CORRESPONDÊNCIA RECEBIDA

A EPIDEMIA DA MISÉRIA

Quando se fala em miséria a primeira ideia que emerge da mente do interlocutor é o da pobreza extrema, a miséria material. Miséria material, no parecer da retina, é aquela que, em estado de abatimento, transita envergando uniforme na cor da indigência, cujo figurino, pleno de graves infrações à simetria do alfaiate, exprime traje apropriado ao ofício da mendicidade. Esse uniforme, revelador das chagas sociais, denuncia a fome, o desamparo, o desabrigo, a desesperança, enfim, o retrato completo da exclusão.

Mas, presentemente, não tenciono expor à passarela a miséria material, cujas feições, degradadas, causam repugnância aos olhos. Desembainharei outra miséria, de maior letalidade, fabricante da primeira, a miséria moral. A miséria moral, de olhar furtivo e mãos tão habilidosas quanto às do carteirista, é um ente que deprime a virtude, conspira contra a reputação, contra a honra, contra a probidade. Transitando, sem-cerimônia, em todos os níveis sociais, a miséria moral principia, comumente, na lactação. Não são poucos os lares que exibem ao berço condutas malprocedidas.

De um extremo a outro do Brasil, das favelas aos palácios, a miséria moral grassa; se expande em ritmo de pandemia sob a mais singular desfaçatez. Obviamente, a miséria moral, mais antiga que matusalém, sempre primou pela astúcia de manter-se invisível aos olhos da justiça, assim como, na obscuridade, vivem os endoparasitas. Porém, com o escoar dos anos, arrebanhou dois aliados de grosso calibre: a impunidade e o acumpliciamento. Esses aliados acabaram por tonificar a miséria moral; encorajaram-na a sair da penumbra, viver flanando às ruas, quiçá com excesso de expansividade.

Contra essa pandemia, que almeja celebrizar-se como identidade nacional de uma aldeia chamada Brasil, quero, com perdão da impertinência, e se tal não causar melindres, servir ao Ministério da Educação com uma proposta. Que seja introduzida, no currículo das escolas iniciáticas, a disciplina EDUCAÇÃO CÍVICA, dotada de um robusto capítulo de apreço à honradez, modo com que dar-se-ia à virtude o valor e a importância que ela merece.

A medida não tem, evidentemente, a pretensão de erradicar essa enfermidade, mas seria, em termos profilácticos, um ganho, um resguardo à expansão desse vírus. A catequese escolar tem o condão de formar anticorpos contra os agentes infectantes dessa doença. Seria, a bem dizer, um antídoto, uma profilaxia moral. O intento é infundir, agora, nas mentes pueris, o apreço por uma conduta verdadeiramente proba; inspirar, nos petizes, uma consciência dotada de sentido moral e não apenas coonestada, como se vê Brasil afora, principalmente nas geografias públicas e políticas, apinhadas de práticas ilícitas, cometidas sob o incentivo da desonra.

Não é bastante que as ações humanas se afigurem honestas, mas, que sejam, deveras, virtuosas. Uma coisa é a conduta travestida de honestidade, hipótese em que se torna difícil distinguir o inverídico do real, a outra coisa é a conduta genuína, puro-sangue, provinda da integridade de caráter.

Enquanto as escolas enfatizam o conhecimento, o saber, a qualificação profissional, enfim, a dimensão cognitiva, vão permanecendo na insignificância, a retidão, o civismo, a ética, a cidadania, a brasilidade, os decálogos cívicos, o pavilhão nacional, o hino nacional, os postulados básicos da religião, e por aí além. A bem dizer, no atual modelo pedagógico, a dimensão intelectual, representada pelo aporte de conhecimento, tem primazia sobre os valores morais. Enquanto a dimensão cognitiva é regada por aquífero, os valores morais vegetam; exsicados, decaídos na irrelevância, tratados como bugigangas. Nessa percepção dos novos tempos, o importante mesmo é a competência, decência é coisa acessória, para contentar parvos.

O propósito da miséria moral é bem definido: colher o que não semeou desde que sorrateiramente e com os pés emplumados. Quanto maiores os agentes sanguessugas maiores os poemas de desolação. Nesses poemas radicam não apenas os abismos de desigualdades, mas as razões de pedinchar sobrevivência.

Os povos dos tempos em que não havia fartura de miséria moral, época, aliás, em que os docentes detinham prerrogativas para increpar os discentes, por certo iriam se escandalizar com certas esquisitices dos dias atuais: políticos e religiosos carregando malas cheias, e cuecas servindo de carteiras. De tanto triunfar no seu mister, a miséria moral vai arrebanhando uma legião de simpatizantes, fazendo crer que de si exala um perfume de efeitos arrebatadores, que faz o homem desistir do seu porto seguro, a virtude.

Se não houver um antídoto para repelir os desregramentos que medram (que insistem em se considerar banais) os brasileiros se tornarão acometíveis desse vírus, cuja paternidade, aliás, é tida por duvidosa. Por conjectura remonta aos tempos adâmicos, quando Adão, seduzido pela serpente, desandou a delinquir: quebrou a cama na quarta-feira.

Evidentemente, o nobríssimo leitor, perspicaz feito um lince, quando embarcou na leitura deste tema, tão trágico quanto revoltante, percebeu, de pronto, que este texto, confeitado de metáforas e acepções leves, se assemelha a um colchão de pluma, um recurso eufêmico utilizado pelo autor para colorir a tragédia que se abate sobre o Brasil, a facinorosa CORRUPÇÃO. Com instinto de magarefe, e obcecada pelas torpezas do crime, ela fecha hospitais, furta remédios dos que agonizam, tira o lanche da boca das criancinhas periféricas, encaminhando-as, mais cedo, para pedinchar nas ruas.

A mãe Pátria, santuário das esperanças e fecunda em pão para os seus filhos, mas debilitada pela ação dos parasitas, tem sobradas e desoladoras razões para pedir socorro; acudam-na contra a tirania dos saqueadores!!

Eu sou o Jacob Fortes, o menor dos brasileiros, porém inflamado de zelo pela sua mãe, a PÁTRIA BRASILEIRA; toda mãe é bendita, merecedora de todos os zelos e cuidados.

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