CORRESPONDÊNCIA RECEBIDA

AS CLARIDADES DE FORA E DE DENTRO

Já que a claridade conversa bem com a minha história, escolhi estas “palavrinhas” para lhe fazer um afago. Qualquer adulto, do campo ou do asfalto, saberá dizer o que é claridade.

Durante os meus primeiros doze anos, meus olhos foram iluminados por diversas claridades: o sol, a lua, o candeeiro, o fogão a lenha, as queimadas… Apesar de tanta luz, faltava-me aquela claridade capaz de ensinar meus olhos a decifrar o mundo. É que a luz que ilumina os olhos não é a mesma que os ensina a compreender aquilo que ela mostra.

Para suprir essa deficiência, parti em busca de uma escola, não para que derramasse mais luz sobre mim, mas para que preparasse meus olhos para a leitura de tudo o que o mundo revelava. Entrei então no ambiente escolar sob a luz alheia, isto é, emprestada; saí carregando esse mesmo clarão dentro de mim. A bem dizer, deixei de ser iluminado apenas por fora para me tornar luz própria. A claridade que antes existia apenas do lado de fora passou a existir também do lado de dentro.

Afinal, há saberes que a natureza oferece sem professores, enquanto outros precisam ser aprendidos. A criança começa a mamar; as abelhas, a fazer mel. Nenhuma delas precisou frequentar uma escola para aprender aquilo que a natureza lhes ensinou. Mas há conhecimentos que não nascem conosco e precisam de alguém que nos ajude a enxergá-los e decifrá-los. Por isso, não basta derramar luz sobre as pessoas; é preciso prepará-las para enxergar e decifrar o que a luz põe diante delas.

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