CORRESPONDÊNCIA RECEBIDA

Para driblar o fastidioso cardápio covidiano – que impõe aos idosos, encarcerados, preocupações medonhas e insônias duradouras – deliberei pela prática de escapadelas, do tamanho de passeios pedestres. Aliás, os encarcerados, de cabeças algodoadas, propendentes, portanto, a todas as passividades e conformismos, dificilmente conseguem esquivar-se desse menu assombroso, redito desde o alvorecer.

Em uma dessas fugidas, eis que os meus pensamentos, fieis batedores de proa, (porém, servis aduladores), fizeram-me o desfavor, para o meu desagrado, de despertar a inveja, essa entidade inaturável, de sublinhado desapreço, há tempos recluída ao porão dos meus arquivos.

É sobre esse ente abstrato, de estranha singularidade, que expendo brevíssimas considerações.

A literatura nos diz que “a inveja é um sentimento de desgosto em face do bem alheio, acompanhado do desejo de que esse bem seja destruído”. Diz também que “invejoso é aquele que não se contenta com aquilo que possui, ou recebe, e fica revoltado com os benefícios a outrem”.

A inveja – que dispensa questionamentos dubitativos acerca da sua existência – embora célebre, evidentemente pela má fama, sua face é inteiramente desconhecida. Dizem que vive metida em esconderijos, atrás das portas. Há quem sustente que a inveja tem consanguinidade com o sapo, oculta-se debaixo da lama; sua única riqueza seria a sujeira que conserva debaixo das unhas.

Da inveja emana não somente o ácido que corrói e tortura o invejoso, mas também a munição com que este deflagra a calúnia, a maledicência, a exprobração, o reproche, enfim. Essas pechas não são enunciadas de modo bradado, vozeado, mas sussurrado, cochichado, entre dentes, por vezes no recesso dos lares, das alcovas, a ouvidos íntimos. O sucesso alheio não apenas insulta, mas, sobretudo, constitui luz que atiça o sofrimento do invejoso.

Apesar do muito que se sabe, diversas particularidades intrínsecas à inveja são inteiramente desconhecidas. Vejamos estas que se desprendem do meu imaginário: O que move a inveja? Ela é congênita ou pegadiça, isto é, transmitida por contágio? Ela está presente em todos os humanos; mais em uns, menos em outros? Quais as feições da inveja? Ela é um vírus? Tem parecença com a covid-19? Acomete os abastados ou apenas os faltos? Além do homem, acomete outros animais? A virtude também é pesar da inveja? Em que medida a inveja deslubrifica as relações familiares e de trabalho? Além dos incontáveis malefícios diretos, e efeitos colaterais, ela oferece algum benefício? Qual? Existe alguma vacina contra a inveja? É preciso preparo para lidar com o invejoso? Etc.

Mas para que a prolixidade, de pouco aplauso, não gere fastio no leitor, que pode até alegar que a minha narrativa tem o tamanho da eternidade, eis, em conclusão, a minha última costura: as caminhadas animantes são de múltiplas serventias; tanto acode a quem precisa desencontrar-se da sanha do noticiário enlutado quanto promove encontros, casuais, com certas criaturas, apenas toleráveis, a inveja, cuja conduta, pouco edificante, não serve de exemplo nem de lição.

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