INTERESSES PARTICULARES X INTERESSES COLETIVOS

O presidente Bolsonaro está sendo provocado, diariamente, e está revidando direta ou indiretamente através dos filhos. Existe uma orquestração simples para fazê-lo quebrar o decoro e a turma da esquerda protocolar um pedido de impeachment. Discutir publicamente com Daniella Mercury é uma bobagem inominável. Ameaçar processar o ator Zé de Abreu por conta da idiotice cometida por ele (se autoproclamar presidente do Brasil) significa pura perda de tempo. A questão com Zé de Abreu deve seguir outro ritmo: entregar a CGU o processo de prestação de contas dos recursos públicos que ele usou e apurar o que foi indevido. Constatado que houve fraude, que se abra um processo um administrativo, exigindo devolução dos recursos que foram desviados da finalidade dos projetos apresentados. Emite-se uma GRU no valor devido e se não for pago, inscreva-se o nome dele na Dívida Ativa da União, declarando inidôneo para firmar contratos com o setor público e pronto.

A celeuma recente é por conta de um vídeo de uma cena carnavalesca que foi postado por Bolsonaro. Não importa se ele se indignou com o que viu e postou. Importa que ele postou e por isso já se fala em quebra de decoro. Em tempos remotos, lá pelos idos dos anos 1980/1990, a molecada que não curtia o carnaval na rua ficava grudada na TV para assistir o baile Vermelho e Preto do Flamengo. Putaria em larga escala. Sexo ao vivo e em cores transmitido, principalmente pela TV Manchete. Esse baile competia com o Scala, de Chico Recarey e a sacanagem era tanta que num determinado ano, Alexandre Garcia, então na Manchete, pediu demissão por conta das cenas absurdas que foram mostradas. Para não esquecer Recarey recebeu o título de cidadão honorário da cidade do Rio de Janeiro. Ele não foi preso, não foi condenado por favorecimento à prostituição. Foi condecorado.

De todos os comentários que vi sobre essa postagem, o mais sensato me pareceu ser o de Janaína Paschoal. Creio que ela interpretou corretamente o momento: a questão não foi o vídeo, mas Bolsonaro ter postado o vídeo. Eu concordo plenamente com ela. Qualquer coisa que Bolsonaro faça vai servir de munição para a oposição. Se ele entrar no meio de um tiroteio numa favela do Rio e salvar uma criança vítima de bala perdida, irão dizer que ele é exibicionista e que isso não é atitude para um presidente. Se o pegarem com a Bíblia na mão, provavelmente dirão que dentro da Bíblia tinha um texto de Olavo de Carvalho.

Bolsonaro não entendeu ainda a dimensão do cargo que ocupa. Agora, a palavra da pessoa física se confunde, em tudo por tudo, com a palavra, com a opinião do presidente. Então, volto a concordar com Janaína quando ela diz que o governo tem um porta-voz que deveria expressar a opinião do governo/presidente. Eu tenho muito receito desse comportamento porque eu acredito que o caminho para o Brasil crescer é através da economia de mercado proposta por Guedes. Concordo plenamente com as privatizações e pela primeira na vida vi um ministro dizer publicamente como iria reduzir o déficit. Outros diziam “precisamos reduzir o déficit em x%” e nunca externavam os caminhos.

A presidência não é como aquele brinquedo que a gente soca e ele volta a ficar em pé. Entende-se, perfeitamente, a defesa de Carlos Bolsonaro pelo pai e vice-versa, mas agora a questão não é defender o pai, mas sim, defender o governo. E as atitudes de Carlos causam o mesmo efeito da bomba de Hiroshima. De modo igual, entende-se perfeitamente a defesa feita por Bolsonaro. Trata-se do filho dele. Conheço muitos casos de pais que se desentenderam porque os filhos brigaram na escola e alguns deles terminaram em morte de um dos lados. O instinto paterno se sobressai, lógico, mas se Bolsonaro tivesse um entendimento maior da sua função, já teriam controlado seus rebentos.

Acho importante lembrar que até o momento temos duas propostas no congresso. A reforma da previdência e a lei anticrime. Foram as únicas apresentadas até o momento, então cabe aos demais ministros colocarem propostas para cultura, educação, saúde, etc. No governo Temer faltou relator para a reforma da previdência, neste está sobrando gente. O remédio é amargo, mas sem ele o paciente morre e o comportamento do presidente pode afetar a aprovação dessa proposta e se isto acontecer o governo acaba porque o mercado deixará de acreditar. Basta lembrar do governo Temer: acabou quando não conseguiu aprovar essa reforma.

No mais, a gente no dia a dia vai descobrindo quebra de decoro por tudo parte. E estas não são questionadas. O mais vergonhoso continua sendo o tratamento privilegiado concedido pelo STF aos bandidos de colarinho branco. Em pleno carnaval foi divulgado conversas entre Aloysio Nunes, advogado de Paulo Preto, Raul Jungmann e Gilmar Mendes. Conversas que culminaram com deferimento do HC que dava mais prazo para juntar provas contra Paulo Preto e o faria se livrar de vários crimes pelo fato de completar 70 anos. Raul Jungmann, tramando. Do mesmo que jeito que fez Thomas Bastos no caso de Palocci e por isso louvo as palavras de Moro respondendo a pergunta de um repórter: “o tempo em que ministros da Justiça atuavam como advogado de defesa de integrantes do governo acabou.”

Então, vamos colocar o comportamento do ministro Raul Jungmann (que na campanha para prefeito do Recife declarou ter um patrimônio de R$ 16.800,00 igual ao salário que recebia como deputado federal) e do canalha Gilmar Mendes, como a mesma cena do vídeo do carnaval: ambos enfiando o dedo no fiofó do povo e urinando nas nossas cabeças.

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