MAGNOVALDO SANTOS - EXCRESCÊNCIAS

Pouco tempo após graduado na faculdade e na vida de casado, fui trabalhar em Vitória, capital do Espírito Santo.

Prontamente se ofereceu para trabalhar em casa uma moça chamada Jaguaciara, e sua ajuda foi extremamente benvinda, uma vez que houve por aqueles dias do ano de 1969, conforme sentença do Supremo Tribunal Federal, o nascimento de minha primeira filha Cristina. Nós a chamávamos de Jaciara para economizar saliva e língua, além de contentá-la, pois não gostava de seu nome original, o que era bastante compreensível.

Moça trabalhadeira, boa estampa, de família simples e bastante religiosa, agradava a todos com sua simpatia e seu sorriso aberto e franco.

Entre os francamente agradados logo se destacou Francisco, um marceneiro que estava trabalhando em uma construção próxima. Francisco era um jovem com um físico marcante, saradão, um arretado macho capaz de arrancar profundos suspiros do Barroso, e que passou a observar Jaciara com demorados, luxentos e langorosos olhares de Romeu, comportamento esse que logo foi notado pela nossa querida Julieta.

Papo vai, papo vem, em pouco tempo a simpatia mútua converteu-se em namoro, bem à moda antiga: caminhadas pela praia no final da tarde com mãozinhas dadas, conversas sem proveito no portão, quem sabe um cafungo nas orelhas, mas nada de comer a merenda antes do recreio.

Em dois meses Jaciara foi pedida em casamento, logo marcado para daí a duas semanas. Surpresa! Teria havido algum escorregão que houvesse resultado em intercâmbio de material genético?

Não, tudo indicava que era mesmo amor à primeira vista, sério, e além de tudo Francisco era um homem extremamente educado e respeitador e Jaciara uma moça direita, de elevada extração religiosa.

Casamento marcado e acontecido em uma cerimônia extremamente simples. Fomos escolhidos para padrinhos. Nosso presente de casamento foi um fogão e uma ajuda financeira, além de uma folga de uma semana para a lua de mel. E lá se foi o casal de pombinhos para Guarapari, onde os primeiros doces embates amorosos deveriam acontecer – ao menos era essa a visão e expectativa do Francisco.

Acontece que logo no segundo dia após o casamento Jaciara retornou inesperadamente à nossa casa. E com um beiço mais beiçoso que o do Gilmar Mendes. Minha mulher quis saber o que havia acontecido:

– Jaciara, que se passou com vocês?

– Humpgrumpfrchlkfjamm!

– Que?

– Burghfrzmernhapou!

Bem, para encurtar a estória, finalmente Jaciara desabafou:

– Pois é, enquanto a gente estava namorando, o Francisco era um rapaz muito respeitador, mas foi só a gente se casar e ele passou a ter um comportamento bem estranho e tudo mudou, até o seu jeito de falar ficou diferente e começou a me aperrear logo que ficamos sozinhos, dizendo umas coisas desavergonhadas, e daí passou a bulir comigo, perdeu totalmente o respeito no dia seguinte, quando começou a espolegar meus peitos com aquela mão cheia de dedos e tirar minha saia e aí eu não sei bem o que queria, mas comecei a desconfiar que era para fazer umas coisas indecentes que aprendi com o padre que era pecado mortal e que se eu fizesse ia direto pro inferno e hoje cedo, quando falei que era uma moça de família ele começou a tirar a roupa e foi se esfregando com suas vergonhas em mim e perdeu toda a educação e compostura e aí não deu, achei que aquilo já era demais, havia passado dos limites, onde já se viu tamanho atrevimento e essa descompostura maior do mundo? Dei uns tapas e um empurrão nele, larguei tudo e vim embora correndo e hoje não quero mais saber desse negócio de casamento, se casamento é assim eu não quero mais ficar casada, prefiro viver sem pecado e merecer a vida eterna com meu senhor Jesus Cristo, e depois também eu não sei o que minha mãe e meu pai iriam ficar pensando de mim, cruz credo!

Ficamos sabendo que Jaciara pensava que esposas eram só para fazer café, almoço e janta para o marido, além de cuidar das roupas dele e da casa, não tendo, portanto, nenhuma ideia de como era o processo de fabricação de bebês.

[Observação importante pra vossuncê, se tem menos de trinta anos: até o final do século XX existiam no mercado apenas duas marcas de bebês: meninos, com pintura azul, e meninas, com pintura cor-de-rosa. Após o término do período de garantia dos bebês quatro modelos dessas marcas estavam disponíveis: o macho (o modelo “Homem”), a fêmea (o modelo “Mulher”) e, para os mais sacudidos que gostavam de dirigir na contramão, dois outros modelos opcionais que vinham com defeitos de fabricação: “Baitola” e “Sapatão”. Já no século XXI esta variedade de modelos defeituosos foi amplamente diversificada, sendo atualmente oferecidos em qualquer cor que conste do catálogo de cores do arco-íris.]

O divórcio ainda não havia sido instituído no Brasil em 1969, mas o casamento da Jaciara foi declarado nulo, tanto o civil como o religioso.

Não consegui compreender até os dias de hoje as razões pelas quais a nossa querida Jaciara teve seu casamento anulado.

2 pensou em “JAGUACIARA, A QUE FOI SEM TER SIDO

  1. Coitada da Jaciara, coitado do Francisco. Eu já ouvi falar de casos de arrependimento pela desproporcionalidades das “vergonhas” do cabra. Lembro de uma ocasião, era criança, uma amiga de minha mãe batendo todos os cantos da cidades, todas as praças escuras onde os namorados aproveitavam pra amolengar tetas e tetos e na frente da nossa casa tinha uma praça que o pessoal designava, carinhosamente, de “a praça do pecado”. Não era mais porque dona Aretuza vigiava os excessos. A praça unia a frente da casa dela e os fundos da casa de Dr Luiz. Bem, chegando nessa praça e olhando os casais, não encontrando sua filha, essa senhora com ar de desespero veio conversar com mamãe. A gente acabara de chegar da igreja. E o diálogo foi mais ou menos assim:

    – O que houve Dona Fulana
    – Dona Martha, já rodei a cidade toda atrás de Socorro e não acho. Tô desconfiada que ela está por aí amolegada com um namorado
    – Mas, dona Fulana, tenha calma. Ela pode estar na casa de alguma amiga, pode estar no cinema, etc.
    – Tá nada. Aquilo não tem jeito. Deve estar com um namorado por aí. Aquela peste não sabe que homem tem uma danada de uma rola?

    Bom, minha mãe me mandou entrar em casa e eu fiquei pensando, muito depois, como danado a dona fulana chegou a casar e a ter filhos. Socorro era um socorro providencial mesmo.

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