CORRESPONDÊNCIA RECEBIDA

AS TRÊS MARIAS E O MISTÉRIO DO MILAGRE

Lourenço casou-se com Maria Quitéria, tiveram seis filhos. Com o falecimento de Maria Quitéria, decidiu que não se casaria novamente. Temia o mesmo que sucedera ao pai: enviuvou duas vezes; o mal da viuvez existe, mas não pega por contágio. Porém, argumentos, recorrentes, de familiares e amigos, fizeram-no mudar de ideia. Ele concordou em casar-se desde que com outra maria. Para Lourenço, toda maria tinha pureza, recato e fé. Então, cassou-se com Maria Linoca, com quem teve cinco filhos. Tendo enviuvado pela segunda vez decidiu, de modo peremptório, que não se casaria nunca mais. Porém, outra avalanche argumentativa lhe veio ao lombo, desta feita com grande poder de convencimento, aos moldes de uma surra de pinhão roxo. Alegavam os convincentes que ele, o viúvo, exprimia prestimosa meia-sola. Ademais, diziam: “quem não casa não engoma os nervos”, “é melhor serem dois do que um”, “você é viúvo, mas não é eunuco”, e por aí além. Lourenço, então, acedeu, casou-se com Maria Teresa, com quem teve quatro filhos.

Tempos decorridos, Lourenço subiu para os desígnios de Deus deixando Maria Teresa em precioso estado de conservação, porém, desprovida de fervor para contrair novas núpcias. Certa feita, por recomendação médica, Maria Teresa passou a tomar um antianêmico denominado Biotônico Fontoura, que continha uma dosagem etílica na sua formulação. Essa dosagem, ao longo de anos, fez com que Maria Teresa se tornasse doidamente apaixonada por Biotônico, a bem dizer, uma viciada. Evidentemente, de conduta socialmente desejável, Maria Teresa não andava em bebedices, mas não se fazia de rogada se alguém lhe franqueasse um beberete, digamos, um cálice de vinho, de licor, enfim.

Sucede que o Ministério da Saúde determinou que os tônicos não mais contivessem substância etílicas nas suas composições. A proibição ministerial levou Maria Teresa a engendrar a ideia de misturar cachaça ao Biotônico, isso, às escondidas dos familiares.

Com o falecimento de Maria Teresa — que se notabilizara por ter sido a idosa mais longeva da região —, quis a municipalidade saber, não exatamente a causa da sua morte, mas que extraordinária razão a fizera ter vida tão duradoura: um centenário e dois lustros. Isso espantou até Matusalém.

Depois de muita investigação, com o apoio de médicos da Secretaria de Saúde, não se descobriu o que motivou os cento e dez anos da vovó Teca, porém, enterradas nos seus aposentos, foram encontradas dezenas de garrafas de cachaça, vazias, é claro. Milagre, houve, não se sabe quem o obrou. Os devotos da cachaça asseguraram que as aguardentes, a exemplo dos vinhos, dão longevidade humana. Os que desaprovam a ingestão de bebidas alcoólicas, declararam, sob juramento, que a longevidade da vovó Teca tem tudo a ver com o uso do formidável Biotônico Fontoura, “o fortificante ideal”, lançado em 1910 pelo farmacêutico Cândido Fontoura.

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