MARCELO BERTOLUCI - DANDO PITACOS

Pois é, na calada da noite a câmara dos deputados aprovou a tal lei do abuso de autoridade. Como sempre repetem nossos políticos, nossos magistrados e nossa imprensa chapa-branca, as instituições brasileiras são sólidas e estão em pleno funcionamento.

A consequência disto é: a chance deste chiqueiro melhorar é ZERO.

Einstein disse uma vez: “Não conseguimos resolver um problema com base no mesmo raciocínio usado para criá-lo.” Nossas “sólidas instituições” não vão mover uma palha para mudar uma situação que elas mesmas criaram em seu próprio interesse.

Alguém acredita que nossos políticos vão criar leis que diminuam a roubalheira e a falta de vergonha da qual eles são os principais beneficiados? Ou que nossos juízes vão parar de pensar que são Deus? Ou que nosso funcionalismo vai passar a pensar que deve viver com os mesmo salários e as mesmas cobranças do resto do povo? Alguém acha que as mudanças que o Brasil precisa virão em um clima de “ordem” e “respeito às instituições” ? Tem que ser muito inocente.

Ahhhh, mas você foi na passeata de domingo, botou camisa da seleção e até tirou selfie para postar no face e no insta, né? Deixa eu contar uma coisa: o Alcolumbre e mais cinquenta e tantos senadores tem sete anos e meio de mandato pela frente. O Toffoli e o Alexandre de Moraes estão garantidos lá até 2042. Eles estão cagando e andando para gente que sai para desfilar no domingo e se orgulha de dizer que fez uma “manifestação pacífica”. Ninguém tem medo de manifestação pacífica. Para eles, uma manifestação pacífica e um rebanho de gado bovino são exatamente a mesma coisa.

O economista Hans-Hermann Hoppe disse: “É ingênuo achar que se pode dar a alguém o monopólio da lei e da ordem e esse alguém não usará seu poder para legislar em causa própria. É ingênuo achar que se pode estabelecer um monopólio da emissão de dinheiro e o dono do monopólio não o usará para imprimir mais e mais dinheiro.” Eu ouso completar: é ingênuo deixar um bando de políticos e sanguessugas acostumar-se a fazer o que quer, e achar que em algum momento eles resolverão, por patriotismo e senso de dever, acabar com sua própria mamata.

A história mostra que existem países que foram construídos por seu povo, e existem países onde o povo sempre abaixou a cabeça e obedeceu às ordens dos poderosos. O Brasil sempre pertenceu, com muito orgulho, ao segundo grupo. Aqui o povo nunca deu palpite. Outros países ensinam às suas crianças sobre revoluções populares e guerras de independência. Nós ensinamos proclamações: Dom Pedro proclamou a independência, Deodoro da Fonseca proclamou a república, Getúlio Vargas proclamou o estado novo amarrando seu cavalo no obelisco. O povo, sempre aplaudindo. Nunca perguntaram a sua opinião, e se alguém perguntasse não saberiam o que dizer.

Diz a sabedoria popular que se o boi soubesse a força que tem, ninguém colocaria uma canga nele. É verdade, mas a questão não é apenas o boi saber a força que tem, mas saber o que fazer com ela. Povos ignorantes como o nosso são mais ou menos como o boi: sabem que tem força, mas não sabem o que fazer com ela. Lembram das manifestações de 2013, durante a Copa das Confederações, o povo gritando “não vai ter Copa”? Sociólogos e antropólogos não sabem até hoje explicar o que foi aquilo: eram milhões de pessoas dizendo que estavam descontentes, sem saber exatamente com o quê; pessoas querendo mudanças, mas sem saber quais mudanças; pessoas exigindo que o governo “fizesse alguma coisa”, sem ter idéia de o que viria a ser esta coisa. Nosso povo era (e ainda é) um boi descontente com a canga, mas sem idéia do que fazer a respeito.

Muitos viram naquele 2013 o início de tempos gloriosos, o povo despertando e tomando em suas mãos o seu destino, blá, blá, blá. Eu fiquei pessimista naquela época e continuo pessimista hoje. O que eu vi foi um povo passando recibo de sua ignorância, escancarando sua incapacidade de ser dono de seu destino, mostrando que se contenta com migalhas de populismo. Afinal, o que mudou depois de tanta manifestação e tanto black-block? O STF continua o mesmo, só que pior, a Câmara e o Senado continuam fazendo o que sempre fizeram, só que com ainda mais descaramento. O Lula está preso? Sim, está, e o Cunha e o Sérgio Cabral também, mas quem dera que fossem só estes os ladrões que roubaram neste país. Prender dez ou quinze políticos é o mesmo que jogar um balde de água em uma floresta em chamas.

Para citar mais um grande nome: Certa vez um jornalista perguntou ao grande Roberto Campos se o Brasil iria falir. Campos respondeu: “Países não podem falir. Países apenas sofrem.”

Continuaremos sofrendo.

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