CORRESPONDÊNCIA RECEBIDA

ECCE HOMO!

(Eis o homem! – Poncio Pilatos apresentando Jesus à multidão)

Outro dia li uma postagem do apresentador Danilo Gentili falando sobre Olavo de Carvalho. Danilo bem observou que “Olavo xingava membros do governo Lula; depois passou a xingar membros do governo Dilma; depois membros do governo Temer. Em todo esse período a imprensa mainstream o ignorou. Mas, agora, quando ele xinga membros do governo Bolsonaro ele ganha todas as capas”.

Danilo está absolutamente certo. Todo jornalista diz que Olavo de Carvalho não deve ser levado a sério, mas replicam e contestam tudo o que ele fala. É o insignificante mais significativo do país hoje em dia. Graças a repercussão da mídia, todo brasileiro, atualmente, sabe da existência do “Guru de Virgínia”, mesmo sem ter lido nada de sua autoria ou mesmo saber onde fica Virgínia.

Conheci Olavo de Carvalho quando ele escreveu, por um breve período, no jornal O GLOBO (acho que foi na década de 80). Esse período foi curto porque Olavo passou a criticar o próprio jornal e a família Marinho não é de levar desaforo para casa. Isso mostra uma faceta de sua personalidade: ele fala o que acha certo, não importam as consequências. Voltarei a este assunto mais adiante.

Na época fiquei admirado: como pode alguém contestar e ridicularizar vacas sagradas da política e da intelectualidade nacional? E tudo que ele dizia era perfeitamente lúcido e lógico. A partir daí tornei-me seu fã (mas não a ponto de fazer seu curso de filosofia on-line).

Quando li seus primeiros artigos contra o desarmamento civil em curso no país fui ao êxtase. Eis o homem que o Brasil precisa: um intelectual que não se rende ao politicamente correto. Em reconhecimento coloquei um artigo seu no websítio ARMARIA (Armas e Revolução Passiva). Esse artigo foi publicado no jornal Folha de São Paulo em 1999. Hoje parece moleza alguém publicar um artigo pró-armas num jornal. Mas em 1999 esse foi um feito considerável, só possível devido ao enorme prestígio que ele já desfrutava.

Não há dúvida que Olavo é radical. Se você concorda 100% com o que ele diz, então você é um cara legal, muito inteligente. Se você só concorda com 90%, então você é um imbecil, uma besta ao quadrado. Infelizmente eu me encaixo na segunda categoria.

Ouvir alguém falando uma besteira deixa Olavo profundamente incomodado. Principalmente se esse alguém é uma pessoa que deveria conhecer o assunto e não falar bobagens. Vou dar um exemplo que me marcou: Na década de 90, um sujeito chamado Armando Daut de Oliveira escreveu um artigo no Jornal do Brasil exaltando a doutrina do Santo Daime e o chá de ayahuasca. Dizia ele que a doutrina (e o chá) daria “uma importante contribuição para a humanidade do século XXI”. Lembro-me perfeitamente deste artigo. Quando li, pensei com meus botões: quanta bobagem! Mas, como a maioria das pessoas, virei a página, prossegui minha leitura e esqueci o assunto. Com Olavo não foi assim. Ele ficou indignado e escreveu uma carta ao Jornal do Brasil desancando o autor e evidenciando todas as coisas ridículas que ele escreveu. Só tomei conhecimento desta carta ao ler seu livro O Imbecil Coletivo, onde ela está reproduzida. Dei boas risadas ao recordar o caso. Olavo é muito divertido.

Se há uma coisa que eu gosto é ouvir pessoas inteligentes debatendo. Fico realmente emocionado. Adorava quando Jô Soares entrevistava gente culta em seu programa na TV. Gente como um José Mindlin, um Ariano Suassuna, etc. Infelizmente, na maioria das vezes ele se limitava a entrevistar artistas da moda que nada de substancial tinham a acrescentar. Eram entrevistas enfadonhas. Para aqueles que tem o mesmo gosto que eu, recomendo ler o debate de Olavo de Carvalho com Alexander Dugin, que foi transformado em livro com o título Os EUA e a Nova Ordem Mundial.

Alexander Dugin está para o presidente russo Vladimir Putin assim como Olavo de Carvalho está para Jair Bolsonaro. Podemos dizer que Dugin é o guru de Putin. O debate é maravilhoso e para mim um dos mais relevantes exemplos de como duas pessoas podem divergir profundamente mesmo ambos tendo razão. É claro que Olavo jamais admitirá que Dugin tem razão mas, se você não é um americanófilo fanático, ao ler o livro vai perceber que Dugin está certo na maioria de suas críticas aos EUA.

Enfim, para quem quiser conhecer um pouco de Olavo de Carvalho, recomendo o livro “O mínimo que você deve saber para não ser um idiota”. Este não é um livro escrito por Olavo, mas sim uma coletânea de artigos seus publicados na imprensa e compilados por Felipe Moura Brasil. Por serem artigos jornalísticos, são leves, curtos e de fácil leitura. Por criticar personagens conhecidos da política e da intelectualidade nativa são também muito divertidos e esclarecedores.

Praticamente, até agora, só fiz elogios ao Olavo. Mas também tenho minhas restrições (meus 10% de discordância).

Olavo ataca todo aquele que julga estar desvirtuando ou desviando o governo Bolsonaro de sua meta gloriosa de transformar o Brasil. Por este motivo ele têm investido contra alguns militares que ocupam cargos importantes no governo. Pode-se concordar ou não com suas posições. Mas o que me chama a atenção é o fato dele não fazer nenhuma crítica ao super-ministro Paulo Guedes. Justamente o homem mais importante para o sucesso ou o fracasso do governo Bolsonaro.

Olavo conhece muito de história e bastante de economia. Ele já se declarou um entusiasta do Sistema Americano de Economia Política, que tornou os EUA uma potência em pouco mais de 50 anos ao final do século XIX. Conhece bem a luta de Abraham Lincoln contra os banqueiros da época. Conhece o pensamento de José Bonifácio de Andrada e Silva, o Patriarca da Independência, e sua luta contra os banqueiros ingleses e pela industrialização do Brasil. Conhece Von Mises e sabe que o liberalismo econômico só funciona intra-muros, isto é: dentro das fronteiras de um país. Sabe também que Paulo Guedes é um banqueiro comprometido com as elites financeiras e um globalista de carteirinha. Apesar disto tudo não se vê, de sua parte, uma única linha contestando ou botando em dúvida as políticas pró-rentismo e entreguistas de Guedes.

Por este motivo, quando disse acima que Olavo fala o que acha certo, não importam as consequências, devo retificar: mais ou menos! No momento sua credibilidade comigo (e com muitas outras pessoas) está em baixa. Como defensor do governo Bolsonaro entendo que ele deveria preocupar-se com aqueles que podem produzir o maior dano – os agentes econômicos – e não atacar assessores que, mesmo fazendo tudo errado, só podem produzir danos marginais.

Com sua vasta cultura de história e economia ele tem a obrigação moral de, no mínimo, falar “Ei pessoal, será que isso está certo mesmo?” Nesse assunto, porém, seu silêncio é ensurdecedor.

Leonardo Arruda
O último dinossauro da Direita Nacionalista

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