CORRESPONDÊNCIA RECEBIDA

“DEUS ESTÁ IMPRESSO NA NATUREZA”

O enfado de pelejar com Dostoievski desde o repontar da alvorada de um domingo aprilino, 2020, era denunciado pelos queixumes veementes de minha retina; reivindicava o justíssimo direito de desfadigar. Aprestei-me, então. Fui à janela do meu quarto e, tomado de pasmo, percebi que a manhã já era plena de maioridade, porém cheia de falta de vontade, indecisa, desinteressada, pincelada de melancolia. Neste comenos, pus-me a inspecionar o quadrilátero ajardinado. Quanta candura, quanta concórdia entre os vegetais! (Oxalá pudessem os humanos se avir como os vegetais se avêm! Mas que utopia! Que delírio essa minha ideia desajuizada!). Como de praxe, saudei as minhas cunhãs mimosas, mas nenhuma delas escutou a minha voz; o atroar dos aviões, há tempos, lhes avariou a audiência. Porém, regendo-se pelos meus lábios, me acenaram sorrindo, em reciprocidade fraternal. Fazia gosto de vê-las bem-postas, apresentáveis nos seus uniformes enverdecidos. O conjunto harmonioso remetia para a formação de uma ordem unida. Somente terras desidratadas produzem vegetais mal-amanhados.

Se a paisagem arbórea era colírio que refestelava os olhos, satisfação maior residia na particularidade de que esses anjos verdoengos, brotados de um convênio entre a terra e a água, vieram à luz pela ação facilitadora das minhas mãos. (“Poucas coisas fazem a vida de um pai mais gratificante e doce como ver os filhos bem-sucedidos”. Nelson Mandela). Até a palma-de-são José, que me viera ainda tenra do litoral canavieiro, adaptou-se, à vontade, ao barrado solo juscelinista; se exibe com galhardia. (É a minha preferida, mas isso é segredo de cadeado, somente confiado a ouvidos fidelíssimos, para não enciumar a comunidade arbórea). Seus buquês, que divinamente adereçam sua fronde, expressam o alvor da inocência. Em terra que o asfalto vai exterminando o vegetal, vai esmaecendo o riso da natureza, botar uma plantinha no solo é gesto que pode até não reparar o estrago, mas agrada ao supremo criador. Quem sabe, pode até remitir.

Enquanto os meus olhos se mantinham definitivamente enlaçados pela paisagem jardineira os meus ouvidos se confortavam com a mansidão dos últimos borrifos do aspersório de DEUS, um chuvisqueiro extemporâneo, sem ânimo para repinicar no telhado; exprimia a despedida da estação chuvosa.

E nessa faina de enfado, a retina em trabalho de campo coligindo matéria para a redação deste amanuense, eis que faltou espaço no papel da prancheta! Em respeito aos legítimos queixumes da colega de escrivania, a prudência mandou botar um ponto final nesta narrativa, ajardinada. Porém, ainda pude, na estreiteza do rodapé, economizando letras, lavrar a sentença que tudo encerra: “DEUS ESTÁ IMPRESSO NA NATUREZA”.

3 pensou em “JACOB FORTES – BRASÍLIA-DF

  1. Parabéns, Jacob Fortes, pela poética e linda crônica! Tens o estilo literário do grande Dostoiévski: “ os meus ouvidos se confortavam com a mansidão dos últimos borrifos do aspersório de DEUS, um chuvisqueiro extemporâneo, sem ânimo para repinicar no telhado; exprimia a despedida da estação chuvosa.”. “…borrifos do aspersório de DEUS”, é demais. Lembra nosso saudoso cantor, compositor e grande pensador, Belchior: “…Calça nova de riscado, paletó de linho branco, que até o mês passado lá no campo ainda era flor…”. Só os sensíveis poetas podem transformar o trivial cotidiano em verdadeira poesia, desvencilhando-se do prosaico. Em verdade, “A beleza salvará o mundo”. Parabéns, mais uma vez! Abraços do Boaventura.

    https://www.opovo.com.br/jornal/opiniao/2017/05/boaventura-joaquim-furtado-bonfim-belchior-o-grande-pensador.html

    • Estimado confrade Boaventura, sensibilizado agradeço os elogios ao meu texto garnisé.
      Que bom que você pôs em relevo a figura do filósofo cearense, Belchior. Acaso ele tenha deixado acervo literário além do oral, esse que erra de oitiva, mande-me, por favor, os títulos.
      Abraço do confrade Jacob Fortes.
      Se lhe convier, mande-me o seu endereço eletrônico: jacobfortesdecarvalho@gmail.com

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