JOSÉ NARCELIO - AO PÉ DA LETRA

Nesse Carnaval usei e abusei da tranquilidade do lar. Avesso ao burburinho carnavalesco fiz um pouco de tudo o que gosto. Li, escrevi e pus em dia filmes, séries e documentários de meu interesse. Passeei, também, algumas vezes, por emissoras televisivas – as menos badaladas. A programação de uma delas me chamou a atenção: uma consulta sobre o mais nobre dos sentimentos humanos.

O entrevistado teria que apontar e justificar qual das emoções ele privilegiaria como a mais louvável e insigne – não se tratava das emoções básicas expressadas pelos nossos contornos faciais, as chamadas Big Six: felicidade, tristeza, medo, surpresa, raiva e nojo. Procurava-se, na pesquisa, o sentimento mais significativo para nós, seres racionais.

Dissecaram e tentaram justificar como as mais profundas e relevantes emoções, o amor, a amizade, a caridade, a compaixão e a empatia entre outras. Todavia, sob meu ponto de vista, cometeram uma profunda omissão esquecendo a gratidão.

O que é gratidão? Gratidão é um sentimento de reconhecimento, uma emoção por saber que uma pessoa fez uma boa ação, um auxílio em favor de outra.

Gratidão é uma espécie de dívida. A gratidão traz junto dela uma série de outros sentimentos como amor, fidelidade, amizade e muito mais. Daí se dizer que a gratidão é o mais nobre dos sentimentos.

São Tomás de Aquino escreveu um Tratado de Gratidão e, segundo ele, este sentimento contém três diferentes níveis de compreensão:

• Reconhecimento da graça ou favor recebido.

• Sensação de gratidão por ter recebido uma ajuda espontânea.

• Retribuição da graça recebida, não por obrigação, mas para permitir que outras pessoas experienciem o mesmo sentimento.

O não reconhecimento da graça; a falta de sentimento pela ajuda espontânea; ou, a falta de sensibilidade para retribuir, de alguma forma, o benefício recebido, a esses procedimentos dá-se o nome de ingratidão – a ausência da gratidão.

A verdade é que, ao nos acostumarmos com o desaparecimento da piedade, da caridade, da misericórdia no mundo, e vendo grassar a miséria e o desamor pelo próximo, a falta de gratidão se tornou um sentimento de somenos importância.

Eu sou um conformado com a falta de reconhecimento pelos favores que eu fiz ao longo da vida – se os fiz -, sem nada esperar em troca. Alegro-me quando alguém afirma ter sido beneficiado, por mim, em algum momento pretérito. O que não me entra na cachola é a perpetração continuada de atos de ingratidão de filhos com os pais, principalmente, quando os progenitores adentram na velhice.

Leon Tolstoi disse: Se seu coração é grande, nenhuma ingratidão o flexa, nenhuma indiferença o cansa. Porém, eu comungo mais com o pensamento de William Shakespeare: Ter um filho ingrato é mais doloroso do que a mordida de uma serpente! Meu intelecto não digere a ingratidão de um filho por quem o criou, amou e dele cuidou durante sua vida.

Exulto ao dizer que não fui ingrato com meus pais, pois tudo o que sou devo a eles. Para mim, no Tratado de Gratidão de São Tomás de Aquino, no terceiro nível de compreensão, no Código de Procedimentos da nossa existência, no capítulo que trata da Família, deveria constar como cláusula pétrea a obrigatoriedade da gratidão de filhos para com os pais. Sem contestação quanto ao mérito do que ali está decretado.

2 pensou em “INGRATIDÃO

  1. Um dos conselhos que mais ouvi de minha mãe foi: seja grato. Nunca esqueça quem lhe ajudou.

    Fiz isso muito bem. Agora, por fraqueza humana acabei não esquecendo, também, de quem me sacaneou.

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