ARISTEU BEZERRA - CULTURA POPULAR

A poesia de João Cabral de Melo Neto (1920-1999) fala diretamente à razão, sua grande emoção consiste em conter o excesso de lirismo e resistir a ênfase, construindo textos enxutos, secos e objetivos. Em seus escritos, entre a palavra concreta e a abstrata, faz uma escolha definitiva pela concreta. Procura tirar da poesia todos os resíduos sentimentais, sobrando apenas a “nua intuição das formas” – faz poemas geométricos, ligados ao cubismo numa linguagem rigorosa e árida.

Recusava o verso livre e a forma irregular dos modernistas, preferindo trabalhar com métricas variadas, estrofes tradiciionais e rimas toantes. Ele afirmou: “Para mim, esse negócio de inspiração não funciona. Sou incapaz de em uma sentada produzir um poema definitivo. Morte e Vida Severina, por exemplo, foi reescrito várias vezes. No mais, tenho o vício da leitura, que me coloca sempre como um severo autocrítico de minha obra”.

João Cabral costumava ficar irritado quando era tratado por poeta: “A coisa que me dá mais raiva é alguém me chamar de poeta. Chegam ao cúmulo de me escrever cartas endereçadas ‘ao poeta João Cabral de Melo Neto’. Tenhho vontade de devolver tudo com um bilhete: ‘não é aqui’. Ninguém escreve ‘ao engraxate fulano de tal’ ou ‘ao romancista Jorge Amado’.

A exemplo do que já havia acontecido com dois outros grandes autores da literatura universal no século XX, o irlandês James Joyce (1882-1941) e o argentino Jorge Luís Borges (1899 – 1986), João Cabral ficou cego para leitura. No seu caso, isso ocorreu por volta de 1992, aos 72 anos, ocasião em que praticamente encerrou sua carreira literária.

Um poema se faz vendo,
Um poema se faz para a vista,
Como fazer um poema ditado
Sem vê-lo na folha escrita?

Perguntava nos raros versos datados de 1995, ainda inconformado com a cegueira. Apesar dessa grave limitação, o poeta não abandonou completamente os livros: até o fim da vida, costumava pedir à filha que lesse para ele.

7 pensou em “JOÃO CABRAL DE MELO NETO, POETA QUE DESMISTIFICA A POESIA COMO FRUTO DA INSPIRAÇÃO

  1. João Cabral de Melo Neto foi poeta, escritor e diplomata brasileiro. Conhecido como “poeta engenheiro”, ele fez parte da terceira geração modernista no Brasil, conhecida como Geração de 45.Nesse momento, os escritores estavam mais preocupados com a palavra e a forma, sem deixar de lado a sensibilidade poética. De maneira racional e equilibrada, João Cabral se destacou por seu rigor estético.
    “Morte e Vida Severina” foi, sem dúvida, a obra que o consagrou. Além disso, seus livros foram traduzidos para diversas línguas (alemão, espanhol, inglês, italiano, francês e holandês) e sua obra é conhecida em diversos países.

    • Vitorino,

      Grato pelos comentários com observações que ajudam a compreender a poética de João Cabral de Melo Neto.
      Morte e Vida Severina, obra mais popular de João Cabral, é um auto de Natal do folclore pernambucano. Nesse trecho, que compartilho com o prezado amigo, o retirante explica quem é e a que vai:

      MORTE E VIDA SEVERINA

      — O meu nome é Severino,
      não tenho outro de pia.
      Como há muitos Severinos,
      que é santo de romaria,
      deram então de me chamar
      Severino de Maria;
      Como há muitos Severinos
      com mães chamadas Maria,
      fiquei sendo o da Maria
      do finado Zacarias. (…)
      E se somos Severinos
      iguais em tudo na vida,
      morremos de morte igual,
      mesma morte Severina:
      que é a morte de que se morre
      de velhice antes dos trinta,
      de emboscada antes dos vinte,
      de fome um pouco por dia.

      Saudações fraternas,

      Aristeu

  2. João Cabral era rigoroso com seus poemas, apresentando uma estrutura mais fixa e com versos rimados. Seu estilo não é marcado pelo sentimentalismo, é mais objetivo, racional.
    Não tinha romantismo em seus escritos, o poeta buscava descrever as percepções do real, colocando de forma concreta as sensações. Além disso, o autor buscava as oposições na sua poesia.
    Nascido em Recife, Pernambuco, o contato com a literatura de cordel marcou os primeiros contatos de Cabral com as letras. Ainda menino, o escritor lia as histórias para os funcionários do engenho do seu pai. Já no Rio de Janeiro, frequentou encontros literários e conheceu importantes autores nacionais. Lembrado pelo talento para escrever, o autor também foi diplomata, tendo morado em vários países.

  3. Messias,

    Muito obrigado pelo primoroso comentário que acrescenta informações importantes sobre João Cabral de Melo Neto. Irei pormenorizar a leitura de cordel, citada na sua reflexão, como influência na formação do escritor João Cabral de Melo Neto. Ele nasceu em Recife, Pernambuco, mas passou muito tempo em engenhos de açúcar, já que seu pai era um senhor de engenho. Quando tinha apenas oito anos, João adorava os cordéis e costumava ler vários para os empregados do engenho. É dessa época que vem a preocupação com o povo nordestino, o menino via as diferenças da vida dos mais ricos, senhores de engenho, e dos mais pobres.

    Deve-se observar que, cronologicamente, João Cabral situa-se entre os poetas da Geração de 45, entretanto, trilhou caminhos próprios. Seus primeiros livros apresentam uma poesia hermética, ou seja, de difícil compreensão.

    Em Pedra do Sono (1942), sua obra inaugural, apresenta uma inclinação para a objetividade embora predomine aspectos surrealistas. Compartilho um poema dessa importante obra de João Cabral de Melo Neto com o prezado amigo:

    Tecendo a Manhã

    Um galo sozinho não tece uma manhã:
    ele precisará sempre de outros galos.
    De um que apanhe esse grito que ele
    e o lance a outro; de um outro galo
    que apanhe o grito de um galo antes
    e o lance a outro; e de outros galos
    que com muitos outros galos se cruzem
    os fios de sol de seus gritos de galo,
    para que a manhã, desde uma teia tênue,
    se vá tecendo, entre todos os galos.

    E se encorpando em tela, entre todos,
    se erguendo tenda, onde entrem todos,
    se entretendendo para todos, no toldo
    (a manhã) que plana livre de armação.
    A manhã, toldo de um tecido tão aéreo
    que, tecido, se eleva por si: luz balão.

    (no livro “A Educação pela Pedra”)

    Saudações fraternas,

    Aristeu

  4. Parabéns pelo excelente texto, prezado Aristeu Bezerra!

    O poeta João Cabral de Melo Neto, nascido em Recife -PE (1920-1999), em sua mais famosa obra, “Morte e Vida Severina” (1954-1955), aborda a seca nordestina, que causa fome , miséria e morte.
    E dá voz aos retirantes, que fazem o duro percurso entre o rio Capibaribe e Recife.

    O poema do mesmo nome deu título ao livro, que depois se transformou em filme.

    O compositor Chico Buarque de Holanda, no início da sua carreira, musicou trechos do referido poema, compondo o “Tema para Morte e Vida Severina”, trilha sonora do filme do mesmo nome..

    Compartilho com você:

    Tema para MORTE E VIDA SEVERINA

    Esta cova em que estás com palmos medida
    É a conta menor que tiraste em vida

    É de bom tamanho nem largo nem fundo
    É a parte que te cabe deste latifúndio

    Não é cova grande é cova medida
    É a terra que querias ver dividida

    É uma cova grande pra teu pouco defunto
    Mas estarás mais ancho que estavas no mundo

    É uma cova grande pra teu defunto parco
    Porém mais que no mundo te sentirás largo

    É uma cova grande pra tua carne pouca
    Mas a terra dada nao se abre a boca

    É a conta menor que tiraste em vida

    É a parte que te cabe deste latifúndio
    É a terra que querias ver dividida

    Estarás mais ancho que estavas no mundo
    Mas a terra dada nao se abre a boca

    Uma ótima semana, com muita saúde e Paz!

  5. Violante,

    Agradeço ao seu excelente comentário sobre o poeta e diplomata João Cabral de Melo Neto (1920 – 1999), em sua mais famosa obra, “Morte e Vida Severina” (1954-1955), poema dramático que o consagrou. Morte e Vida Severina retrata a trajetória de Severino, que deixa o sertão nordestino em direção ao litoral em busca de melhores condições de vida. Severino encontra no caminho outros nordestinos que, como ele, passam pelas privações impostas ao sertão.
    A aridez da terra e as injustiças contra o povo são percebidas em medidas nada sutis do autor. Assim, ele retrata o enterro de um homem assassinado a mando de latifundiários.
    Assiste a muitas mortes e, de tanto vagar, termina por descobrir que é justamente ela, a morte, a maior empregadora do sertão. É a ela que devem os empregos, do médico ao coveiro, da rezadeira ao farmacêutico.

    Nota, ao vagar pela Zona da Mata, onde há muito verde, que a morte a ninguém poupa. Retrata, contudo, que a persistência da vida é a única a maneira de vencer a morte.
    No poema, Severino pensa em suicídio jogando-se do Rio Capibaribe, mas é contido pelo carpinteiro José, que fala do nascimento do filho.
    A renovação da vida é uma indicação clara ao nascimento de Jesus, também filho de um carpinteiro e alvo das expectativas para remissão dos pecados.

    Morte e Vida Severina é um poema de construção dramática com exaltação à tradição pastoril. Ele foi adaptado para o teatro, a televisão, o cinema e transformado em desenho animado.
    Por meio da obra, João Cabral de Melo Neto, que também era diplomata, foi consagrado como autor nacional e internacional.
    Como diplomata, o autor trabalhou em Barcelona, Madri e Sevilha, cidades espanholas que permitiram clara influência sobre sua obra.
    João Cabral de Melo Neto foi seduzido pelo realismo espanhol e confessou ter, daquela terra, o reforço ao seu anti idealismo, antiespiritualismo e materialismo.
    Os instrumentos lhe permitiram escrever com mais clareza sobre o nordeste brasileiro em Morte e Vida Severina e outros poemas.
    A obra é, acima de tudo, uma ode ao pessimismo, aos dramas humanos e à indiscutível capacidade de adaptação dos retirante
    O poema choca pelo realismo demonstrado na universalidade da condição miserável do retirante, desbancando a identidade pessoal.

    Você enriqueceu com seu conhecimento literário análise a obra desse poeta pernambucano – “Morte e Vida Severina – o meu artigo e, também, teve a delicadeza de compartilhar trechos musicados por Chico Buarque de Holanda. Sou (e)ternamente grato por sua generosidade.

    Desejo uma semana plena de paz, saúde e alegria

    Aristeu

  6. Mais uma vez, parabéns, prezado Aristeu, pela genial análise literária, do grande poeta João Cabral de Melo Neto, e sua magnífica obra “Morte e Vida Severina”!

    Tudo de Bom!

    Uma semana plena de paz, saúde e alegria para você também!

Deixe uma resposta