CORRESPONDÊNCIA RECEBIDA

FARTURA DE CONFUSÃO ESCASSEIA A REPUTAÇÃO

“Gogó de Sola”, homem conservador, esquisito, enfezado por essência, cultivava o hábito de adotar costumes que remontavam aos tempos de Antônio Silvino, o inspirador de Lampião, época em que a pistola de pederneira tinha efeito mais imediato que as leis.

Além de radical, intransigente, “Gogó de Sola” tinha o vezo de se meter em confusão. Onde havia uma pendência arrumava um jeito de matricular-se nela. O que não podia mesmo era ficar sem uma boa querela com que pudesse se divertir.

Certa feita, ao alistar-se numa inflamada discussão com um vizinho, “Gogó” foi alvejado, pelo seu oponente, com uma saraivada de impropérios. Isso provocou o imediato acendimento do curto pavio de “Gogó” que, inspirado nos padrões do cangaço, requisitou de pronto os préstimos da estimada, mas anacrônica pistola de pederneira.

Porém, ao premer o gatilho, a pistola explodiu nas suas mãos. É que houve, descuidosamente, uma hiperdosagem de pólvora durante o processo de recarga da pederneira, circunstância que ocasionou a ruptura do cano, aliás, em acentuado estado de fadiga. O benigno incidente teve dupla serventia: salvou, glória a Deus, a vida do vizinho; permitiu punir quem cultuava a violência.

A Providência tem o seu jeito particular de punir, ou de premiar.

Além de malquistado com a vizinhança, o episódio fez encolher ainda mais o crédito de “Gogó”, que já era irrisório.

Afinal, fartura de confusão escasseia a reputação. Cada um se compraz com o que lhe agrada: uns optam por fazer-se temer, outros por fazer-se amar.

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