GEORGE MASCENA - SÓ SEI QUE FOI ASSIM

Quando eu ia passar as férias em Serra Talhada, meu tio Luiz Andrelino me contava muitos causos das épocas passadas. Lembro que um dia a gente ia de Serra para o sítio da família, eu ainda criança e tio Luiz contando muitas histórias, mas tia Guiomar, sua esposa reclamou: “Luiz, George desse tamanho não quer ouvir essas histórias antigas não, ele quer saber de coisas modernas”. Ele parou de contar e eu fiquei triste por não poder fazer o percurso escutando meu tio, eu quase peço para ele continuar, mas a minha timidez não deixou.

O sítio era o “Cipó” que ficava na ribeira do Riacho São Domingos, próximo de onde se deu a ingrisia entre Lampião e os Nogueiras. Meu pai, Seu Djalma Nogueira, também é um ótimo contador de causos, detalhista como eu gosto. Sempre que vamos ao Recife para ele fazer consultas médicas e exames, na viagem saem ótimas histórias.

Luiz Andrelino Trecho do documentário Xaxado – A Dança de Cabra Macho

Uma vez saímos de Tabira às 4 da manhã, eu e meu pai, ele dando uns cochilos e eu dirigindo, quando passamos em Arcoverde eu o acordei para tomar café no Posto Cruzeiro, quando voltamos à viagem, ele ligou o rádio e lá estava passando um programa de forró com participação de ouvintes. Nesse dia o assunto era o lançamento de um livro que dizia que Lampião era gay, fomos ouvindo até Mimoso o debate.

Depois fui pesquisar na net e descobri que Lampião era gay e Maria Bonita chifrava o capitão, pelo menos era essa a afirmativa de Pedro Morais, autor do livro “Lampião, O Mata Sete”, que na época ia ser lançado mas a justiça proibiu a pedido de uma neta de Virgulino, Vera Ferreira. “Intimidade não é história. O livro agride por demais, afirmando que Lampião era gay, que Maria Bonita era adúltera e até que Expedita Ferreira Nunes não é filha dos dois. Isso causou transtornos a toda a família, aos netos, aos bisnetos na escola”, argumentou Vera.

Livro Lampião, O Mata Sete e seu autor Pedro de Morais

O livro diz que Lampião tinha um caso amoroso com o cangaceiro Luiz Pedro, “Certa vez, Luiz Pedro matou o irmão de Lampião, que era a coisa que Lampião mais queria bem, e, em troca, Lampião, que nunca foi de clemência, absolveu Luiz Pedro, exigindo dele juras de que jamais se separariam. Isso não me parece coisa de macho”, comentou o autor. O caso se deu em Tacaratu em 1927, quatro anos antes de Lampião conhecer Maria Déia. Luiz Pedro explicou que foi um acidente quando ia se levantar da rede e o fuzil disparou atingindo Antonio Ferreira. Alcino Alves, membro da Sociedade Brasileira da História do cangaço discorda: “Nunca teve isso, não! O Luiz Pedro tinha uma companheira. A Mulher dele se chamava Neném. Ela foi morta na fazenda Mucambo, em Sergipe. Era de Raso de Catarina, Paulo Afonso, na Bahia. Essa monstruosidade chamada triângulo amoroso entre Lampião, Maria Bonita e Luiz Pedro é tudo safadeza.”

Mas em uma tese da Universidade de Sorbonne na França, o ativista gay baiano, Luiz Mott, cita o lado feminino do cangaceiro: “Todo mundo aqui no nordeste sabe que ele era um exímio estilista e gostava de plumas, paetês e perfumes franceses”.

1. Lampião e Maria Bonita; 2. Nenen, Lampião e Maria Bonita e 3. Luiz Pedro

Já chegando em Mimoso, quando o rádio começou a sair do ar, meu pai mudou de estação para outra mais nítida e eu comentei: “Eu acho os elementos fracos para determinar a preferência sexual de uma pessoa”.

Papai concordou: “Lampião não era gay, isso é conversa pra vender livro” e continuou: “Quem danado ia ter coragem de comer o fiofó dele?”.

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