CORRESPONDÊNCIA RECEBIDA

QUEIXAS DE UM DEFUNTO

Quando se fala em ruas esburacadas, — e neste quesito, aliás, Vicente Pires, DF, apresenta semblante inigualável — logo se faz presente a figura do singular escritor Lima Barreto. No transcorrer da sua vida literária Lima relata haver recebido uma carta de um defunto, a bem dizer de um ex-defunto, por meio da qual registrava seu desapontamento com o prefeito por haver este negligenciado com os seus deveres municipais ao deixar as ruas confeitadas de buracos.

Quando do falecimento de um certo habitante da localidade “Boca do Mato”, Méier, RJ, o corpo fora colocado num caixão e, sequentemente, transportado num coche em direção ao cemitério de Inhuma. Durante o trajeto o defunto sofrera o diabo quando a carruagem transitava pela rua José Bonifácio, muitíssimo bem ornada de crateras de todas as profundidades e larguras. De uma feita, ao ensejo de um invulgar solavanco o defunto saltou do esquife vivinho da silva; ressuscitou com o susto.

Muito ressentido, conclui o signatário da carta dizendo ao escritor Lima que por causa dos descasos municipais “nem defunto consegue ter vida eterna”.

Fica o alerta aos que forem instados a transportar caixas mortuárias pelas vias do Vicente Pires; estas ainda não engoliram caminhão, apenas camionete e seus dois ocupantes. Afinal, gulodice à farta é coisa para os de alta patente: a Vale.

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