ISTO MESMO NÃO!!!

Nunca ouvi dizer que alguém houvesse morrido, porque comeu uma tapioca. “Na prática, a teoria é outra”…

Dona Lia, minha Mãe, era, essencialmente, uma mulher “do lar”, apesar de ser Professora de Inglês, no Colégio Nossa Senhora do Carmo, em Nova-Cruz. Adorava costurar e cozinhar. Bolo “Cabano” era sua receita de bolo preferida, Também, fazia tapioca divinamente, habilidade da qual muito se orgulhava. Aliás, Dona Lia sabia cozinhar tudo muito bem. Sabia até fazer macarronada, fabricando a massa ela própria, artesanalmente, abrindo-a com um rolo de madeira e cortando-a em tiras largas, com a ajuda de uma faca de mesa. Colocava as tiras para secar, num pano de prato enxuto, estirado sobre uma mesa e polvilhado de farinha de trigo. Isso, numa época remota, quando ainda não havia, em Natal, e muito menos em Nova-Cruz, máquina de fazer macarrão.

Dizia sempre que não conhecia ninguém, que fizesse tapioca tão bem quanto ela. Tinha empregada, mas gostava de fazer, ela mesma, as tapiocas. A empregada se encarregava, somente, de raspar o coco.

Depois da goma permanecer de molho algumas horas, numa panela de barro, quando a goma “sentava”, ela escorria a água e colocava para secar, às vezes, sob o sol. Em seguida, peneirava a goma, colocava sal e esquentava bastante uma assadeira rasa. Baixava o fogo e espalhava na assadeira duas colheres de sopa cheias da goma e por cima uma colher de sopa de coco natural, que havia sido partido em duas quengas e raspado no tradicional “raspador”, que se colocava num tamborete e se prendia, sentando em cima do cabo. Sobre o coco, espalhava mais duas colheres da goma. Com a ajuda de uma faca, verificava se a parte de baixo estava toda unida, e virava a tapioca para que assasse do outro lado. O movimento era rápido, para que a tapioca não queimasse ou ficasse chamuscada. Sobre a mesa, mantinha um pano de prato limpo e seco, e em cima dele espalhava as tapiocas para esfriar. Depois, molhava cada uma delas com leite de coco puro e fresquinho, ao mesmo tempo em que encostava uma borda na outra, dobrando-as.

Numa tarde, em que Dona Lia tinha se esmerado, para fazer uma travessa de deliciosas tapiocas, no estilo tradicional, molhadas com leite de coco, eis que entra de casa a dentro uma parenta nossa, do tipo que não faz elogios a nada nem a ninguém. Como manda a boa educação, a parenta foi convidada a sentar-se à mesa e participar do nosso lanche da tarde, onde o prato único eram as tapiocas, acompanhadas de um excelente café, coado num pano, e cujo cheiro se espalhava pela casa toda.

A parenta comeu muita tapioca com café, sem fazer um só elogio. Enquanto isso, Dona Lia elogiava suas próprias tapiocas e as filhas e neta faziam eco:

– Que tapiocas maravilhosas, mamãe!!! Ô vó, que tapioca gostosa!!! Quero mais!!!

A parenta, então, empanturrou-se de tapioca, sem querer acordo com ninguém. Não deu um pio, para elogiar a habilidade de Dona Lia, por mais que ouvisse os elogios que nós lhe fazíamos.

De repente, para surpresa nossa, a mulher parou de comer e quebrou o silêncio:

– Lia, outro dia eu comi uma tapioca tão gostosa, na casa de Maria de Lourdes, uma amiga minha! Ela faz tapioca tão bem, como eu nunca vi igual!!!

Esse elogio, às tapiocas feitas por uma pessoa desconhecida de Dona Lia, soou-lhe aos ouvidos como uma grosseria, uma ofensa, uma desfeita das grandes.

O sangue de Dona Lia ferveu nas veias, ela ficou vermelha como uma pimenta e não se conteve:

– Tapioca melhor do que a minha??? Invente outra coisa!!! ISTO MESMO NÃO!!!

Dona Lia perdeu a graça, e teve de se controlar, para não dizer à parenta os desaforos que ela merecia ter ouvido.

Era uma parenta muito próxima. Quanto mais, se fosse uma “CONTRAPARENTA!!!

2 pensou em “ISTO MESMO NÃO!!!

  1. Violante,

    Uma crônica que deixa o leitor com água na boca só em pensar na delícia de degustar a tapioca de sua genitora.Dona Lia dominava a técnica de fazer tapioca, então um elogia da parente a uma conhecida por fazer tapioca soou como uma indelicadeza. Gostei demais da conta do seu excelente texto. Compartilho um poema de Dalinha Catunda sobre essa delícia culinária com a prezada amiga:

    A TAPIOCA

    É uma herança indígena,
    Derivada da mandioca.
    Guloseima que os índios,
    Comiam em suas ocas.
    E o nordestino adotou,
    Por certo ele aprovou,
    Em sua mesa a tapioca.

    Quem jamais provou,
    Precisa experimentar,
    A tapioca de goma
    Feita no meu Ceará.
    Presença confirmada
    Em todas as camadas,
    Das terras de Alencar.

    Há quem use na tapioca,
    Novos ingredientes.
    Recheada e colorida,
    Com sabores diferentes.
    Mas eu amo a tradicional,
    Feita em minha terra natal,
    Com sabor da minha gente.

    Feita com a goma molhada.
    E temperada apenas com sal.
    Depois de úmida e peneirada
    Dá-se continuidade ao ritual.
    Com a frigideira bem quente
    Destas que tem antiaderente
    Conclui-se a receita afinal.

    Frigideira estando no ponto,
    Preste bastante atenção:
    Coloque no fundo dela
    Uma pequena porção
    Da goma bem espalhada,
    Que em seguida será virada
    E está pronta a produção.

    Mas tem só uma coisinha:
    Eu não cheguei a explicar.
    É que a boa tapioqueira
    Sempre vira a tapioca no ar.
    Se você não tem boa mão,
    Nem quer sujar seu chão,
    Invente seu jeito de virar.

    Com um café quentinho
    Eu comia em meu sertão,
    Tapioca com muita nata,
    Como manda a tradição.
    E para ser muito sincera,
    Tendo manteiga da terra,
    Eu até dispensava o pão.

    A tapioca é uma iguaria
    Da culinária Nordestina.
    Mas hoje já se espalhou,
    Pois também é peregrina.
    E percorre nos alforjes
    Do nordestino que foge,
    Buscado uma melhor sina.

    Saudações fraternas,

    Aristeu

    • Obrigada pelo generoso comentário, prezado Aristeu Bezerra! Minha saudosa Mãe era fantástica. As tapiocas que ela fazia eram muito saborosas, como também, outros pratos especiais. Era uma mulher culta, autodidata, que gostava de literatura e valorizava o talento.
      Obrigada por compartilhar comigo, o belo poema da grande poetisa Dalinha Catunda, “A Tapioca”. Adorei!

      Um abraço e um feliz fim de semana!

      Violante .

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