A MANIPULAÇÃO DA ESPERANÇA
Há paisagens tão fidedignas que o ser humano é capaz de jurar estar diante de uma verdade irrefutável. É o caso das miragens, que fazem surgir, sobre o asfalto ou na areia do deserto, a aparência de poças d’água. Não são propriamente os olhos que transformam o falso em verdadeiro; é o cérebro que, ao interpretar as imagens, confere aparência de realidade àquilo que é ilusório.
Sob um sol impiedoso, o viajante que cruza o deserto não tarda a avistar, ao longe, uma lâmina de água cintilando sobre a areia. Acreditando tratar-se de um oásis circundado por árvores acolhedoras, apressa o passo. Mas, quanto mais caminha, mais o oásis recua.
Porém, não são apenas as miragens do asfalto e da areia que projetam imagens ilusórias. Certas instituições costumam prometer aos mais necessitados benefícios diversos — dentre esses, o paraíso. Apresentados em embalagens que levam as cores da sedução, esses benefícios têm o poder de manter milhares de pessoas presas ao cabresto da ilusão por longos anos.
E quando as promessas não se cumprem, como tantas vezes acontece, surgem os pedidos de desculpas. A eles se juntam novas exortações à paciência, devidamente revestidas pelo verniz da máxima segundo a qual “A paciência é amarga, mas seus frutos são doces”.
Essa estratégia tem dupla serventia: reafirma que o oásis está quase ao alcance das mãos e neutraliza eventuais desconfianças de que os destinatários possam estar sendo vítimas de um engodo. Afinal, nada melhor do que uma promessa revigorada para que não haja a desgarra da escravidão consentida. Somente com esse método engenhoso é possível manter a manipulação da esperança.