MARCOS ANDRÉ - DADO & TRAÇADO

Escritor, pensador, filósofo, Mestre Maçom, humorista e Padre, Monsenhor Aloisio Guerra é uma dessas criaturas que passa por nossas vidas e que nos deixa um magnifico legado de amor e honestidade (dizia ser o maior patrimônio que se poderia deixar), para o resto da vida.

Egresso do Catolicismo Romano, onde sempre discordou dos posicionamentos dogmáticos daquela Igreja. Fato que desagradava seus pares e superiores.

Se sentindo deslocado, decidiu solicitar sua desvinculação do sacerdócio. Para isso, teve que passar por um longo e penoso processo. Primeiro, tem que protocolar o pedido junto ao Tribunal Diocesano, em Roma. Após um longo período de análise, vem a ordem em que o requerente é obrigado, pelo Vaticano, a assinar cartula de desligamento. Só então é concretizada com o certificado de dispensa emitido por ordem papal.

Com o “salvo conduto” em mãos, modou-se de Porto Alegre/RS, para o Recife.

Livre das amarras romanas e, encantando com a liturgia do cristianismo primitivo, migrou para Igreja Ortodoxa Antioquina, onde foi recebido de braços abertos. Nesta, o celibato é dispensado. Casou e teve filhos.

Aqui instalado como chefe da igreja ortodoxa local, comandou um programa diário de rádio denominado ‘REFLEXÃO’, na RÁDIO CAPIBARIBE, AM 1240, todos os SÁBADOS, 06:15h e todas as QUINTAS, 15:20h. Interagindo com os ouvintes, sempre recebia elogios pelas suas pregações diárias. Emocionou-se, ao vivo, quando após uma reflexão para um grupo de psicólogos, um deles disse que gostava do que ele dizia, porque pregava um cristianismo “pé no chão e cabeça ano céu”, quer dizer, um cristianismo que se pode vivenciar.

Dizia ele em suas pregações: “Não posso imaginar um Evangelho somente como um Livro apenas para se ler e muito menos para se guardar, mesmo com o maior respeito ou devoção… O Evangelho assim será ‘letra morta’, porque ele só terá vida se encarnado em cada um de nós”.

“ Madre Tereza de Calcutá dizia que muitas pessoas só leem o Evangelho nas pessoas. E cada um de nós deve se perguntar: Que Evangelho os outros leem em mim? Notem como é grande a nossa responsabilidade”. “Encarnar o Evangelho é encarnar a felicidade. Deus nos quer pessoas felizes, como Pai perfeito que é”.

“E Jesus Cristo “veio para que tivéssemos vida e vida em abundância”. Ora, ‘vida em abundância’, é uma boa qualidade de vida, é uma vida feliz”.

“Não gosto de ‘canonizações’, especialmente porque muito discriminatórias. Quase só se tem notícia de Freiras, Padres e Bispos. Conheci e conheço tantos homens e senhoras tão santos e que jamais serão canonizados, especialmente se de outras religiões”. Se referindo a Chico Xavier.
Foto do Monsenhor Aloisio Guerra

“ Observem, antes de ser canonizada (após exame) a pessoa é declarada, BEATA. Vulgarmente, quando alguém diz, “você é um beato”, esta zombando, menosprezando; entanto, ‘beatus’ em latim significa ‘FELIZ’”.

“Sabemos que teve santo ou santa com uma vida conturbada, perseguida, torturada e até queimada viva e que não deixaram de ser felizes, porque a felicidade verdadeira independe de posição social, econômica, racial, etc.”

“ A felicidade é um sagrado DEVER, sim! Porém, mesmo felizes temos DIREITO às nossas tristezas, dores, sofrimentos, tribulações diversas. Nada disso impede nossa felicidade, porque a felicidade está dentro de nós (Lc 17,21)”

“Amados e amadas ouvintes, já me aconteceu e certamente com vocês também, de ir consolar algum doente e ele ter nos consolado muito mais”.

“A felicidade é uma consequência inevitável. Viver feliz é viver o Deus que está em nós”.

E sempre terminava sua pregação dizendo uma frase que ouviu ou leu em algum lugar: “Você não consegue escolher como você vai morrer ou quando. Você consegue apenas decidir como você vai viver. Agora”.

Monsenhor Aloisio Guerra, além de um enorme coração e excelente pregador, era um estupendo contador de piadas. Estava sempre rodeado de amigos e parentes para contar uma boa piada. Até mesmo na solenidade da sua Investidura como Monsenhor (Arquimandrita), em 2015, em sua preleção, contou humoristicamente uma mensagem em que todos os convidados, riram.

Em certa ocasião, fomos a vara do crime do fórum de Camaragibe. Ele, intimado como testemunha de um ex empregado seu, que fora acusado de tentativa de homicídio. Terminada a oitiva, já na secretaria da vara, trajando impecável batina com gola clerical, atendeu o celular onde a escrevente da vara escutou o seguinte diálogo: “Sim, meu filho… e como está minha netinha?… sua mãe está ai? diga a ela que não almoçarei em casa. Almoçarei por aqui com o Dr. Marcos André…” A cara de espanto da escriturária foi indisfarçável. – Eu, heim!, padre de religião e de igreja em que tem mulher e filhos… Ele respondeu na bucha: ao menos, minha filha, lá é difícil encontrar tarado, pedófilo ou viado.

Hoje, viúvo, com 90 nos, se recupera em casa da COVID -19. Ficou entubado no hospital uns 25 dias. Pede que eu leve algumas piadas novas, pois, está cansado das velhas. Piscando o olho e rindo de uma cuidadora idosa, que o acompanha. Ela também sorriu. Disse nunca ter rido tanto em seu trabalho. Ele é um iluminado.

Com muito humor, conta a familiares e amigos que recusou o “convite da COVID”, e a carona de caronte. Subornei o mítico barqueiro. Ele me cobrou uma moeda por um passeio de barco, eu ofereci duas pra ficar. Aleguei sentir enjoos. “Se caronte aceitasse cheque, eu ia ser eterno”

Diz está pronto para comemorar em 2020, 56 anos que reside no Recife, 61 anos de Ordenação Sacerdotal. 30 anos na Igreja Católica Ortodoxa de Antioquia da Paróquia São Pedro Apóstolo de Recife.

19 pensou em “LIÇÕES DE VIDA

  1. Poxa, que inveja. São pessoas assim que gostaria de ter encontrado e se possível, ainda encontrar. Uma civilização, que quer ser chamada como tal, tem que estar povoada por iluminados assim, como o monsenhor. Sei que existem, mas em cidades grandes com mentes pequenas, passam despercebidos. Quem poderia propagar mensagens desse tipo estão muito ocupadas perseguindo fascistas imaginários e até mesmo esquerdistas homofóbicos, com o injustiçado Leandro Narloch da CNN. Mas….

    • Verdade, Sergio Melo. Obrigado pela participação.

      Mas creio que no mundo existam muitas pessoas com o mesmo perfil do Monsenhor Aluisio Guerra, apenas não foram apresentados.
      Sempre pregou o evangelho com os pés no chão, sempre extraindo e melhorando as belas mensagens a todos que o ouvia..

      Hoje vivemos num mundo de ridiculos patrulhamentos ideológicos onde cada palavra, escrita ou verbalizada, nos condena ao sabor do humor do “juiz” que assim a defina, como no absurdo caso do jornalista Leandro Narloch.

      Com o patrulhamento doentio atual, a “metrificação da suposta ofensa” da palavra pronunciada, se atem conforme a “erudição” etimológica do patrulhador.
      Portanto, mandar essa turma À merda, pode ser bem menos grave do que mandá-los PRA merda. Tenho dito.

  2. Que bom, Marcos. Depoimento sensacional. Achei fantástico essa questão da beatificação. Conheço gente que faz mais do que padres e pastores juntos. Fui católico, mas deixei de ser quando comecei a ler os livros de frei Betto. O evangelho que tem neles é muito diferente desse evangelho do monsenhor. Que ele continue com suas orientações.

    • Obrigado pela honrosa participação, Mestre Assuero.

      A lucidez do Monsenhor é algo alem do nosso tempo. Dizia ele que a beatificação é um negócio lucrativo, gera dividendos financeiros com romarias, velas, livros, eventos, souvenirs de toda ordem. Por isso acusava o catolicismo romano de verdadeira “maquina de fazer santos”.

      Achei interessasnte quando ele me contou que um dos santos recentes da Igreja Ortodoxa foi o último czar da Rússia Nicolau 2º. Aliás, sua esposa, Alexandra, e os cinco filhos também.
      Todos foram assassinados pelos bolcheviques, em 1918, e agora são considerados mártires.

  3. Leitura boa e dinâmica. Excelente contextualização. Me fez elucidar memórias passadas! Obrigado pelo conteúdo meu irmão!

    • Agradesço os comentários, Ivo Pedro. O Monsenhor Aloisio Guerra foi membro da Academia de Suassuna. Por motivos pessoais, migrou para GLMPE. Mas sempre pergunta cariunhosamente pela sua Loja Mãe.

  4. Meu Amado Irmão Pé. Aloisio Guerra! Pessoa que amo do fundo do meu coração que tive a benção de Deus de ser irmão e fã; posso dizer aos quatros cantos do mundo eu seu admirador e sempre serei.
    O meu abraço.

    • Muito agradecido pelos comentários, Américo soares.

      Ele é um grande admirador seu, Mestre Américo. Sempre se reporta a sua pessoa com grande admiração e carinho.

  5. Muito bom meu Irmão Marquinho, quem conhece e conviveu com padre Aloisio Guerra sabe quão verdadeiras são suas palavras! Parabéns pela homenagem a tão pura alma!

  6. Excelente Marcos. Concordo com Monsenhor. O evangelho é para ser vivido. Muito bem escrito o artigo. Queria ter conhecido o homem e sacerdote Aloísio.

  7. Muito bom meu irmão , o Padre Aloísio é sem dúvida uma grande personalidade. Sempre bem humorado, muito orgulho de ter um irmão como ele.

  8. O Mons. Aloísio Guerra é uma dessas preciosidades que na vida é difícil de descrevê-las, seja como religioso, cidadão, maçom e exímio contador de piadas. Tudo que fora dito pelo nobre Marcos André sobre o Mons . Aloísio, diz ainda muito pouco da vida dessa extraordinária criatura, porquanto, é ele um semeador das boas novas dos evangelhos de NSJC, um chefe de família de maior respeitabilidade, além de valoroso maçom, e nesta ordem, se serve para unir irmãos em princípios de real fraternidade. Parabéns a autor das mensagens.

  9. Ir.: Aloísio Guerra foi esteio na minha caminhada maçônica, desde o dia da minha iniciação, quando me presenteou com um de seus livros maravilhosos, e, depois, a cada reunião, com muitas passagens e ensinamentos que levarei para o Oriente eterno.
    Muito bom Marquinhos, parabéns pelo trabalho.

  10. Conheci o Monsenhor Aluísio Guerra, acredito que foi em 2009,num evento em Carpina. Ser humano excepcional, sábio e jovial. Foi a alegria de todos,antes e depois do evento. Voltei a encontrá-lo em uma reunião maçônica no Recife Novamente,mesma alegria e sabedoria. Quando voltei a trabalhar no Rio de Janeiro,perdi o contato com ele mas, até hoje,guardo lembranças da sua sabedoria e alegria.

    • É a mais pura verdade, Dr. Gilberto.

      Ele ficou marcado por semear o evangelho de uma forma bem especial, com sabedoria, e muita, muita alegria, mesmo!

  11. Sensacional e quase imperfeita a reportagem/Biografia de um irmão quase imperfeito que milita numa ordem perfeita. Assim somos todos os admiradores do Padre Aloísio. Assim é realmente o perfil do Sempre amável Monsenhor Guerra, um Guerreiro que destesta guerras. Fui iniciado por ele, na verdade meu padrinho adotivo que tentaram nos afastar com a língua de Víbora. Em vão as tentativas porque só fortaleceram nossa amizade inabalável. Certa vez fui cuidar dele no Hospital Unimed Ilha do Leite onde se encontrava internado por conta de um atropelamento. O Padre todo arrebentando passou a contar anedotas até altas horas já beirando a madrugada. Eu precisei lembrar que a Enfermeira recomendou que o mesmo fosse dormir cedo, senão o teimoso varava a madrugada contando anedotas.

    • Muito agradecido pelo comentário, Dr. Godoy.

      Isso é bem característico dele. Uma pessoa que espalhava alegria, mesmo que nas horas mais adversas.

  12. Monsenhor Aluízio Guerra nos mostra com clareza que é um exemplo a ser seguido. Do alto de seus 90 anos, procura demonstrar quais são os caminhos que devemos trilhar para buscar e atingir a Perfeição.
    Seus ensinamentos são um farol
    nos guiando pelas veredas da Virtude e do Amor Fraternal.
    Longa vida, meu Irmão!

    • Sábias palavras, Sr. Roberval.

      O Monsenhor Aloísio é um ser além do nosso tempo.

      Um exemplo de ser humano.

      Obrigado pela participação.

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