JACOB FORTES – BRASÍLIA-DF

DA ESCRAVIDÃO AO MATADOURO

Tema dos mais recorrentes na região Nordeste diz respeito à figura do jumento, a mascote nordestina. Conhecido popularmente por jegue, o jumento remonta às priscas eras. Desde os primórdios da colônia esse servo, manso e cordato, testemunhou, mudamente, as cardeais páginas nordestinas: as secas, o cangaço, as emigrações caudais, o fanatismo religioso e, evidentemente, as chagas sociais tão vivamente decalcadas ao dorso do Nordeste que jamais se dissiparam; tristemente ainda singularizam a região.

Durante séculos esse animal proletário foi decisivo no papel de fomentar o Brasil rural; ora como cargueiro da riqueza do campo, ora, (no papel de cavalo de pobre), transportando pessoas: crianças, moçoilas, rapazolas e idosos. Os nordestinos que dele se serviram durante o labor sertanejo não cansam de exaltar as virtudes, os méritos desse resignado serviçal. Porém, os nascidos no asfalto pouco conhecem acerca dessa folha de serviços relevantes, tão gabada pelos campônios que exsudaram na lavra da terra. Diferentemente dos cavalos, cujos nomes carinhosos realçam virtudes, nem sempre reais, os jumentos mais das vezes são tratados (em tom de mofa), por inumeráveis apelidos que, na sua grande maioria, lhe conferem defeitos, desqualificações.

Aliás, no dizer de Euclides da Cunha, o jumento é, dentre os equídeos, o animal mais caluniado. Porém, as desqualificações e zombarias que rosnam contra a sua figura apenas mascaram as excepcionais qualidades desse animal tardo; de mansidão evangélica. Afinal, que outro animal de doma tem mais resistência, mais temperança, mais energia, mais sobriedade, mais tenacidade e mais poder de adaptação ao meio inóspito do que o jumento? Que outro animal suportaria os rigores da seca?

Depois de séculos de trabalho cativo, realizado, mais das vezes, sob o estímulo do açoite, eis que lhe veio merecida carta de alforria. O modal rodoviário eclodiu do seu casulo e se apresentou, capaz, diligente, cheio de disposição, para assumir as tarefas relativas ao transporte de cargas e de pessoas. Concausa, o jumento libertou-se da escravidão e da detenção; fora para o ostracismo. Sem serventia, desaproveitado, descartado, negligenciado, e enxotado para fora das propriedades, o jumento, numa pachorra de lesma, passou a errar por plagas nordestinas.

Nessa errância acabou por descobrir as estradas e rodovias em cujas margens, devolutas, estanciou-se, desgraçadamente estorvando o fluxo de veículos. Prolífero por essência, sem ninguém que lhe administre um fármaco contraceptivo para lhe pôr freio à natalidade, o jumento expandiu a sua prole e, às manadas, põe-se a pastejar, justamente na linha da morte. Essa opção pelos leitos rodoviários, a única que lhe restou, lhe rendeu o libelo acusatório de ser o causador de inúmeros acidentes nas estradas nordestinas. Mas nessa verdade, irrecusável, ele não está sozinho; outros animais libertários concorrem para esses acidentes, dão azo a essas ocorrências.

Mas a carta de alforria virou pesadelo. Sua carne, conforme noticiário indistinto, começa a ser exportada para países da Ásia, que têm urgência em aprovisionar suas bocas inumeráveis. Esse triste fim de quem deu ao Brasil, e aos brasileiros, expressivo quinhão contributivo, ainda que “debaixo de vara”, faz lembrar a moeda comumente utilizada pelos humanos para quitar benefícios recebidos: a ingratidão. Ao invés da morte, o jumento carece de merecido descanso. E quando Jesus voltar, para a derradeira chamada de salvação, ele deve estar no habitat que lhe foi conferido pelo Criador. Oxalá, os órgãos responsáveis, pródigos em cantilenas e jogo de empurra, tomem o alvitre de solver esse controvertido problema asinino, inclusive para que se restabeleça a boa ordem rodoviária.

Pelo que tanto fez e pelo seu significado bíblico, ofertando o seu lombo para que o menino Jesus pudesse fugir às perseguições de Herodes, consigno ao jegue o meu preito de admiração e gratidão.

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  1. Ainda segundo Euclides, na batalha de Canudos 1 jegue valia por 1000 soldados. É que sem os burros os 5000 soldados que sitiavam os jagunços morreriam todos de fome e sede.

  2. Um dos animais mais icônicos, não só do Nordeste, mas de todo o Brasil, sem eles, não existiriam as mulas, que ajudaram a desbravar Minas Gerais, o Sul e o Centro Oeste, se hoje, são “descartados’, O PROBLEMA NÃO É DO JEGUE, e deste povinho sem coração, esquecem que, sem eles, “eles”, não existiriam. Pobre povo! Como dizia o grande Luiz Gonzaga, o Jumento é nosso irmão e como tal, deve ser salvo!

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