JACOB FORTES – BRASÍLIA-DF

TRISTE PARTIDA

Sob os protestos da mãe, irrisória, porém cheia de valentia, por dias consecutivos visitei os fofinhos, acomodados em um berço garnisé, urdido com tanto esmero que mais parecia trabalho de crochê. Sentia prazer em contemplar aquelas figurinhas meigas, graciosas, indefesas, naquela imobilidade absoluta. Não entendiam a minha dialética, mas, pareciam gostar do tom ameigado da minha voz. Jamais os vi choramingar. Entre eles e a mãe havia uma simbiose indecifrável: ela vivia da vida deles; eles precisavam da vida dela.

No princípio eram apenas dois ovinhos, minúsculos, brancos, levemente rosados, do tamanho de um caroço de feijão, abrigados num ninho parecente a um dedal, oculto na folhagem do arbusto. Nesse ninho, imaculado, chocadeira incomparável, sucedeu-se o processo de incubação.

Certa feita, em visita de rotina, constatei, surpreso, que os ovinhos já se haviam eclodido; eis, agora, duas criaturinhas diminutas, da cor do azeviche, implumes, do tamanho de uma semente de jade. Pelo visto, a eclosão se deu sob a mais rigorosa reserva; não pude testemunhar. Com o transcorrer dos dias foram adquirindo plumagem de maior espessura, circunstância que delineava o raiar da liberdade.

Eles foram crescendo, crescendo, até que chegou a hora incontornável. Sob os incentivos da mãe, os meus calados ouvidores alçaram-se à imensidade, um de cada vez, em direção a um mundo desconhecido. Estático, apenas os olhei, com o coração confrangido! Ao desapareceram nas vastas redondezas tiraram de mim não apenas as razões dos meus cuidados, mas o regozijo dos meus olhos.! Restou uma doce melancolia. De um lado, a alegria pela merecida independência; de outro, a tristeza pela perda dos anjinhos que sabiam me escutar, embora não me compreendessem. Porém, ficou o gratificante consolo: pude conhecer uma poesia que passou em minha vida!

Um membro do campesinato Centro-Sul diria: adeus cuitelinhos. Outro regionalista diria, adeus colibris. Mas eu, no meu vernaculismo nordestino disse-lhes: adeus meus beija-flores, trapezistas do vento. Vão em paz, conforme os desígnios de Deus. Que não lhes faltem os néctares florais e os botões de rosa.

(…E o cuitelinho não gosta que o botão de rosa caia, ai, ai…).

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