproveito esse espaço democrático do Jornal da Besta Fubânica para compartilhar um episódio de Louro do Pajeú e Pinto do monteiro (1895-1990).

    Cantavam na vila de São Vicente, hoje município de Itapetim/PE, quando Lourival Batista, falando sobre plantas, usou o termo “carola” em vez de “corola”. Pinto do Monteiro bateu forte:

    Um rapaz que teve escola
    E ainda canta errado
    Fala em flor e diz “carola”
    Muito tem-se confessado
    Parte de flor é “corola”
    Precisa tomar “coidado”.

    O cochilo de linguagem de Pinto, falando “coidado”, em vez de “cuidado”, deu a Lourival a oportunidade de poder vingar-se do colega. E fulminou:

    Pra não ter um só errado
    Errei eu, erraste tu,
    Errou Pinto do Monteiro
    E Louro do Pajeú
    Nesta palavra “coidado”
    Tire o “o” e bote o “u”.

    Desejjo uma semana plena de paz, saúde e felicidade

    Aristeu

  8. Obrigada, Aristeu, por compartilhar comigo esse episódio hilário, ocorrido numa cantoria entre Lourival Batista e Pinto do Monteiro, na Vila de São Vicente, hoje município de Itapetim/PE. Lourival, referindo-se a plantas, em vez de “corola”, falou em “carola”. E Pinto ironizou:

    “Um rapaz que teve escola
    E ainda canta errado
    Fala em flor e diz “carola”
    Muito tem-se confessado
    Parte de flor é “corola”
    Precisa tomar “coidado”.,

    O “coidado” em vez de “cuidado”, num “deslize de Pinto do Monteiro, fez com que ele e Lourival ficassem no mesmo patamar. E Lourival não perdeu tempo:

    “Pra não ter um só errado
    Errei eu, erraste tu,
    Errou Pinto do Monteiro
    E Louro do Pajeú
    Nesta palavra “coidado”
    Tire o “o” e bote o “u”.

    Bom demais, Aristeu! Os dois talentosos poetas populares, Lourival Batista e Pinto do Monteiro eram impagáveis!!! Inteligentíssimos e dotados de grande presença de espírito.

    Uma semana plena de paz, saúde e felicidade para você também!

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