MAGNOVALDO BEZERRA - EXCRESCÊNCIAS

Tem jeito não. Quando vossuncê aprende um idioma depois que os anos fizeram algum estrago no seu aparelho falante, seu sotaque vai sempre trair sua origem.

Após 25 anos morando aqui, quando cumprimento alguém, basta eu dizer “good morning” para que meu interlocutor, se curioso, me pergunte de onde sou.

Isso já não acontece com minhas duas netas americanas, Isabella e Gabriella, que falam inglês como os da terra, educadas que foram já na língua dos bifes.

Quando me mudei em 2013, por razões profissionais, para as redondezas de Chicago, minha esposa cuidou de buscar uma casa na região. A minha nova empresa cuidou de localizar e pagar uma corretora de imóveis profissional para orientá-la na escolha, já que nada conhecíamos daqueles recantos. No primeiro dia de buscas, pelas 9 horas da manhã, a corretora foi indagada se havia ursos na região (urso, em inglês, é “bear”, que se pronuncia “béar”). Só que saiu “bíer”, que significa “beer”, cerveja. A corretora, imaginando que minha mulher era, digamos assim, uma fã seguidora do atual primeiro mandatário da nação caeté, e que já queria tomar umas lapadas de cerveja logo de manhã, afirmou que sim, mas disse que era um pouco difícil achar bares ou restaurantes abertos naquela hora. A má impressão foi desfeita em seguida.

Já quando se fala de orientais, a coisa fica ainda mais complicada, mas às vezes o linguajar utilizado já nos permite saber algo.

Explico.

Se vosmecê estiver em dúvida se o cabra à sua frente, de olhos puxadinhos, é japonês ou chinês, peça para ele falar “laranja”. O chinês vai falar “lalanja” e o japonês “raranja”. Essa regra não falha nunca.

Meu ex-colega de General Motors em São José dos Campos, Yoshida M., era o Supervisor do Laboratório Metalúrgico, e tinha como seu braço direito um jovem e simpático engenheiro chamado Cleber F. Acontece que Yoshida, nem por obras de pesada mandinga da catimbozeira Severina-Tranca-Rua ou ameaça de Dom Quixote de La Mancha, conseguia pronunciar seu nome corretamente. Apesar de dobrar, virar e afunilar a língua no sentido longitudinal e transversal, só conseguia chamar o Cleber de “Kureba”. Cleber, como todo bom e sacudido carioca, adotou dito nome com bom humor e receptividade, passando a ser conhecido na empresa como “Kureba”, e divertindo-se com isso.

Acontece que um belo dia, em um ano da década de 70, perdido no nevoeiro do tempo, um de nossos colegas, Marcelo I., precisava com urgência de uma informação que Cleber possuia. Ficou sabendo que ele estava em reunião com Yoshida em sua sala, e para lá telefonou. Atendeu o próprio Yoshida, interrompendo a reunião:

– “Arô, Yoshida farando”

– Yoshida, preciso falar com o Kureba, é urgente.

E então Yoshida descascou-lhe a linguagem e a atitude. Ponderou energicamente que não deveria chamar o Cleber pelo apelido, já que ele era um profissional de alto nível, responsável, importantíssimo para a Companhia, e o chamamento usando um apelido era uma ofensa a um engenheiro tão principal. Portanto, que Marcelo se retratasse e usasse um linguajar profissional sério e apropriado, conforme as normas de respeito e cortesia, quando a ele se dirigisse.

Marcelo desculpou-se.

– Yoshida, peço-lhe que aceite minhas desculpas. Por favor, gostaria de falar com o engenheiro Cleber, se me permite.

E Yoshida, oferecendo o escutante aparelho telefônico para o Cleber, proclamou em alto e bom som:

– “Kureba, terefone”!

Bem, pelo menos ele tentou. Mas Cleber continuou sendo Kureba.

6 pensou em “KUREBA

  1. Essa foi arretada!!! Excelente texto, Magnovardo!!!
    Um abraço cá de Banânia, vulgo Buradjiro (Brasil, com o devido sotaque nipônico)!!!

    • Purezado Maurino, prezado Manoel: “muito burigado pero erogio de vocês”. Isso é o que me faz sentir parte dessa comunidade tão sacudida como os fubânicos. Tenham um excelente dia, com muita saúde, paz e alegria. Abração, Maguinovardo.

    • Purezado Maurino, purezado Manoel: “muito burigado pero erogio de vocês”. Isso é o que me faz sentir parte dessa comunidade tão sacudida como os fubânicos. Tenham um excelente dia, com muita saúde, paz e alegria. Abração, Maguinovardo.

  2. Magnovaldo é porreta!
    Escritor de mão cheia percebeu que, naquele tempo não dava pra fechar as contas escrevendo; daí estudou engenharia, formou-se, deu show no trabalho como engenheiro e depois de cumprido o tempo como engenheiro, resolve fazer sua verdadeira vocação.
    Semanalmente somos agraciados com seus textos sempre parecendo cuscuz com carne de sol na manteiga de garrafa e inhame. São muito gostosos de ler!
    Parabéns e obrigado, Magnovaldo!

    PS: sobre bear e beer, tem muita gente que não pode tomar uma beer que vira bear; outros, se encostam na beer, viram deer.

    • Grande Nonato: só mesmo a bondade de sua alma para dedicar-me tão elogiosos comentários. Na verdade, além de engenheiro eu queria mesmo era ser um maestro, mas nunca tive oportunidades nem condições e, claro, não tenho talento para tanto. Hoje aproveito minha aposentadoria para dedicar-me a monitorar as unhas dos dedões dos pés crescerem. Dá um trabalho danado para quem resolveu ser vagabundo pelo menos uma vez na vidma. Bom final de semana, com muita saúde, paz e alegria. Abração.

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