ALTAMIR PINHEIRO - SEGUNDA SEM LEI

Há 40 anos, mais precisamente no topo da carreira, aclamado com Discos de Ouro, Platina e inclusive um Grammy, o machão cafona casou-se com a também cantora jovem Eliane de Grammont, exigindo que ela deixasse o glamour artístico e se dedicasse ao lar e a filha recém-nascida. Ciúmes, alcoolismo e uma convivência entre tapas e beijos foram responsáveis pelo fim do casamento, que durou aproximadamente dois anos. A propósito, quando o machão brasileiro vai entender que mulher não é propriedade do homem ou em que momento nós vamos abandonar esse sentimento de posse misturado com arrogância…

Pois bem, logo após a separação, Eliane retoma sua trajetória musical, grava “AMÉLIA DE VOCÊ”, que por si só exprime sua vivência conjugal com Lindomar, e se apaixona pelo primo de seu ex-marido, que também era músico, com quem inicia um relacionamento. Na madrugada do dia 30 de março de 1981, Eliane de Grammont e seu novo namorado – Carlos Randall, estavam se apresentando no “Café Belle Époque”, no centro de São Paulo, quando seu ex-marido entra e dispara cinco tiros em suas costas e um tiro no abdômen do namorado. O primo sobreviveu, mas sua ex-mulher faleceu no local. O crime chocou o país.

Aos 26 anos e com poucos meses de separada, quando cantava em um bar, a jovem Eliane levou cinco tiros pelas costas e morreu no palco. O embriagado homicida que premeditou o delito covarde e bárbaro, antes de ir ao local do crime, havia comprado além de um revólver três oitão, balas do tipo “dundun” que ao perfurar a vítima explodem dentro do corpo causando lesões mortais. A filhinha de então, LILIANE, foi criada pelas duas tias (irmãs de Eliane), enquanto o pai cumpria pena em regime fechado. Na cadeia o cantor ainda lançou o disco “Muralhas da Solidão”, ganhando a liberdade em 1996, tendo ficado 7 anos preso, e o restante no semiaberto. Após o cumprimento da pena, Liliane procurou o pai, perdoando-o pela tragédia cometida contra sua própria mãe em 1981, num ato pouco aceitável pela maioria das pessoas.

Diga-se de passagem parece mais uma história inventada, aquela que chamaríamos de “estória” com “E” maiúsculo, sinopse pronta para qualquer filme de sucesso, mas foi à pura realidade de Lindomar Castilho, um dos maiores seresteiros do país, tendo sido intitulado como o “Rei do Bolero”, que matou sua ex-mulher, que foi condenado, cumpriu sua pena, e que pelo resto de seus dias terá este capítulo como tema principal em sua história de vida, mancha que encobrirá qualquer música de sucesso que fez parte do passado. O cantor, hoje auto refugiado no seu próprio lar, quando questionado a respeito do crime declara: “Eu carrego comigo um sentimento de culpa enorme. Não é apenas arrependimento. Cometi o crime, independente do meu querer ou não querer. Não sei como explicar aquilo. Hoje, sempre que posso, peço perdão a minha filha e a família Grammont”.

Tragédia incompreensível à parte, em 1965, o estudante de direito Lindomar Cabral lança seu primeiro disco pelo selo Continental, mas foi na década de 1970, na gravadora RCA, com o nome artístico de LINDOMAR CASTILHO que alcança a marca de 500 mil cópias com Eu Vou Rifar Meu Coração (1973). Permaneceu no topo das paradas musicais com “Você É Doida Demais”, parceria com Ronaldo Adriano, “Feiticeira” (1975) e “Nós Somos Dois Sem Vergonha” (1976) e mais uma vez a bela parceria com Ronaldo Adriano, tornam-se as mais tocadas na época do lançamento. Em sua obra, o músico de voz grave fala sobre boemia, ciúme, tragédia e decadência que, coincidentemente, a arte imitou a vida ou vice versa.

O excelente biógrafo Paulo César Araújo nos relata que, as canções de Lindomar têm como principal tema a desilusão amorosa, com letras sentimentais e referências à traição, ao desamparo e ao abandono, o que é verdade!!! O exemplo maior é a canção VOU RIFAR MEU CORAÇÃO… Lindomar Castilho é classificado como tenor de grande extensão vocal, afinada e de notável alcance, que consegue ser ouvido através de distância expressiva, com músicas de sucesso e carreira consolidada no Brasil e no exterior. Torna-se conhecido como “Rei do Bolero” e “Namorado de las Américas”. É um dos maiores intérpretes de boleros da música brasileira, ao lado de Altemar Dutra (1940-1983), Agnaldo Timóteo (1936), Nelson Ned (1947-2014) e Waldick Soriano (1933-2008). Esses cantores potencializam a interpretação das canções e são associados à música romântica popular.


1 pensou em “LINDOMAR CASTILHO, O CIUMENTO CAFONA QUE ULTRAPASSOU A MURALHA DA VIOLÊNCIA MACHISTA

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