“JÁ VELHO” – UMA COMOVENTE HISTÓRIA DO CANGAÇO

O tenente João Gomes de Lira (1913-2011), policial militar, nascido na fazenda Jenipapo, Nazaré do Pico, Floresta, Pernambuco, ex volante da tropa do comandante cel. Manoel Neto que combatia Lampião pela Caatinga do Nordeste, em depoimento emocionante ao pesquisador do Cangaço, o cearense Aderbal Nogueira, conta uma história comovente vivida por ele e os ex volantes quando perseguiam os cangaceiros na aridez do Sertão em Fogo.

Homem tosco, rude, acostumado, pelas circunstâncias dos fatos, a cometer todo tipo de atrocidades contra os fazendeiros, “os coiteiros”, para “arrancar-lhes” a ferro informações sobre o paradeiro dos cangaceiros, em depoimento gravado em 1996, relembra uma história de companheirismo fraternal e amor incondicional entre o cachorro “Já Velho” e a volante do cel. Manoel Neto.

Na época do cangaço, eram muitas as fazendas abandonadas pelos fazendeiros por causa dos cangaceiros que metiam o terror na região. Nas muitas propriedades que chegavam, os volantes encontravam gados, bodes, galinhas, cavalos, cachorros, abandonados. Morrendo de fome e sede porque seus donos os haviam abandonado temendo as represálias cruéis dos cangaceiros e volantes. Era uma verdadeira guerra de guerrilha, onde os inocentes eram torturados para confessar o que não sabiam e ninguém ouvia seus lamentos! Até Deus tapava o ouvido para não lhes ouvir os gritos de socorro!

Um dia a volante do cel. Manoel Neto chegou à fazenda Arueira, abandonada, e encontrou um cachorro grande, magro, cambaleante, só na pele e no osso. Não tiveram coragem de matá-lo. Comeram carne seca e farinha na fazenda e depois seguiram viagem a pé. Quando iam bem distante perceberam que o cachorro os seguia por dentro do mato! Ficaram impressionados com a atitude do cachorro em segui-los e resolveram incorporá-lo à volante. Tornaram-se amigos inseparáveis! Homens rudes, acostumados a matar e morrer no sertão em brasa, se curvaram à ternura de um cão fiel! E puseram-lhe o nome de “Já Velho.”

Um dia, retornando à fazenda Arueira, onde tinham combatido com Lampião e seus cangaceiros, havia um porco enorme que partiu para cima do cachorro e este, para defender seus amigos fiéis, partiu para cima do porco e este lhe deu uma rasgada no bucho que o abriu, ficando o cachorro no chão, vísceras para fora, olhos arregalados sentido a presença da morte e olhando para os volantes, um a um, numa despedida emocionante. Nenhum volante quis dar o tiro de misericórdia. Ao contrário, quando “Já Velho” fechou os olhos, encantando-se, todos os volantes ficaram a chorar de tristeza pela perda do fiel amigo!

Homens toscos, rudes, brutos, acostumados com a barbárie, chorando a morte de um cachorro companheiro!

Isso é um pedacinho da História do Cangaço com todos os seus mistérios, que precisa ser explorado pelo TURISMO.

A linda História do cachorro “Já Velho”, relembrada pelo tenente João Gomes de Lira, 80 depois!

8 pensou em ““JÁ VELHO” – UMA COMOVENTE HISTÓRIA DO CANGAÇO

  1. Maravilha, Cícero. Essa semana vi um vídeo emocionante de dois cães, abandonados, que ficaram, obdientes, no mesmo local que foram deixados, esperando o dono. Tem o caso de Capitan que durante 10 anos, salvo engano, ficou no túmulo do dono enterrado num cemitério argentino. Capitan, morreu este ano, salvo outro engano!
    Tem uma piada que conta a história de Joaquim que pegou o cachorro e abandonou numa estrada. Quando chegou em casa, minutos depois chega o cachorro. Ele o leva de novo e deixa mais longe e cada vez que ele chega, o cachorro chega minutos depois. Puto da vida, ele bota o cachorro no carro, faz um monte de voltas, deixa o cachorro na estrada, faz um monte de voltas e depois de um certo tempo liga pra Maria.
    – Ô Maria, o maldito do cachorro chegou em casa?
    – Sim, chegou! E tú estás aonde?
    – Não sei. Trás esse maldito que eu me perdi!

    • Caríssimo professor Maurício Assuero:

      O depoimento do tenente João Gomes de Lira é sem dúvida de uma pureza e lirismo indescritível.

      Para um homem experiente, acostumado a todo tipo de barbárie, principalmente na caça a Lampião e os cangaceiros, é de impressionar que um cachorro venha a lhes arrancar lágrimas.

      Imagine a fidelidade, o companheirismo?

      Oitenta anos depois, “Já Velho” ainda mexer no emocional de uma homem tosco, imagine a pureza e o lirismo da amizade?

      O nobre professor tem o link dos dois cachorros abandonados pelo “homem”? Poste-me por favor!

      Feliz 2020 para o nobre professor e colunista, extensivo à família.

  2. Uma beleza, caro Cícero
    Você levou o lirismo até o cangaço ou trouxe o cangaço até o lirismo.
    Preciso que me envie seu endereço para que lhe mande o Calendário 2020 Memorial, que prometi no meio do ano
    meu e-mail: literacria@gmail.com

    abs. e bon Natal

    Brito

    • Prezadíssimo memorialista Brito:

      Mais uma vez o nobre memorialista me honra com sua observação positiva a respeito da crônica de “Já Velho.”

      Linda história, não? Dum lirismo excitante, emocionante, comovente, mesmo resultando numa tragédia.

      Isso prova que o cachorro é o maior amigo do homem. Basta lhe dar comida que ele segue fiel, leal, amigo, companheiro…

      Feliz 2020 ao nobre memorialista, extensivo a toda família e amigos.

  3. Bonito e emocionante conto, prezado cronista Cícero Tavares! Parabéns!

    Está provado que “os brutos também amam”…

    Meus votos de um Feliz Natal e um Ano Novo repleto de realizações, para você e sua família!

    • Queríssima cronista Violante Pimentel:

      O que mais me impressionou no depoimento emocionante do tenente João Gomes Lira, da Volante do cel. Manoel Neto foi o fato de ele ter uma porção de histórias para contar nas aventuras e desventuras na perseguição ao bando de Lampião por dentro do mato a pé, e o que mais o impressionou foi a história de “Já Velho”, companheiro fiel, leal, encontrado numa fazenda morrendo de fome, e só se separando da volante por uma fatalidade da vida.

      “Todos os soltados choraram a morte de “Já Velho”, certamente a nobre cronista já deve ter percebido o lirismo dessa confissão!”

      Obrigado, querida amiga do coração, pela leitura e comentário honroso.

      Feliz 2020, com muita paz, saúde, e harmonia para toda família.

    • Caríssimo colunista Carlos Ivan:

      Essa história de “Já Velho”, nos traz uma grande lição. O cachorro ama apenasmente quando a gente lhe dá comida. Não tem ganância como o homem.

      Torna-se fiel, leal. Não nos abandona nunca!

      Prova disso é quando você encontra um mendigo na rua deitado. Lá está o cachorro ao lado como fiel escudeiro!

      Obrigado amigo colunista pelo comentário!

      Desculpe a demora para agradecer!

      Feliz 2020 para o nobre colunista e família, com muita saúde e um Brasil mais justo.

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