VIOLANTE PIMENTEL - CENAS DO CAMINHO

Charles Alexandre Lachaud, célebre criminalista francês, nasceu em Treignac, no departamento de Corrèze, a 25 de fevereiro de 1818. Estudou no liceu de Balzas e em 1836 viajou para Paris, a fim de fazer os seus estudos de Direito. Depois, voltou para a sua terra e abriu banca de advocacia em Tulle.

Certo dia, inesperadamente, um grande processo-crime veio tirar Lachaud da obscuridade, e jogá-lo na glória e na fama.

Pois bem. Nos primeiros dias de janeiro de 1840, Madame Lafarge (em solteira, Marie Capelle), era presa na sua quinta do Glandier, perto de Tulle, onde seu marido, proprietário de fundição, acabava de falecer.

Filha de um antigo coronel do Império e aparentada com as mais ilustres famílias da época, a jovem era odiada pela sogra, que a perseguiu até a sua morte, e, com ódio feroz, acusava-a de ter envenenado o marido com arsênico e de ter furtado diamantes de uma de suas amigas.

Essa dupla e terrível acusação, dirigida contra uma dama da alta sociedade, jovem, bela, distinta e inteligente, teve uma grande repercussão. O caso, rapidamente, tornou-se um processo célebre.

Madame Lafarge (ou Marie Capelle) já ouvira Lachaud, num processo criminal, perante o júri de Corrèze. Ainda não o conhecia, mas, a partir de então, foi seduzida pela sua eloquência, a tal ponto de prometer a si mesma a ele recorrer, se algum dia precisasse de um advogado. Nessa época, Lachaud tinha pouco mais de 22 anos.

Logo depois de presa, Madame Lafarge escreveu a Lachaud, rogando-lhe que assumisse a sua defesa, pois era testemunha do seu talento admirável. Tinha-o ouvido num processo criminal, perante um Júri em Corréze e ele a fizera chorar. Nessa ocasião, dizia ela, vivia feliz e risonha. Hoje, estava triste e sempre chorando. Terminava a carta, pedindo-lhe que restituísse o seu sorriso, fazendo brilhar a sua inocência aos olhos de todos. E assinava: “Marie Capelle” (seu nome de solteira).

Entretanto, a família de Madame Lafarge já tinha escolhido como seu defensor, outro importante advogado, Maitre Paillet, da Ordem dos Advogados em Paris. Mesmo assim, a acusada não quis abandonar o advogado que escolhera e exigiu que o seu jovem defensor auxiliasse o seu ilustre colega.

A partir de então, o nome de Lachaud ficou associado ao “processo Lafarge”, embora ele só estivesse atuando na parte referente ao furto das joias.

E Lachaud defendeu Madame Lafarge dessa acusação, com todo o seu coração e todo o seu talento.

Ele também era jovem, cheio de ardor e dedicação, possuía tesouros de talento e de eloquência em reserva, e queria gastá-los. E, assim, consagrou-se inteiramente à defesa dessa jovem de 24 anos, cujo fascínio e beleza seduziam a quantos a cercavam.

Apesar do talento e esforços de Lachaud, auxiliando a defesa feita pelo advogado Maitre Paillet, contratado pela família da acusada, Madame Lafarge foi declarada culpada e condenada a trabalhos forçados, pelo resto da vida.

Após a condenação, Madame Lafarge não se desacreditou. Conservou os seus partidários e os seus defensores.

Na prisão de Tulle, recebia mais de 6.000 cartas por ano: cartas de dó, ofertas de auxílios pecuniários e, sobretudo, declarações de amor ou pedidos de casamento, feitas por ingleses ricos ou americanos excêntricos.

Durante o seu cativeiro, escreveu um livro intitulado “Horas de Prisão”, que, segundo os historiadores, contém belíssimas páginas.

Em 1852, finalmente, escreveu ao príncipe Luiz-Napoleão, presidente da República, não para lhe pedir graça, mas justiça. Na carta, dizia que era inocente e que há doze anos se desesperava diante da justiça dos homens. Mas, agora apelava para ele, o Príncipe, que representava a justiça divina na face da terra. Dizia não estar implorando a liberdade da ventura, mas recorrendo ao meio de oferecer a Deus o triunfo do seu direito. Invocava também a figura do seu falecido pai, que se vivo fosse, só encontraria um nome bastante grande para transformar um ato de clemência num ato de justiça. E esse nome era o dele, o Príncipe Luiz-Napoleão. E finalizava a carta, rogando-lhe Graças pela memória e pela honra do seu pai, que o conhecia, e Justiça para ambos.

Napoleão concedeu a graça implorada e Madame Lafarge voltou ao seu casarão de Glandier, que ficara deserto durante mais de doze anos.

Na prisão, alimentara ingênuas ilusões de que, ao sair de lá, seria recebida com flores em sua aldeia e que em sua homenagem o povo faria uma recepção triunfal.

Para sua decepção, nada disso aconteceu. Os habitantes de Glandier receberam-na muito mal, e quando ela passeava pela aldeia, ouvia o povo murmurar, à sua passagem, as palavras: “Ladra! Envenenadora!”

Madame Lafarge não gozou longamente de sua liberdade e faleceu algum tempo depois de sua saída da prisão. No seu leito de morte, reuniu os amigos fieis e, diante do sacerdote, fez essa declaração suprema: “”Vou comparecer perante Deus para ser julgada. Diante dele, protestarei a minha inocência!”

Faleceu em 1853 e, durante vários anos, Lachaud nunca deixou de cuidar do seu túmulo, com um piedoso respeito e nele sempre mandava depositar flores.

O célebre criminalista sempre julgou Madame Lafarge inocente, antes, como depois de sua condenação. Sua convicção sobre isso era inabalável. Considerava-a uma vítima da tirania diabólica da sogra. Para ele, ela fora esmagada por uma fatalidade, mais cruel do que todas as sombrias fatalidades que pudessem existir. Dizia que essa mulher era dona de um coração prodigioso, que o compreendeu, num momento em que ele ainda estava se encontrando. E que depois da condenação, ela chegou a lhe dizer: “Meu amigo, sinto-me bem feliz, por minha desgraça ter favorecido o seu destino!”

Em 1844, depois de inúmeros triunfos, Lachaud se mudou para Paris, e ainda que chegasse precedido de sólida reputação, os seus começos foram penosos, entre o numeroso corpo de advogados que ali atuavam.

Pouco tempo depois, casou-se com a filha do acadêmico Ancelot, que acabava de se arruinar numa desastrosa exploração do teatro de vaudeville. Lachaud reuniu todos os credores de seu sogro, responsabilizou-se por todas as dívidas deste e saldou-as integralmente. Esse foi um dos muitos gestos que marcaram a generosidade delicada e inesgotável de Lachaud.

O grande criminalista não tardou a conquistar, entre os advogados de Paris, o lugar que lhe cabia. Advogou, principalmente, perante o Tribunal do júri. Era para lá que tendiam a sua natureza e o seu talento.

Lachaud morreu em 9 de dezembro de 1882. Ao sentir que estava no fim, pediu para ser transportado para o seu escritório, à rua Bonaparte, onde tantas misérias tinham vindo procurar consolo, e onde tantas confidências dolorosas lhe haviam sido feitas.

Morreu com os olhos fitos num quadro, representando uma mulher jovem, de uma beleza grave e melancólica, de longos cabelos anelados e grandes olhos negros. Era o retrato daquela, a quem ele devotara um culto apaixonado, cuja defesa fora a ideia fixa de sua vida. Era o retrato de Madame Lafarge (ou Marie Capelle), protagonista do crime que o tornou famoso.

6 pensou em “LACHAUD

  1. Cara Violante, muito bonita esta história do advogado Lachaud com sua cliente, Madame Lagarfe. Mostra bem o que era a França do século XIX, a maior potência do mundo, junto com a Inglaterra vitoriana

    Porém mais apaixonada é a história do Francenildo e sua jumenta sem nome descrita logo acima. Proibido pelo preconceito de exercer o seu amor. As histórias do sertão do NE tem mais emoção.

    Um abraço

    • Obrigada pelo comentário, João Francisco!

      Realmente, você está certíssimo. A história apaixonada do Francenildo e sua jumenta sem nome, “proibido pelo preconceito de exercer o seu amor”, não tem termos de comparação com a que eu contei.
      “As histórias do sertão do NE, como você disse, tem mais emoção.”

      Gosto não se discute1..

  2. Violante,

    Parabéns pela crônica escrita de forma meticulososa sobre um amor platônico. Se procurarmos em qualquer lugar o que é amor platônico, a resposta vai ser algo como “um amor não correspondido.” E, de modo geral, é isso mesmo, mas não só. Uma definição mais detalhada diz que o amor platônico é qualquer tipo de relação afetuosa ou idealizada em que se abstrai o elemento sexual por vários gêneros diferentes. Ou seja, trata-se de um caso de amizade pura. Contudo, também pode ser definido como um amor impossível, difícil ou que não é correspondido. O amor platônico pode ser entendido como um amor à distância, que não se aproxima. Dessa forma, esse amor não toca, não se envolve e é feito de fantasias e idealizações. Esse foi o amor que Lachaud desenvolveu por Madame Lafarge (ou Marie Capelle)… Toda forma de amar é válida. O que invalida uma existência é a ausência do amor!

    Desejo um final de semana com paz, saúde e alegria

    Aristeu

    • Obrigada pelo belíssimo comentário, prezado Aristeu Bezerra!

      O amor platônico entre Lachaud e sua constituinte, Madame Lafarge (solteira, Marie Capelle), o acompanhou por toda a sua vida,. como demonstra o quadro com o retrato dela, que ele mantinha na parede do seu escritório, e que atraiu o seu olhar, até o último suspiro.

      Para o filósofo grego Platão, o amor era algo essencialmente puro e desprovido de paixões, pois estas são cegas, carnais, passageiras e falsas.. O amor platônico, não se fundamenta em desejo sexual, mas apenas em virtudes.

      Um abraço e um excelente fim de semana!

      Violante

  3. Marie-Fortunée Lafarge… Belíssima crônica… Em cada parágrafo nota-se a maestria de Violante conduzindo a história.

    O julgamento de Madame Lafarge, acusada de ter envenenado o marido, Charles, teve início a 2 de Setembro de 1840 perante o. Tribunal Criminal da Corrèze

  4. Obrigada pelo gratificante comentário, prezado Sancho!

    A história de vida de Lachaud é impressionante. Como criminalista, ele jamais atuou como assistente de acusação. Ele se dizia a própria DEFESA e não escolhia clientes. .

    Um abraço!

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